Leitura imperdível: Um Certo Capitão Rodrigo

Há diversos posts no blog reproduzindo irreverentes textos de Luiz Fernando Verissimo, um escritor bem humorado, inteligente, completo e muito especial.

Provavelmente, a literatura e a inteligência estão  no DNA da família, já que o pai de Luiz Fernando Verissimo, o consagradíssimo Erico Verissimo também era um escritor extremamente sagaz.

Erico nasceu no Rio Grande do Sul, em 1905 e, desde muito jovem, passou a dar mostras do grande autor que viria a ser. Sua primeira obra foi uma coletânea de contos, publicada em 1932, intitulada “Fantoches”. Daí por diante não parou mais e criou maravilhas como os romances “Clarissa”, “Olhai os Lírios do campo” e “Incidente em Antares”. Faleceu em 1975 deixando irremediável saudade.

A crítica literária considera como sua obra prima a trilogia “O Tempo e o Vento”, dividida em três partes:  O continente (1948), O retrato (1951) e O arquipélago (1961).  Tal trilogia retrata com fidelidade a vida e os costumes do povo gaúcho e revelou personagens psicologicamente riquíssimos como Ana Terra e o legendário Capitão Rodrigo Cambará.

“Um Certo Capitão Rodrigo” compõe a primeira parte da trilogia “O Tempo e o Vento”, denominada “O Continente” e conta a história fascinante de um irresistível forasteiro que chega à pequena cidade de Santa Fé depois de tomar parte em  inúmeras guerras. Trata-se de um personagem corajoso,  muito cativante, apaixonado pela vida e por boas aventuras. Ateu convicto, mulherengo, mas com um senso de justiça e bondade muito aguçados, Rodrigo Cambará é um tipo apaixonante, a despeito de sua inconstância e irremediável infidelidade.

A seguir reproduzimos um pequeno trecho desta maravilhosa obra de Erico Verssimo, a qual reputamos essencial para a biblioteca de qualquer leitor que se preze.

“Toda gente tinha achado estranha a maneira como o Cap. Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo , vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas. Devia andar lá pelo meio da casa dos trinta, montava um alazão, vestia calças de riscado, botas com chinelas de prata e o busto musculoso apertado num dólmã militar azul, com gola vermelha e botões de metal. Tinha um violão a tiracolo; sua espada, apresilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira. Apeou na frente da venda de Nicolau, amarrou o alazão no tronco dum cinamomo, entrou arrastando as esporas, batendo na coxa direita com o rebenque, e foi logo gritando, assim com ar de velho conhecido:

– Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!

Juvenal sacudiu a cabeça devagarinho. Não sabia que opinião formar daquele homem, nem até que ponto podia acreditar no que ele lhe contava. Precisava levantar-se e ir embora. Não era nenhum índio vadio que pudesse ficar numa venda conversando à toa. Havia, porém, algo que o impedia de mover-se. Ele se interessava pelo que o outro dizia; gostava da maneira como o capitão falava, mesmo que suas palavras às vezes o irritassem. Até a voz do diabo do homem era agradável: tinha um tom grave e ao mesmo tempo meio metálico.”

Telma

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1 Response so far »

  1. 1

    Camila Franco said,

    Eu simplesmente AMO Erico Verissimo!! É o meu escritor preferido: sensível, profundo, completo! “Um certo capitão Rodrigo” é um livro que sempre causa polêmica: afinal, Cambará é mocinho ou vilão? Eis aí a genialidade de Verissimo. Mas pra mim, “Olhai os líris do campo” é imbatível, em minha modesta opinião, seu livro mais profundo, e aqule que, tenho que confessar, me fez chorar, rios de lágrimas…
    Bjs


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