Sexta-feira com Baudelaire

Mais um belo poema do grande poeta francês Charles Baudelaire:

As Jóias

A amada estava nua e, por ser eu seu amante,

Das jóias só guardara as que o bulício inquieta,

Cujo rico esplendor lhe dava esse ar triunfante

Que em seus dias de glória a escrava moura afeta.

/

Quando ela dança e entorna um timbre acre e sonoro,

Este universo mineral que à luz figura

Ao êxtase me leva, e é com furor que adoro

As coisas em que o som ao fogo se mistura.

/

Ela estava deitada e se deixava amar,

E do alto do divã, imersa em paz, sorria

A meu amor profundo e doce como o mar,

Que ao corpo, como à escarpa, em ondas lhe subia.

/

O olhar cravado em mim, como um tigre abatido,

Com ar vago e distante ela ensaiava poses,

E o lúbrico fervor à candidez unido

Punha-lhe um novo encanto às cruéis metamorfoses.

/

E sua perna e o braço, a coxa e os rins, untados

Como de óleo, imitar de um cisne a fluida linha,

Passavam diante de meus olhos sossegados;

E o ventre e os seios, como cachos de uma vinha,

/

Se aproximavam, mais sutis que Anjos do Mal,

Para agitar minha alma enfim posta em repouso,

Ou arrancá-la então a rocha de cristal

Onde, calma e sozinha, ela encontra pouso.

/

Como se a luz de um novo esboço, unidade eu via

De Antíope a cintura a um busto adolescente,

De tal modo que os quadris moldavam-lhe a bacia.

E a maquilagem lhe era esplêndida e luzente!

/

– E estando a lamparina agora agonizante,

Como na alcova houvesse a luz só da lareira

Toda vez que emitia um suspiro faiscante,

Inundava de sangue essa pele trigueira.

Karina

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7 Respostas so far »

  1. 1

    Romântico, completo, sensível, sensual, lascivo, revigorante, maravilhoso! Quem dera os poetas de hoje, pudessem escrever com tamanha profundidade. Este poema me lembrou o poema de um amigo e escritor, Anisio Lana, em bora este poema dele seja um pouco mais tênue ao falar da sedução. Chama-se: “Quando uma mulher se despe.” http://www.recantodasletras.com.br/poesiasdeamor/398282

  2. 3

    Vinicius said,

    Karina, concordo com a Karine, mas saliento que há poetas jovens com profundidade poética, no entanto, estão entrincheirados na letargia de nosso tempo, onde a poesia jaz quase como o latim, uma língua morta. Em caráter de informação: esse poema do Baudelaire é das “Flores do mal”?

    Abraço

    • 4

      Telma e Karina said,

      Olá, Vinicius. Você tem razão. A poesia está tão desprestigiada que muitos bons poetas passam despercebidos, infelizmente… Esse poema é das Flores do Mal sim, mas há diferenças na tradução, dependendo do tradutor. Um abraço. Karina

  3. 5

    *Sô* said,

    sensível lindo!
    Bju

  4. 6

    Pedro said,

    Embora essa tradução seja, como recriação, muito bem feita e bem acabada, deixa muitíssimo à desejar ao talento, técnica e imaginação do original. Baudelaire alterna rimas agudas e graves, e com isso dá uma variação de ritmo que quebra a monotonia do som, o tradutor aqui deixou de lado esse detalhe importantíssimo ao meu ver; também, se comparado, ele enxerta uns adjetivos que, embora adaptem o verso à musicalidade exigida, dão uma ideia oposta ao original e valorizam mais as sensações do que a imagem que o original em francês evoca (porque “cruéis metamorfoses” se no original as metamorfoses dela são lúbricas e ternas ao mesmo tempo?). A métrica dessa tradução falha por vezes e quebra o ritmo, o que no original não acontece e dá um ar de romantismo à um poema que é essencialmente parnasiano, o que na minha opinião é injusto com o autor. A linguagem do original é objetiva, descritiva, sóbria, reta, sem expansões de sentimentalismo, o que a tradução não conserva. O poeta descreve com clareza e simplicidade os movimentos dos corpos e das almas no poema, o que na tradução não acontece, posto que em muitos momentos a imagem fica obscurecida por uma linguagem excessivamente culta e elaborada, como na primeira estrofe que diz assim no original, em tradução livre, com intuito de esclarecer a simplicidade da cena:

    “A amada estava nua e, conhecendo os meus gostos, / havia mantido sobre o corpo apenas as jóias tilintantes, / cuja rica atração lhe dava um ar vitorioso / que tinham as escravas mouras nos seus dias de alegria.”

    Ou seja, ele de forma sensível e clara diz que a amada dele, conhecendo o gosto (parnasiano) que ele tem pelo metal e pelas pedras e pelas coisas em que a luz se une ao som (o brilho das pedras preciosas ao som dos braceletes, brincos e colares tilintando), como fica esclarecido mais tarde, enfim, a amada veste unicamente as suas jóias, para agradá-lo e começar o jogo de sedução que se desenrola no poema.

    Gostaria de saber se algum leitor conseguiu enxergar essa imagem e essa ideia com os versos “A amada estava nua e, por ser eu seu amante, / das jóias só guardara as que o bulício inquieta,”.

    • 7

      Pedro said,

      Para completar, ler Charles Baudelaire no original é, para dar uma ideia mais exata, como ler Olavo Bilac ou Alberto de Oliveira em português. A poder de evocação de imagens através da descrição exata, mas poética, é equivalente nos três poetas, vide O Sonho de Marco Antônio, de Olavo Bilac, em que é impossível não enxergar e ouvir como em uma tela diante dos olhos, o acampamento, as tendas, o céu negro, as sentinelas marchando, o passo da marcha ecoando ao longe…


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