Indicação de Conto de Dostoiévski

Já falamos sobre Fiódor Dostoiévski aqui no blog e que ele merece ser lido, pois sua obra é rica e intensa.

Indicamos hoje um conto que narra a estória de um homem profundamente cético e desiludido; e decidido a terminar com a própria vida. O personagem, a fim de executar seu intento, compra uma arma e antes de dispará-la acaba adormecendo na cadeira na qual espera ser encontrado morto no dia seguinte.

Ao adormecer, o personagem tem um sonho extraordinário. O sonho se inicia com sua própria morte e enterro. Em dado momento o narrador é transportado para um planeta semelhante à Terra, onde os habitantes são extremamente sábios, puros e felizes. Em tal lugar não há os sentimentos mesquinhos e comuns na Terra.

Em uma segunda parte do sonho o narrador/personagem revela ter corrompido os habitantes do planeta utópico, que acabou se tornando realmente muito parecido com a Terra.

Quase no fim do conto, o personagem desperta do sonho, horrorizado com a ideia de se matar e afirma ter conhecido a Verdade, que nada mais é do que amar o próximo como a si mesmo. Mas, na visão dos outros homens, não passa de um louco e ridículo…

O conto “O sonho de um homem ridículo” é povoado de metáforas e muito belo.

Abaixo alguns trechos do conto em questão (mas não deixem de ler na íntegra pois vale a pena):

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Era ali a terra, antes que ela fosse enxovalhada pelo pecado original; seus habitantes, não conhecendo o mal, viviam no mesmo paraíso em que, conforme as tradições da humanidade inteira, viveram nossos culpados ancestrais, com a diferença de que a terra ali era em todas as partes um único e mesmo paraíso. Esses homens de sorriso alegre se apertavam contra mim, pródigos de carícias. Levaram-me com eles, e todos teriam querido me propiciar a tranquilidade.”

“O amor desses seres inocentes e esplêndidos deixou em mim uma impressão perdurável e sinto que ela ainda flui das profundezas da minha alma.”

“Não tinham desejos, e na sua serenidade não aspiravam, como a nós, a conhecer a vida, pois tinham atingido o estado de perfeição.”

“Seus filhos eram filhos de todos, porque constituíam uma só família.”

(…)

“Sim, sim, acabei corrompendo a todos! … Sei somente que fui eu a causa do primeiro pecado. Tal como uma moléstia infecciosa, um átomo de peste, suscetível de contaminar todo um império, assim contaminei, com minha presença, uma terra de delícias, inocente até a minha chegada. Aprenderam a mentir e deleitaram-se com a mentira, e aprenderam a beleza da mentira… E m pouco tempo nasceu a volúpia; a volúpia engendrou o ciúme; o ciúme, a crueldade… Ah! não sei, não me lembro, porém logo, muito depressa, o sangue esguichou, no primeiro jorro: eles ficaram espantados, horrorizados, começaram a se distanciar um dos outros, a se separar.”

“Tornados criminosos, então foi que inventaram a justiça e ditaram códigos completos para conservá-la; depois a fim de assegurar o respeito aos códigos, instituíram a guilhotina… Os fracos se submeteram voluntariamente aos mais fortes, contanto que estes os ajudassem a esmagar os que eram ainda mais fracos.”

(…)

“De repente, enquanto me punha de pé e voltava a mim, o revólver carregado e preparado para detonar feriu minha vista – mas depressa o empurrei para longe de mim. Ah! viver, no momento, viver! Levantei os braços invocando a eterna Verdade;”

“Porque eu vi a Verdade, eu a vi, e sei que os homens podem ser belos e felizes, sem perder a faculdade de viver sobre a terra. Não quero nem posso crer que o mal seja a única condição normal dos homens. E entretanto é unicamente dessa crença que caçoam de mim.”

“Apesar de tudo pregarei o paraíso. Entretanto, como é simples, poder-se-ia conseguir que num só dia, em uma só hora, tudo fosse reedificado. O essencial é amar o próximo como a si mesmo, eis o que é essencial, eis o que é tudo, sem que haja necessidade de outra coisa: logo saberemos como edificar o paraíso.”

(trechos extraídos do livro “Os melhores contos de Dostoiévski – Círculo do Livro – tradução de Ruth Guimarães)

Karina

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6 Respostas so far »

  1. 1

    Adoro literatura e quem compartilha comigo este prazer. No momento estou lendo (tardiamente) 1968 o ano que não terminou. Estou encantada e lá me vejo
    militando junto aos jovens, sem saber exatamente porquê.
    Acabei de ler 100 anos de solidão, curti muito e posso dizer que naquela cidadezinha, macondo, também me encontrei.
    O passado me fascina, me ilumina, me puxa para trás, insistentemente.
    Mas logo tenho que voltar para esta realidade dura e fria, tão fria quanto os contos russos.

    • 2

      Telma e Karina said,

      Ainda bem que temos a literatura para nos levar para outros mundos, outros tempos e outros lugares nos quais podemos esquecer um pouco a realidade crua dos dias de hoje. Volte sempre! Beijos. Karina

  2. 3

    Adoro Dostoievski e estou lendo neste momento Humilhados e Ofendidos.

    Sinto (infelizmente) uma conexão comigo. Sei lá…. Freud explica????

  3. 4

    Divino mesmo é a Divina Comédia de Dente.
    Como pode tamanha inteligência em tempos tão duros e remotos.
    Quão perspicaz foi seu texto para falar mal de todos e ficar de bem com todos.
    E viva os aforismos que ele, condenando, usa e abusa.
    Leia Dante Alighieri e seja mais feliz.

  4. 5

    ACABEI DE LER ” OS IRMÃOS KARAMAZOVI” DE DOSTOIEVISKI –
    NÃO TEM COMO NÃO GOSTAR DESSE CARA ” DURÃO”. ME VEJO NELE.
    SÓ NÃO FIQUEI SABENDO QUEM FOI O ASSASSINO – ACHO QUE FOI TODA A SOCIEDADE DE SUA ÉPOCA, O QUE NÃO SERIA DIFERENTE NOS DIAS DE HOJE.


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