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O Último Dia de Um Condenado

Não nos cansamos de festejar a genialidade de Victor Hugo aqui no blog. Realmente somos fãs indisfarçáveis do renomado escritor francês, que faleceu em 1885 e escreveu, dentre outras, obras-primas como “O Corcunda de Notre Dame” e o inigualável “Os Miseráveis”.

Hoje chamamos a atenção do frequentador do blog para mais um arroubo do talento inigualável de Victor Hugo. Nos referimos ao livro “O Último Dia de Um Condenado”, menos conhecido em relação aos acima mencionados, mas igualmente maravilhoso.

“O Último Dia de Um Condenado”, como o próprio nome está a indicar, conta a estória de um sentenciado à pena de morte por guilhotina que, enquanto aguarda sua execução, decide escrever uma espécie de diário registrando suas idéias,  impressões,  aflições e medos.

A sensação que o livro nos passa é aterradora e muito real,  envolvendo todas as questões ligadas à pena de morte. Fica clara a posição crítica de Victor Hugo com relação ao sitema punitivo da época.

A narrativa é muito emocionante e apresenta, em todos os seus aspectos, o clássico dilema entre o direito da sociedade em ver a punição de criminosos e o sagrado direito à vida.

Abaixo, reproduzimos trechos desse livro impressionante. Quer conhecer a angústia e o medo de um condenado à morte, caro leitor? Então, veja:

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“Condenado à morte.

Há cinco semanas vivo com este pensamento, sempre só com ele, sempre gelado pela sua presença, sempre curvado sob seu peso!


Condenado à morte!

Pois bem, por que não? Os homens – lembro-me de ter lido isto não sei em que livro, e onde só isto havia de bom – os homens são todos condenados à morte com prazos indefinidos. Então, o que há de extraordinário na minha situação?

Desde a hora em que a minha sentença foi pronunciada, quantos morreram e que estavam preparados para uma longa vida! Quantos me precederam, novos, livres e sãos, e contavam ir ver em tal dia cair a minha cabeça na praça da Gréve! Quantos daqui até lá, que andam, respiram ao ar livre e se movem à sua vontade, ainda me precederão.

E depois: o que é que a vida para mim tem de saudosa? Na verdade, o dia sombrio e o pão negro da prisão, a porção de caldo magro tirado da tina das galés, ser brutalizado pelos carcereiros e verdugos, não ver um ser humano, que me julgue digno de uma palavra e a quem eu responda, tremer sem cessar, não só do que tiver feito, mas do que me farão: eis mais ou menos os únicos bens que o carrasco me pode tirar!

Ah! No entanto, isto é horrível!

Tudo é prisão em torno de mim; acho-a sob todas as formas, tanto nos homens, como nas grades ou nos ferrolhos. Esta parede é a prisão de pedra; esta porta é a prisão de madeira; estes carcereiros são a prisão em carne e osso. A prisão é uma espécie de ser horrível, completo, indivisível, metade casa, metade homem. Eu sou a sua presa; ela esconde-me, enlaça-me nas suas dobras, encerra-me sob as suas muralhas de granito, prende-me com as suas fechaduras de ferro e vigia-me com seus olhos de carcereiro.

Ah! Miserável! Que será de mim? O que vão eles fazer de mim?

Sinto o coração cheio de raiva e amargura. Creio que o fel rebentou. A morte nos torna maus.

Fechei os olhos e com as mão sobre eles procurei esquecer, esquecer o presente no passado. Enquanto eu sonho, as recordações da minha infância e da minha mocidade vêm-me uma a uma, suaves, calmas, risonhas, como ilhas de flores neste lamaçal de pensamentos negros e confusos que turbilhonam no meu cérebro.

Eles dizem que não é nada, que não se sofre, que é um fim sereno, e a morte desta maneira é muito simplificada.

Então o que é esta agonia de seis semanas e esta ânsia de um dia inteiro? O que são as angústias deste dia irreparável, que desliza tão lentamente e ao mesmo tempo tão depressa? O que é esta escala de torturas, que vai acabar no cadafalso?

E que certezas têm eles de que não se sofre? Quem lhes disse? Sucedeu alguma vez uma cabeça guilhotinada levantar-se sangrenta à beira do cadafalso e gritar ao povo: isto não faz mal?

Ai! O que é que a morte faz da nossa alma? O que lhe deixa? O que lhe dá ou lhe tira? Onde a põe? Algumas vezes lhe emprestará olhos de carne para olhar para a terra e chorar?

E tornei a cair na minha cadeira, sombrio, solitário, desesperado.Agora podem vir! Já nada me detém; a última fibra do meu coração acaba de se partir. Estou bom para o que eles vão fazer.”

Telma

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