Conto de Wander Piroli

O escritor e jornalista Wander Piroli nasceu em Belo Horizonte, no ano de 1931. Autor de livros consagrados como “A mãe e o filho da mãe”, “A máquina de fazer amor” e “É proibido comer grama”, entre outros, nos deixou no ano de 2006. Realista, em regra seus personagens principais são provenientes de baixas classes sociais, com uma vida difícil, erigidos à categoria de grandes heróis do dia a dia em suas histórias.

O conto postado abaixo é de sua autoria e traz justamente essa visão de mundo realista, mas sem deixar de apresentar um toque de pureza e ternura. Aprecie:

Trabalhadores do Brasil

Como uma ilha entre as pessoas que se comprimiam no abrigo de bonde, o homem mantinha-se concentrado no seu serviço. Era especialista em colorir retrato e fazia caricatura em cinco minutos. No momento ele retocava uma foto de Getúlio Vargas, que mostrava um dos melhores sorrisos do presidente morto.

O homem estava sentado num tamborete rústico, com os joelhos cruzados e a cabeça baixa. À sua direita havia uma mesinha de desarmar, entulhada de lápis de vários tipos e cores, folhas de papel em branco, borrachas, tesouras e um pouco de estopa. Havia ainda uma tabuleta em cima de pequena mesa, apoiando-se na pilastra onde estavam expostos seus trabalhos: fotografias coloridades de grandes personalidades e caricaturas também de grandes personalidades.

Nem sequer a chegada do bonde fez o homem levantar a cabeça. Trabalhava variando de lápis calmamente, como se não tivesse nenhuma pressa ou mesmo não desejasse terminar o serviço. Getúlio na foto continuava sorrindo para o homem com um de seus melhores sorrisos.

Uma mulher esturrada, de alpargata e vestido muito largo, aproximou-se e parou à sua frente. O homem levantou a cabeça:

– Você, Maria.

Ela moveu o rosto com dificuldade e fez o possível para sorrir, fixando atenta e profundamente a cara do homem.

– Aconteceu alguma coisa?

– Não – murmurou a mulher.

O homem pôs a fotografia e o lápis na mesa e esperou que a mulher falasse. Olhavam-se como duas pessoas de intensa convivência.

– Não houve mesmo nada? – tornou o homem.

– Claro que não, Zé. Eu vim à toa.

– E os meninos?

– Mamãe está lá com eles.

– Como é que você arranjou para vir até aqui?

– Uai, eu vim.

– A pé? Você não devia ter vindo, Maria. Estou achando que houve alguma coisa.

– Não teve nada, não. Mamãe chegou lá em casa e então eu aproveitei para dar um pulo até aqui.

– Ah – o homem sorriu. E uma onda de carinho, quase imperceptível, assomou-lhe o rosto lento e sofrido.

– Fez alguma coisa hoje, Zé?

– Fiz um – respondeu levantando-se. – Senta aqui. Você deve estar cansada.

A mulher sentou no tamborete, desajeitada.

– Você não devia ter vindo, Maria – disse o homem.

– Eu sei, mas me deu vontade. Mamãe ficou lá com os meninos.

– Mas ela não estava doente?

– Você sabe como mamãe é.

– E o Tonhinho?

– Está lá.

– O carnegão saiu?

A mulher fez sim com a cabeça e em seguida olhou para o abrigo, onde havia pequenas lojas de frutas, café, pastelaria.

– Espera um pouquinho aí – disse o homem, e caminhou na direção de uma das lojas.

A mulher permaneceu sentada no tamborete, observou por um momento o vendedor de agulhas, que continuava gritando, depois deteve a vista na foto de Getúlio Vargas sorrindo para os trabalhadores do Brasil. O homem reapareceu com um saquinho manchado de gordura.

– Esses pastéis.

– Oh, Zé, para que você fez isso?

– Vamos, come um.

– Você não devia ter comprado.

– Vamos.

A mulher retirou um pastelzinho do saco e começou a mastigá-lo com muito prazer.

– Come o outro, Zé.

– Já comi uns dois hoje. Esse outro também é seu.

– Então eu vou levar ele pros meninos.

– É pior, Maria.

O homem ficou de pé, ao lado da mulher, observando-a comer o segundo pastel. A mulher acabou de comer, limpou a boca na manga do vestido e fez menção de levantar-se.

– Fica aqui, Zé. Pode aparecer alguém.

– Não, eu passei a manhã toda assentado.

A mulher sentada e o homem em pé conservaram-se silenciosos durante um breve e ao mesmo tempo longo momento, ora olhando um para o outro, ora cada um olhando as pessoas agora espalhadas no abrigo ou não olhando coisa nenhuma. A mulher se ergueu:

– Acho que eu vou andando.

– Já vai?

– Mamãe não aguenta eles, você sabe.

– Ah, é mesmo. Você não devia ter vindo.

O homem tirou uma nota do bolso de dentro do paletó e estendeu-a para a mulher.

– Volta de bonde.

– Não, Zé.

– É muito longe, criatura.

– Não.

– Ora, minha nega.

A mulher pegou o dinheiro com a mão indecisa.

– Vou ver se levo.

O homem assentiu com a cabeça, abriu a boca mas não disse nada. A mulher desviou o rosto e piscou os olhos várias vezes.

– Não chega tarde não, viu, Zé.

– Chego não.

– Você vai fazer.

– Hoje eu sei que vai melhorar.

– Vai sim, Zé. Eu sei que vai. Eu sei.

A mulher afastou-se rapidamente, sem voltar o rosto. O homem empinou-se um pouco para vê-la atravessar a rua. Depois sentou no tamborete e pegou um lápis e o retrato.

Durante muito tempo o homem permaneceu com a cabeça baixa, imóvel dentro de sua ilha, curvado sobre a foto que mostrava o presidente morto com aquele sorriso de seus melhores dias.

Telma

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3 Respostas so far »

  1. 1

    yanka isabela said,

    Estou fazendo um trabalho, em q tenho q apresentar uma peça de teatro, eu estou fazendo sobre essa crônica.

  2. 2

    betuel said,

    muito obrigado pelo texto vlw te devo essa

  3. 3

    juliana oliveira said,

    estou respondendo um dever sobre essa cronica


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