Campo Geral, de Guimarães Rosa

Falaremos hoje sobre uma estória simplesmente imperdível de autoria do genial João Guimarães Rosa.

“Campo Geral”, a estória escolhida para ilustrar esse post,  faz parte,  juntamente com “Uma estória de amor”, do livro Manuelzão e Miguilim, de 1960.  As duas narrativas foram antes publicadas em 1956 no livro Corpo de Baile,  sendo depois desmembradas para um único volume.

Em Campo Geral, Guimarães Rosa, com a sua incrível habilidade, narra a infância de Miguilim,  uma criança de oito anos de idade que mora com a família em Mutum, um lugar no meio do sertão mineiro. E é nesse local isolado e remoto que Miguilim vai amadurecer e descobrir o mundo.

A narrativa, repleta da fascinante e inigualável linguagem de Guimarães Rosa, faz o leitor mergulhar em um  mundo de emoções avassaladoras.

Não podemos deixar de destacar a sensibilidade do personagem Miguilim, que se envolve intensamente com os problemas da família, sofrendo grandes  inquietações e angústias. A relação de amizade e de amor existente entre  Miguilim e Dito – seu irmão caçula – também é retratada de forma belíssima.

Campo Geral é uma estória para ser lida e degustada pelo leitor e depois relida, relida e relida… Guimarães Rosa soube como ninguém retratar a infância, período composto de alegrias, mas também povoado de medos e de  fantasias.

Eis alguns trechos dessa narrativa apaixonante, para aguçar a vontade de ler em quem ainda não leu e provocar a releitura nos que já leram:

“Um certo Miguilim morava com sua mãe, seu pai e seus irmãos, longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-d’água e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em ponto remoto, no Mutum. No meio dos Campos Gerais, mas num covão em trecho de matas, terra preta, pé de serra. Miguilim tinha oito anos.”

(…)

“O Dito era menor mas sabia o sério, pensava ligeiro as coisas. Deus tinha dado a ele todo juízo. E gostava, muito, de Miguilim. Quando foi a estória da Cuca, o Dito um dia perguntou:  -“Quem sabe é pecado a gente ter saudade de cachorro?…” O Dito queria que ele não chorasse mais por Pingo-de-Ouro, porque sempre que ele chorava o Dito também pegava vontade de chorar junto.”

(…)

“Os irmãos já estavam acostumados com aquilo, nem esbarravam mais dos brinquedos para vir ver Miguilim sentado alto no tamborete, à paz. Só o Dito, de longe distante, pela porta, espiava leal. Mas o Dito não vinha, não queria que Miguilim penasse vergonha”.

(…)

“Mas o pai não devia de dizer que um dia punha ele Miguilim de castigo pior, amarrado em árvore na beirada do mato. Fizessem isso, ele morria de estrangulação do medo? Do mato de cima do morro vinha onça. Como o pai podia imaginar judiação querer amarrar um menino no escuro do mato?  Só o pai de Joãozinho mais Maria, na estória, o pai e a mãe levaram eles dois, para desnortear no meio da mata em distantes porque não tinham de-comer para dar a eles. Miguilim sofria tanta pena por Joãozinho mais Maria, que voltava a vontade de chorar.”

(…)

“Repensava aquele pensamento, de muitas maneiras amarguras. Era um pensamento enorme, aí Miguilim tinha de rodear de todos os lados, em beira dele. E isso era, era! Ele tinha de morrer? Para pensar, se carecia de agarrar coragem – debaixo de exata idéia, coraçãozinho dele anoitecia. Tinha de morrer? Quem sabia, só? Então – ele rezava pedindo: combinava com Deus, um prazo que marcavam… Três dias. De dentro daqueles três dias, ele podia morrer, se fosse para ser, se Deus quisesse. Se não, passados os três dias, aí então ele não morria mais, nem ficava doente com perigo, mas sarava! Enfim que Miguilim respirava forte, no mil de um minuto, se coçando das ferroadas dos mosquitos, alegre quase. Mas, nem isso, mau! – maior susto o salteava: três dias era curto demais, doíam de assim tão perto, ele mesmo achava que não aguentava… Então, então, dez. Dez dias, bom, como valesse de ser, dava espaço de,  amanhã, principiar uma novena. Dez dias. Ele queria, lealdoso. Deus aprovava.”

(…)

“O ruim tem raiva do bom e do ruim. O bom tem pena do ruim e do bom… Assim está certo.” “- E os outros, Dito, a gente mesmo?” O Dito não sabia. – “Só se quem é bronco carece de ter raiva de quem não é bronco; eles acham que é moleza, não gostam… Eles têm medo que aquilo pegue e amoleça neles mesmos – com bondades…” “E a gente, Dito? A gente?” ” – A gente cresce, uai. O mole judiado vai ficando forte, mas muito mais forte! Trastempo, o bruto vai ficando mole, mole… “

(…)

“Uma hora Dito chamou Miguilim, queria ficar com Miguilim sozinho. Quase que ele não podia mais falar. – “Miguilim, e você não contou a estória da Cuca pingo-de-Ouro…” – “Mas eu não posso, Dito, mesmo não posso! Eu gosto demais dela, estes dias todos…” Como é que podia inventar a estória? Miguilim soluçava. –”Faz mal não, Miguilim, mesmo ceguinha mesmo, ela há de me reconhecer…” – “No Céu, Dito? No Céu?!” – e Miguilim desengolia da garganta um desespero. –”Chora não, Miguilim, de quem eu gosto mais, junto com Mãe, é de você…” E o Dito também não conseguia mais falar direito, os dentes dele teimavam em ficar encostados, a boca mal abria, mas mesmo assim ele forcejou e disse tudo: – “Miguilim, Miguilim, eu vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder então ficar mais alegre, mais alegre, por dentro!”

(…)

“E Miguilim olhou para todos, com tanta força. Saiu lá fora. Olhou os matos escuros de cima do morro, aqui a casa, a cerca de feijão-bravo e são-caetano; o céu, o curral, o quintal; os olhos redondos e os vidros altos da manhã. Olhou mais longe, o gado pastando perto do brejo, florido de são-josés, como um algodão. O verde dos buritis na primeira vereda. O Mutum era bonito! Agora ele sabia”

Karina

4 Respostas so far »

  1. 1

    sam de mattos jr. said,

    Excelente resumo e passagens escolhidas.
    Eu tenho recordacoes de um Mutum “brabo” e inospito.
    Area contestada entre MG e ES, area contestada entre UDS e PSD no passado.
    Area onde o meu tio Orlando Manuel Castano morreu a bala.
    O renomado pintor Orlando Castano, de Belo Horizonte, primo irmao, nasceu em Mutum – neste Mutum do Guimaraes Rosa, tao bonito, isolado e cruel.

    • 2

      Telma e Karina said,

      Que bom que gostou, Sam. Eu particularmente acho Guimarães Rosa genial! E Mutum, pela descrição dele, me parece um lugar misterioso, doce e até meio selvagem… Pelo o que você conta, embora inóspito, deve ser mesmo um lugar de grandes acontecimentos. Volte sempre! Um abraço! Karina

  2. 3

    Paulo said,

    Vcs são gente boa, e os pedacinhos… de Miguilim me levaram algumas lágrimas. Rosa era muito, e segundo seu tradutor alemão “a linguagem não retorna a se mesma de mãos vazias após a experiência roseana.
    Grato


Comment RSS · TrackBack URI

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: