Semana da Mulher

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, esta semana o blog trará trechos,crônicas e poemas escritos por mulheres.

Hoje começaremos com um trecho do livro Rumo ao Farol, da grande escritora inglesa Virginia Woolf. O livro em questão traz a estória de uma família e alguns amigos de férias numa casa de praia nas ilhas escocesas. O desejo do filho mais novo da Sra. Ramsay de visitar o farol, desencadeia todo o enredo, repleto de reflexões e análises psicológicas. Considerado a obra-prima de Virginia Woolf, é um livro que vale a pena ser lido.

Eis alguns trechos:

” (…) Queria dominar, interferir, fazer os outros obedecerem às suas vontades – coisa que ela achava a maior injustiça. Mas que podia fazer se causava essa impressão? Ninguém poderia acusá-la de se esforçar para impressionar os outros. Muitas vezes se envergonhava de sua própria fraqueza. Não era autoritária, tampouco tirânica. Talvez se pudesse dizer isso quando reagia apaixonadamente em relação a hospitais, saúde pública e queijarias. E, se tivesse oportunidade, gostaria de agarrar as pessoas pela gola e obrigá-las a ver. Nenhum hospital na ilha. Era uma vergonha. O leite entregue à porta, em Londres, era literalmente negro de sujeira. Deveria ser proibido. Duas coisas que ela mesma gostaria de fazer ali: um hospital e uma queijaria modelo. Mas como? Com todos aqueles filhos? Quando ficassem mais velhos, talvez tivesse tempo; quando todos estivessem na escola.

Oh, mas não queria que James ficasse nem um dia mais velho, nem Cam. Gostaria de conservar os dois para sempre, assim mesmo como eram, demônios perversos, anjos encantadores; nunca deixá-los crescer e se transformar em monstros de pernas compridas. Nada poderia compensar essa perda. Quando lera, há pouco para James: “e havia uma infinidade de soldados com címbalos e trombetas”, e seus olhos se turvaram, pensou: por que precisavam crescer e perder tudo isso? James era o mais bem-dotado, o mais sensível de seus filhos. Mas todos, pensou, eram promissores. Prue era um perfeito anjo para com os outros, e às vezes acontecia, agora, principalmente à noite, de as pessoas chegarem a perder a respiração com sua beleza. Andrew – até mesmo o marido admitia – tinha um talento extraordinário para a matemática. Nancy e Roger eram criaturas selvagens que corriam pelo campo o dia inteiro. Quanto a Rose, tinha a boca enorme, mas era extremamente bem dotada nas mãos. Quando brincavam de mímica, era Rose quem preparava as fantasias apropriadas; fazia de tudo; gostava de arrumar mesas, flores, qualquer coisa. Não lhe agradava que Jasper atirasse em passarinhos; mas isso era apenas uma fase. Todas as crianças passam por fases. Por que, perguntou-se, apertando o queixo contra a cabeça de James, por que precisavam crescer tão depressa? Por que precisavam ir para a escola? Gostaria de ter sempre um bebê. Era a pessoa mais feliz do mundo quando carregava um bebê nos braços. Então, se quisessem, as pessoas até poderiam dizer que era tirânica, autoritária, dominadora, não se importava. E, tocando no cabelo de James com os lábios, pensou: ele nunca será tão feliz como agora – mas conteve-se, lembrando-se de como irritava o marido quando dizia isso. Contudo, era verdade. Nunca seriam tão felizes como agora. Um conjunto de chá de dez pences deixava Cam feliz por vários dias. Ouvia-os gritando e batendo os pés acima de sua cabeça, desde o instante em que acordavam. Chegavam alvoroçados pelo corredor. A porta se escancarava e eles entravam, orvalhados pelo ar da manhã, os olhos fixos, bem abertos, como se entrar na sala de jantar depois do café da manhã – o que faziam diariamente – constituísse para eles um acontecimento extraordinário; e assim por diante, em uma coisa ou outra, durante todo o dia, até que ela subia e lhes dizia boa-noite e os achava aninhados em suas caminhas, como passarinhos entre cerejas e amoras, ainda inventando histórias sobre alguma bagatela: algo que ouviram ou pegaram no jardim. Todos tinham seus pequenos tesouros… E assim descera e perguntara ao marido: por que precisavam crescer e perder tudo isso? Nunca seriam tão felizes como agora.E ele ficara zangado. Por que ter uma visão tão pessimista da vida?, dissera. Não é razoável. Pois era estranho; ela pensava, com toda a sua tristeza e desespero, que na verdade o marido era mais feliz, mais confiante do que ela. Menos exposto às aflições humanas – sim, talvez fosse isso. Ele sempre contava com o seu trabalho, ao qual podia recorrer. Não que ela fosse “pessimista”, como ele a acusava. Apenas pensava na vida – e um pequeno trecho desta se apresentou diante de seus olhos:seus cinquenta anos. Ali estava, diante dela: a vida. A vida: pensava, mas não terminava o pensamento. Olhou a vida de relance, pois a sentia nitidamente ali, algo real, íntimo, que não compartilhava com os filhos, nem com o marido. Existia um certo intercâmbio entre elas, no qual ela ficava de um lado, e do outro a vida. E ela estava sempre tentando levar a melhor, tal como lhe era peculiar. E às vezes confabulavam (quando ficava sentada sozinha). Havia, lembrava-se, cenas grandiosas de reconciliação; mas na maior parte do tempo, por estranho que pareça, precisava adimiti-lo, sentia aquilo que chamava vida como alguma coisa terrível, hostil, pronta para se lançar sobre quem quer que lhe desse uma oportunidade. Havia os eternos problemas: o sofrimento, a morte, os pobres. Havia sempre uma mulher morrendo de câncer, ali mesmo. Contudo, dissera a todos os seus filhos: vocês superarão tudo isso. Repetira-o incessantemente a oito pessoas (e a conta da estufa seria de cinquenta libras). Por essa razão, sabendo o que os esperava – amor, ambição, a solidão e a infelicidade em lugares sombrios -, é que pensara, inúmeras vezes:por que precisavam crescer e perder tudo isso? Então, dizia a si mesma, interpondo-se à vida: bobagem. Serão plenamente felizes.”

(…)

“E o que aconteceria depois? Pois ela sentiu que ele ainda a olhava, mas seu olhar havia mudado. Ele queria alguma coisa – exatamente o que ela achava tão difícil de lhe dar: queria que ela dissesse que o amava. Mas isso ela não podia fazer. Ele tinha muito mais facilidade para falar do que ela. Ele conseguia dizer as coisas – ela nunca. Assim, naturalmente, era ele quem sempre dizia as coisas, e, por algum motivo, de repente se ressentia disso e a reprovava. Uma mulher fria – era como ele a chamava; nunca lhe dizia que o amava. Mas não era nada disso – não era isso. É que ela nunca conseguia dizer o que sentia, isso era tudo. Seu casaco estaria sujo? Haveria algo que pudesse fazer por ele? Levantando-se, postou-se junto à janela, com a meia castanha nas mãos, em parte para se afastar dele, em parte porque não se importava de olhar o Farol enquanto ele a observava. Sim, sabia que ele virara a cabeça na mesma direção que ela; que a observava. Sabia que estaria pensando: você está mais linda do que nunca. E sentiu-se linda. Não me dirá pelo menos uma vez que me ama? Pois ele estava enleado e pensava não só em Minta e no seu livro como também que o dia já estava terminando e que tinham discutido por causa da ida ao Farol. Mas ela não conseguiria, não poderia dizê-lo. Então, sabendo que ele a olhava, em vez de dizer alguma coisa, voltou-se com a meia na mão e olhou-o. E, ao olhá-lo, começou a sorrir, pois embora não dissesse uma única palavra, ele soube, claro que soube, que ela o amava. Não poderia negá-lo. E, sorrindo, ela olhou pela janela e falou (pensando consigo mesma que nada na Terra poderia se comparar a uma tal felicidade):

– Sim, você tinha razão. Amanhã vai chover. – Ela não o dissera, mas ele sabia. Ela o olhava, sorrindo. Pois ela triunfara mais uma vez.”

Virginia Woolf nasceu no ano de 1882, em Londres. Introduziu a prosa moderna na literatura inglesa e é considerada uma das maiores escritoras de todos os tempos. Sua narrativa é marcada pelo estilo “fluxo de consciência”, técnica literária através da qual se retrata minuciosamente todos os pensamentos do personagem, sua imaginação, reminiscências e impressões pessoais. Tem vários livros publicados. Suicidou-se em 1941 e foi uma grande perda para a literatura mundial.

Karina

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