“Adiamento”, por Álvaro de Campos

Já postamos poemas de Fernando Pessoa “ele mesmo” e de dois de seus heterônimos: Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Hoje reproduziremos um poema de seu terceiro heterônimo, Álvaro de Campos.

Álvaro de Campos é o poeta da vanguarda, do século XX. É o homem das indústrias, das máquinas, da velocidade. Preocupa-se em sentir o mundo de todas as maneiras. Para Álvaro de Campos, a sensação é tudo.

Muitos de seus poemas celebram a precisão e a força das máquinas,  a energia elétrica e a civilização moderna, com estilo febril e delirante. Em outra fase, prevalecem o tédio, a solidão, a angústia existencial e a nostalgia da infância perdida.

No poema trazido hoje, Álvaro de Campos, com genialidade, transmite uma sensação de desânimo, um sentimento de angústia e até uma certa preguiça de viver…

Apreciem:

portrait_of_dr_gachetAdiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.

Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…

O porvir…
Sim, o porvir…

 Karina

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