Baudelaire e os felinos

Baudelaire era mesmo um admirador dos felinos, tendo dedicado a eles diversos fragmentos e poesias, todos exaltando os seus atributos. Trazemos hoje mais um belo poema extraído do livro As Flores do Mal em homenagem aos gatos.

Vejam:

gato

O GATO

I

Dentro em meu cérebro vai e vem

Como se a sua casa fosse

Um belo gato, forte e doce.

Quando ele mia, mal a quem


Lhe ouça o fugaz timbre discreto;

Seja serena ou iracunda,

Soa-lhe a voz rica e profunda.

Eis seu encanto mais secreto.


Essa voz que se infiltra e afina

Em meu recesso mais umbroso

Me enche qual verso numeroso

E como um filtro me ilumina.


Os piores males ele embala

E os êxtases todos oferta;

Para enunciar a frase certa,

Não é com palavras que fala.


Não, não existe arco que morda

Meu coração, nobre instrumento,

Ou faça com tal sentimento

Vibrar-lhe a mais sensível corda


Que a tua voz, ó misterioso

Gato de místico veludo,

Em que, como um anjo, tudo

É tão sutil quanto gracioso!


II

De seu pêlo louro e tostado

Um perfume tão doce flui

Que uma noite, ao mima-lo, fui

Por seu aroma embalsamado.


É a alma familiar da morada;

Ele julga, inspira, demarca

Tudo o que seu império abarca;

Será um deus, será uma fada?


Se neste gato que me é caro,

Como por ímãs atraídos,

Os olhos ponho comovidos

E ali comigo me deparo,


Vejo aturdido a luz que lhe arde

Nas pálidas pupilas ralas,

Claros faróis, vivas opalas,

Que me contemplam sem alarde.

Karina

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