Humanidade?

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“Se o homem não for capaz de organizar a economia mundial de forma a satisfazer as necessidades de uma humanidade que está a morrer de fome e de tudo, que humanidade é esta? Nós, que enchemos a boca com a palavra humanidade, acho que ainda não chegamos a isso, não somos seres humanos. Talvez cheguemos um dia a sê-lo, mas não somos, falta-nos mesmo muito. Temos aí o espetáculo do mundo e é uma coisa arrepiante. Vivemos ao lado de tudo o que é negativo como se não tivesse qualquer importância, a banalização do horror, a banalização da violência, da morte, sobretudo se for a morte dos outros, claro. Tanto nos faz que esteja a morrer gente em Sarajevo, e também não devemos falar desta cidade, porque o mundo é um imenso Sarajevo. E enquanto a consciência das pessoas não despertar isto continuará igual. Porque muito do que se faz, faz-se para nos manter a todos na abulia, na carência de vontade, para diminuir a nossa capacidade de intervenção cívica.”

(José Saramago, in “Canarias7 -1994)

 

Karina

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Machismo assimilado

Texto de Eduardo Galeano que vem a calhar nesta triste semana para as mulheres.

 

A AUTORIDADE

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Em épocas remotas, as mulheres se sentavam na
proa das canoas e os homens na popa. As mulheres
caçavam e pescavam. Elas saíam das aldeias e voltavam
quando podiam ou queriam. Os homens montavam
as choças, preparavam a comida, mantinham acesas as
fogueiras contra o frio, cuidavam dos filhos e curtiam
as peles de abrigo.
Assim era a vida entre os índios onas e os yaganes,
na Terra do Fogo, até que um dia os homens mataram
todas as mulheres e puseram as máscaras que as mulheres
tinham inventado para aterrorizá-los.
Somente as meninas recém-nascidas se salvaram
do extermínio. Enquanto elas cresciam, os assassinos
lhes diziam e repetiam que servir aos homens era seu
destino. Elas acreditaram. Também acreditaram suas
filhas e as filhas de suas filhas.

(do livro Mulheres)

Karina

 

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Bukowski

225 dias sob a grama
e você sabe mais do que eu.
há muito eles tiraram seu sangue,
você é um galho seco numa cesta.
é assim que funciona?
nesse quarto
as horas de amor ainda fazem sombras.

quando você partiu
você levou quase
tudo.
eu me ajoelho à noite
ante tigres
que não me deixarão ser.

o que você foi
não vai acontecer de novo.
os tigres me encontraram
e eu não ligo.

(Charles Bukowski, Para Jane)

 

Karina

 

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Trecho de Saramago

” (…) Quando Baltasar entra em casa, ouve o murmúrio que vem da cozinha, é a voz da mãe, a voz de Blimunda, ora uma, ora outra, mal se conhecem e têm tanto para dizer, é a grande, interminável conversa das mulheres, parece coisa nenhuma, isto pensam os homens, nem eles imaginam que esta conversa é que segura o mundo na sua órbita, não fossem falarem as mulheres umas com as outras, já os homens teriam perdido o sentido da casa e do planeta, Deite-me sua benção, minha mãe, Deus te abençõe, meu filho, não falou Blimunda, não lhe falou Baltasar, apenas se olharam, olharem-se era a casa de ambos.”

(Memorial do Convento, José Saramago, p. 109)

Karina

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Herança

Herança

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Eu vim de infinitos caminhos,
e os meus sonhos choveram lúcido pranto
pelo chão.

Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos,
essa vida, que era tão viva, tão fecunda,
porque vinha de um coração?

E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos,
do pranto que caiu dos meus olhos passados,
que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão?

 
(Cecília Meireles)

Karina

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Agradecimento

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Hoje nosso Blog conquistou 1.008.518 visualizações!

Estamos extremamente felizes e gratas. Em um mundo onde prevalecem a tecnologia, as redes sociais e seu divertido, porém superficial conteúdo, mais de um milhão de acessos a um blog que tem por objeto exclusivamente a literatura, é uma marca impressionante.

Agradecemos aos leitores e seguidores do Blog, que foram os responsáveis por manter acesa a vontade de continuarmos postando as maravilhas contidas nos livros.

Obrigada,

Karina e Telma

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Um sonho, por Rubem Alves

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Não posso escrever sobre outra coisa. E não devia escrever nada hoje. Penso um instante no que sentirão os leitores: essa coisa que me emociona de maneira tão profunda, o sonho que, ainda me dói no corpo e na alma, será para eles uma vitória vulgar; pior ainda, precisarei escrever com muito cuidado, para que esse instante de infinita pureza que eu vivi não pareça, a outrem, apenas um pequeno trecho de literatura barata.

Na verdade não houve nem mesmo um beijo, ou, se houve, ele perdeu qualquer sentido, para ficar apenas dentro de mim essa impressão de doçura profunda e perfeita de felicidade. Aquela mulher estava nua. E escrevendo “mulher nua” no jornal, como soa a escândalo! Seria preciso escrever com uma grande delicadeza para fazer sentir como eu senti naquele momento: beleza, pureza – alguma coisa tão limpa e tão suave, além de qualquer desejo, apenas o sentimento da vida mansa daquela pele de um dourado pálido.

Além dos nossos sentidos há um outro – mas não estou falando de coisas espirituais, eu estou falando de sentimentos vividos em um instante em que não há diferença entre coisas materiais e espirituais. Se as linhas de seu corpo ainda existiam, eram como uma vaga lembrança, um desenho imaterial suspenso no ar. O que me emocionava era a carne, como se eu vivesse a vida de seus tecidos, a sua doce vida perante o ar – leve como um sussurro de ramos longe, como um ruflar de ave imponderável, um murmúrio perdido na distancia. E seu corpo era tão belo que senti um aperto na garganta, e os olhos úmidos.

Perdido! Eu lutava confusamente para não despertar de todo, pois sabia que então estaria perdido para sempre esse corpo feito de carne e sonho. Uma angústia se apossou de mim, a claridade da janela me feria os olhos, afundei a cabeça no leito para salvar essa visão de vinte anos antes.

E ainda o revi por um instante, como se estivesse sumindo em uma luz dourada, e na luz se perdendo, voltando a ser apenas luz.

Desperto. Penso um instante nessa mulher de quem há tantos anos não tenho notícia nem quase lembrança, essa que foi perfeita na dignidade e na pureza de sua nudez – e que hoje ainda não sei em que cidade ou país, não sei ao lado de quem – nem sei mesmo se ainda vive. Sua pessoa, sua risada, sua amargura, e o som de sua voz, tudo se perdeu em mim. Mas por um instante viveu, no meu sonho, aquele esplendor suave de uma nudez, que eu guardara tão quietamente no fundo de minha emoção como se quisesse proteger de todo o lirismo e de toda a sensualidade o momento melhor de minha vida.

 

Karina

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O Imponderável, por Fabrício Carpinejar

“O Imponderável”

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Ele não tem amigos. Não tem família. É solitário e ajuda para o bem ou para o mal.

Nunca sei o que pode ocorrer, por mais que tenha antecipado situações.

Já me acostumei com a visita do Imponderável em minha vida.

Ele entra sem permissão, sem licença e muda a ordem dos acontecimentos.

 

Tenho certeza que você também conhece. Ele não deixa nenhum lar desassistido. Não compra ingressos, não paga estacionamento. Para qualquer evento, usa carteiraço. Entra em casamento, em velório, em aniversário com a maior cara de pau.

Quando treinamos a realidade, não programamos a sua presença indiscutível.

É ele que manda e decide. Somos coadjuvantes de seus repentes. Você teve
que lidar com sua invasão fantasmagórica no vestibular quando se sentia afiado
e surgiu o branco, no momento de atravessar uma festa para chamar uma colega para dançar e alguém se antecipa.

O Imponderável tem preferência por quem se prepara antes para algum teste emocional. Sua diversão é destruir nossos roteiros e planejamentos, mostrar que não somos onipotentes, que não tem como cantar vitória no primeiro tempo.

É uma criança grande e desengonçada, com humor sarcástico de um velho ranzinza.

Ele não tem amigos. Não tem família. É solitário e ajuda para o bem ou para o mal.

É como uma versão ateísta do Espírito Santo.

Vou me separar, peço a bênção aos meus amigos, memorizo o que direi, o tom, o encadeamento das explicações, me sinto pronto e indestrutível, mas quando me encontro com a esposa, vem também o Imponderável. Ela está cheirosa, linda, suave, nada raivosa como nos últimos dias, e cedo aos encantos de sua doçura, fico subitamente excitado e acabo me reconciliando de novo.

Vou pedir uma mulher em namoro, depois de dois meses de saídas e flertes. Compro um par de brincos, ensaio o discurso, escolho o restaurante, encaminho champanhe ao gelo, tudo perfeito, até que o Imponderável aparece e ela esbarra em seu ex antes de sentar e eles se abraçam de um jeito sensual e duvidoso que amarga os meus planos. Não digo nada do que sinto e nunca mais nos revemos.

Vou participar de uma entrevista de emprego, é meu grande momento profissional, nasci para fazer aquilo, fui aprovado com alta nota no teste de conhecimentos gerais, agora é questão de um detalhe, só não responder nenhuma doideira e se revelar minimamente equilibrado. Mas, ao entrar na sala do RH, o Imponderável caminha ao meu lado. O entrevistador é um colega da infância, o Bola, meu alvo predileto de bullying.

O Imponderável nos devolve à humildade.

Um amigo morre precocemente. Um divórcio é deflagrado na mais alta alegria. Uma reconciliação entre inimigos mortais é sacramentada do acaso. Tudo tem o dedo do Imponderável. O impossível se transforma em possível, e o possível se torna um fracasso.

O que nos resta é perceber que a vida é muito curta para ter razão, mas vale é ter amor e perder a razão. Aquele que ama improvisa.

(Fabrício Carpinejar, Jornal Zero Hora, 11/02/2014)

 

Fabrício Carpinejar é escritor e poeta, nascido em Caxias do Sul/RS em 23/10/1972. Desde maio de 2011 mantém no Jornal Zero Hora a coluna antes ocupada por Moacyr Scliar. Possui vários livros publicados.

 

Karina

 

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Cecília Meireles e a rosa

Primeiro Motivo da Rosa

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Vejo-te em seda e nácar,
e tão de orvalho trêmula, que penso ver, efêmera,
toda a Beleza em lágrimas
por ser bela e ser frágil.

Meus olhos te ofereço:
espelho para face
que terás, no meu verso,
quando, depois que passes,
jamais ninguém te esqueça.

Então, de seda e nácar,
toda de orvalho trêmula, serás eterna. E efêmero
o rosto meu, nas lágrimas
do teu orvalho… E frágil.

(Cecília Meireles, em Mar Absoluto)

Lindo poema que trata da efemeridade da rosa em contraste com a perenidade da flor a partir do momento em que será eternizada pelo verso da poeta.

Karina

 

 

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Uma dedicatória à minha Esposa, por T.S. Eliot

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A quem devo o súbito prazer
Que me estimula os sentidos nas horas acordadas
E o ritmo que nos governa o repouso nas horas dormidas,
A respiração em uníssono

Dos amantes cujos corpos cheiram um ao outro
Que pensam os mesmo pensamentos sem precisar de palavras
E balbuciam as mesmas palavras sem precisar de sentido.

Nenhum vento de inverno impertinente vai gelar
Nenhum sol de trópico rabugento vai fazer murchar
As rosas no rosal que é nosso que é só nosso

Mas esta dedicatória é para outros lerem:
São palavras reservadas dirigidas a você em público.

 
 
(T.S.Eliot in Obras Completas – Volume I – Poesia – Tradução de Ivan Junqueira)
 Thomas Stearns Eliot foi poeta, dramaturgo e crítico literário. Nasceu em 26 de setembro de 1888 nos Estados Unidos, na cidade de St. Louis, no Missouri.  Transferiu-se para a Inglaterra em 1914, onde adquiriu a cidadania britânica. Sua obra recebeu influência de Charles Baudelaire.
Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura de 1948.
Faleceu no ano de 1965, em Londres, deixando importante obra literária.
Karina

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