Lygia Fagundes Telles

Os trechos de hoje são da consagrada escritora brasileira Lygia Fagundes Telles e foi extraído do romance Verão no Aquário, que traz uma relação conflituosa entre mãe e filha. Escolhemos duas passagens de diálogos entre as duas personagens:

“(…) E pensando em ir para o meu quarto achei-me defronte do escritório da minha mãe. A porta estava entreaberta.

– Estou interrompendo?

Ela pousou as mãos no teclado da máquina. Titou osóculos.

– Não, não está interrompendo. Quer uma xícara de chá?

Comecei a rir. E inclinei-me para cheirar o solitário botão de rosa espetado no vaso.

– Há bandejas de chá em todos os cantos desta casa, acho que nossa família tem raízes no Oriente. É ver a China.

Ela serviu-se, imperturbável. Havia duas xícaras na mesa, naturalmente Dionísia esquecera que André estava ausente.

– E então, Raíza? Quais são as novidades?

– Faz tempo que não acontece nada, mamãe, a não ser este calor… Mordisquei uma torrada. Mas sabe, só mesmo nesse aspecto vocês duas se parecem, quero dizer, titia e você. Acho que é o único traço familiar entre ambas, um bule de chá. E também essa preferência pelas cores tímidas, vocês só usam o rosa, o lilás, o azul-claro, cores assim. Titia está cortando um vestido cor de mel.

Ela encarou-me.Usava uma blusa de percal com delicadas ramagens num fundo verde-água. Os cabelos presos. O rosto liso, limpo. Que espécie de beleza era aquela que parecia vir de dentro, tão mansa? Grave. Era incrível como enfrentava a claridade de um dia assim.

 – Mas como está você, filha? Moramos na mesma casa e não nos encontramos nunca.

Encolhi os ombros. Acendi um cigarro.

– E o livro? Adiantado?

– Estou no fim.

– Diz que os antigos comiam folha de louro para se inspirarem. Você também?

– Prefiro folhas de chá, respondeu ela arrumando os originais ao lado da máquina. E o Fernando?

Descobri que havia algumas sardas na sua mão. E essas não eram sardas de sol. Esfreguei num desalento as solas dos pés no tapete. Por que aquelas sardas? As mãos iam envelhecer primeiro.

– E o Fernando? repetiu ela escondendo as mãos no regaço, num gesto instintivo de proteção. Recuou um pouco, como se tivesse pressentido minha descoberta. Ainda estão firmes?

Sentei-me. Por que aquilo tudo? Ela não devia ter medo de mim, não devia. Queria-a jovem, em plena força, comtodas as armas. Devia haver um creme para fazer desaparecer aquelas sardas… Tive vontade de ajoelhar-me e deitar a cabeça no seu colo.

– Não sei dele, mamãe, respondi com brandura. Faz tempo que não nos vemos. Resolvi me afastar, acho que acabou o amor.

– Há um outro?

– Mais ou menos… Um amor platônico, creio mesmo que sem maiores consequências. Ele me ama mas tem outro amor, espécie de partilha espiritual.

– E os estudos? Quer dizer que não vai mesmo continuar.

Por que ela falava naquele tom? Por quê?

– Mas eu queria ser uma grande pianista?

– Só depois de muitos anos de trabalho você poderia ter essa resposta. Seria preciso antes muita dedicação, muito amor para que um dia você mesma saiba…

– Se venci? atalhei-a levantando-me. Quer dizer que só na velhice? Não, muito obrigada, quero a resposta já. Não suporto a ideia de passar a vida estudando para depois um Goldenberg me anunciar que não tenho vocação, que devo fazer outra coisa.

Ela pareceu concentrar-se num pensamento doloroso mas distante. Os olhos se apertaram cheios de uma ácida sabedoria. Mas a expressão não durou mais do que um brevíssimo segundo e a fisionomia ficou logo serena.

– Ainda não chegou a hora.

– Que hora?

– Quando chegar você saberá. disse ela baixinho. O sorriso irradiou-se da boca para o olhar. Você saberá, Raíza.

Voltei-me para a estante e abri ao acaso um livro. Mas senti seu olhar fixo em mim. Ah! como me irritavam aquelas expressões veladas de sábio do Sião conversando com a formiguinha! A dama esquiva. Se um pintor fizesse nesse instante o seu retrato, tinha que batizá-lo assim, A Dama Esquiva.

” (…) Baixei a cabeça. Chegara o momento de vê-la. Mas tinha que ser já? Apanhei depressa a escova e puxei os cabelos para a cara, escovando-os até que formassem uma espessa cortina entre nós duas. Meu Deus, faça com que ela não tenha mudado, faça com que ela esteja igual! O sangue aqueceu-me o rosto. Vinha-me agora a certeza de que eu a veria como antes, como naquela tarde que a encontrei com André pela primeira vez, “André, esta é a minha filha”. Atirei os cabelos para trás. Ficamos na luz como tínhamos ficado no escuro. A prova mais dura acabava de ser feita. Corri para abraçá-la.

– Quis tanto te quebrar e quem se quebrou fui eu.

Ela arqueou as sobrancelhas numa expressão graciosa mas dolorida.

– Os velhos vão-se enrijecendo, Raíza, fica difícil quebrá-los. E os jovens se reconstituem tão depressa que em poucos dias já desaparecem as marcas todas. Amanhã ou depois você estará radiosa outra vez.

Alisei-lhe a gola da blusa que tinha um ligeiro vinco.

– Minha mãe linda, murmurei voltando-me para o espelho. Em compensação, olha o estado em que fiquei.

Ela saiu para voltar em seguida com um copo de leite. Estava morno e doce. Bebi-o de olhos fechados.

– Então você está uma ruína? Literatura, filha, sussurou passando suavemente a escova nos meus cabelos. Quero ver essa ruína assim que você encontrar um novo amor, tão grande, tão definitivo que só haverá uma solução lógica, o casamento.

– Não, mamãe, protestei veemente, não quero mais amar. E não me fale nem brincando em casamento, juro que peço a Deus mais do que um pouco de sossego. Quero aceitar minha solidão.

Ela atalhou-me, rápida.

– Literatura, ainda. Daqui a pouco você me dirá que a carne é triste e que já leu todos os livros, todos!… Literatura, filha, porque na verdade você leu pouco, sabe? E a carne até que não é tão triste assim.

Olhei-a através do espelho. Qualquer citação agora nos faria pensar nele. A carne até que não é tão trsite, ela contestara com firmeza. Como se já soubesse também que a carne não é triste quando existe o amor.”

Karina

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