Mulheres de Cinzas

14072_gg“Havia algures uma guerra antiga, num tempo em que nenhum lugar tinha ainda nome. A batalha estava nos preparativos iniciais, nesse momento em que os guerreiros possuem tanta fé que deixam de se ver a si mesmos, frágeis e tomados pelo medo. Os dois exércitos se perfilavam para o confronto quando um enorme clarão rasgou os céus.

Uma incandescência de estrela varreu o firmamento. Os soldados tombaram, momentaneamente cegos. Quando voltaram a si tinham perdido a memória, desconhecendo para que serviam as armas que traziam nos braços. Eles então se desfizeram das lanças, zagaias e escudos e olharam uns para os outros, sem saber o que fazer. Até que, perplexos, os chefes rivais se saudaram. A seguir os soldados se abraçaram. E, quando voltaram a olhar a paisagem, não mais viram território para conquistar, mas terra para cultivar.

Por fim, os homens dispersaram. No regresso a suas casas, escutaram a mais antiga canção de embalar, entoada nas infinitas vozes de uma única mulher.”

(Trecho de Mulheres de cinzas – I – As areias do imperador, de Mia Couto)

Karina

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