Ouvir: um ato de humildade

Rubem Alves, escritor e psicanalista nascido em 15 de setembro de 1933, em Boa Esperança, Minas Gerais, é absolutamente encantador. Tem um modo singular e fantástico de falar sobre temas do cotidiano.

O livro “Ostra Feliz Não Faz Pérola”, de sua autoria, é prova disso. Trata-se de um livro de crônicas a que já fizemos referência aqui no blog e permeado de lições para a vida. Deve ser lido, relido e “trelido” seguidamente.

Difícil foi escolher mais um entre tantos fragmentos desse livro tão maravilhoso para abrilhantar nosso blog. Optamos por um, sagaz e incrível como todos os outros e intitulado como “Sobre o ouvir”. Apreciem!

Sobre o ouvir

O ato de ouvir exige humildade de quem ouve. E a humildade está nisso: saber, não com a cabeça mas com o coração, que é possível que o outro veja mundos que nós não vemos. Mas isso, admitir que o outro vê coisas que nós não vemos, implica reconhecer que somos meio cegos… Vemos pouco, vemos torto, vemos errado. Bernardo Soares diz que aquilo que vemos é aquilo que somos. Assim, para sair do círculo fechado de nós mesmos, em que só vemos nosso próprio rosto refletido nas coisas, é preciso que nos coloquemos fora de nós mesmos. Não somos os umbigo do mundo. E isso é muito difícil: reconhecer que não somos o umbigo do mundo! Para se ouvir de verdade, isso é, para nos colocarmos dentro do mundo do outro, é preciso colocar entre parentêsis, ainda que provisoriamente as nossas opiniões. Minhas opiniões! É claro que eu acredito que as minhas opiniões são a expressão da verdade. Se eu não acreditasse na verdade daquilo que penso, trocaria meus pensamentos por outros. E se falo é para fazer com que aquele que me ouve acredite em mim, troque os seus pensamentos pelos meus. É norma de boa educação ficar em silêncio enquanto o outro fala. Mas esse silêncio não é verdadeiro. É apenas um tempo de espera: estou esperando que ele termine de falar para que eu,então, diga a verdade. A prova disto  está no seguinte: se levo a sério o que o outro está dizendo, que é diferente do que penso, depois de terminada a sua fala eu ficaria em silêncio, para ruminar aquilo que ele disse, que me é estranho. Mas isso jamais acontece. A resposta vem sempre rápida e imediata. A resposta rápida quer dizer: “Não preciso ouvi-lo. Basta que eu me ouça a mim mesmo. Não vou perder tempo ruminando o que você disse. Aquilo que você disse não é o que eu diria, portanto está errado…”

Telma

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4 Respostas so far »

  1. 1

    Juliana said,

    Olá, Telma. Adorei o seu blog. Tenho um com temática parecida. Seria ótimo receber sua visita. Abraço! http://www.lerparacontar.com

  2. 3

    said,

    Realmente nossa reação é de bate e pronto ao termino de ouvir…embora eu tenho o hábito de me colocar no lugar do outro, acho q esta é a unica forma de conseguir entender/sentir de fato.
    Adorei esta postagem!
    Bj

  3. 4

    Vinicius said,

    Vou ruminar o texto no calor aconchegante do silêncio.

    Abraço.


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