Todas as cores de Lygia Bojunga

Lygia Bojunga, sem favor nenhum, é uma das maiores escritoras brasileiras voltadas ao público infantil. Ela é inteligente, original, densa e inspirada.  Mais do que isso: é uma verdadeira especialista quando o assunto é entender a cabeça e o comportamento de crianças e adolescentes. Todas as suas obras são encantadoras.

Hoje nosso objetivo é recomendar ao nobre leitor a leitura de um dos grandes livros da referida autora. Trata-se de “O meu amigo pintor”,  escrito em 1987, que conta a envolvente estória de amizade entre um esperto adolescente e um pintor muito sensível e solitário. O sentimento que nasce entre os dois personagens que protagonizam o enredo é muito bonito e gera um aprendizado mútuo entre eles. Vale a pena conhecer.

A seguir, trazemos alguns trechos de “O meu amigo pintor”, para aguçar o espírito curioso dos frequentadores do blog:

“Eu não sei se eu já nasci desse jeito ou se eu fui ficando assim por causa do meu amigo pintor, mas quando eu olho pra uma coisa eu me ligo logo é na cor.

Gente, casa, livro, é sempre igual: primeiro eu fico olhando pra cor do olho: da porta, da capa: só depois eu começo a ver o jeito que o resto tem.

Um dia o meu amigo me disse que eu era um garoto com alma de artista, e me deu um álbum com uns trabalhos que ele tinha efeito em aquarela, tinta a óleo e pastel. Disse que tinha arrumado os trabalhos no álbum pra eu entender melhor esse negócio de cor. Nas primeiras páginas só tinha cor. Quer dizer, no princípio, nem cor tinha: era só branco e preto; depois começavam as cores: amarelo, azul, vermelho, e depois essas três cores iam se misturando pra formar uma porção, nuns desenhos que às vezes eu gostava e outras vezes não.

O meu amigo me disse que quanto mais a gente prestava atenção numa cor, mais coisa saía de dentro dela. Eu fiquei olhando pra cara dele sem entender. Não entendi  mesmo aquela história de tanta coisa ir saindo de dentro de uma cor.

De tudo que eu conversava com o meu Amigo tem duas coisas que eu lembro mais. Não sei por quê. A primeira é um papo que a gente teve num domingo. tava chovendo. A gente tinha acabado de jogar. O meu Amigo levantou, acendeu o cachimbo, começou a preparar umas tintas, e então conversou de amor:

Amor de trabalhar. De pintar. Amor de homem e de mulher, de pai, de mãe, amor de cidade-de país- e-de mundo onde a gente mora, amor de filho, de amigo.

– Amor assim feito a gente tem um pelo outro – ele falou.

O meu coração pulou.

Toda a vida eu gostei do meu Amigo assim… assim bem grande; mas eu sempre pensei que ele gostava menor de mim. Não sei se porque eu era criança e ele não; ou se porque ele era um artista e eu não; só sei que quando ele falou de amor o meu coração pulou daquele jeito: será que então a gente se gostava igual?”

Telma

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