Sabedoria de Saramago em conta-gotas

 

Escritor de livros famosos como o pungente Ensaio sobre a Cegueira (1995) – recentemente transformado em filme – José Saramago nasceu em 1922 na aldeia de Azinhaga, localizada na região sul de Portugal.

Saramago realizou os estudos secundários em Lisboa e não pôde terminá-los em razão de dificuldades financeiras. Autodidata, seu primeiro emprego foi de serralheiro mecânico, mas  exerceu muitas outras profissões tais como desenhista, funcionário público, jornalista, tradutor e editor.

Seu primeiro livro – Terra do Pecado – foi publicado em 1947. Durante 12 anos trabalhou em uma editora onde exerceu o cargo de diretor literário e de produção. Concomitantemente colaborava como crítico literário na revista “Seara Nova”. De 1972 a 1973 fez parte da redação do jornal “Diário de Lisboa.” Já em 1975 tormou-se diretor-adjunto do jornal “Diário de Notícias.”

O autor só ganhou notoriedade após a publicação do livro “Levantado do Chão”, em 1980. Em 1982, publicou o grande romance “Memorial do Convento”, que só confirmou o seu êxito na literatura.

Em 1991 publicou o polêmico livro “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, que foi censurado em Portugal. A partir de então, Saramago exilou-se nas Ilhas Canárias (Espanha), local onde vive até hoje com sua esposa Pilar.  

José Saramago foi o primeiro (e único) autor da língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, em 1998.

Um dos mais brilhantes escritores da literatura  contemporânea, Saramago tem um modo pessimista de encarar o mundo em seus livros. A ironia, o debate de questões universais, o ateísmo marcante, a constante mistura entre fantasia e realidade e, finalmente, o estilo inovador no uso da linguagem e na construção das narrativas, são suas principais características.

No auge de seus 86 anos de idade, José Saramago continua nos presenteando com suas obras instigantes. Seu livro mais recente é  “A viagem do elefante.”

Quem ainda não leu nada deste maravilhoso escritor português não deve perder tempo! Abaixo frases extraídas de alguns livros do autor para ilustrar o quanto é incrível a sua obra:

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“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. (Ensaio sobre a Cegueira)

” (…) havia uma jarra de vidro com flores já secas, a água
evaporara-se, foi para lá que as mãos cegas se dirigiram, os dedos roçaram as pétalas mortas, como a vida é frágil, se a abandonam.” (Ensaio sobre a Cegueira)

“(…) nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe”.

“Quantas vezes, para mudar a vida, precisamos da vida inteira, pensamos tanto, tomamos balanço e hesitamos, depois voltamos ao princípio, tornamos a pensar e a pensar, deslocamo-nos nas calhas do tempo com um movimento circular, como os espojinhos que atravessam o campo levantando poeira, folhas secas, insignificâncias, que para mais não lhes chegam as forças, bem melhor seria vivermos em terras de tufões. Outras vezes uma palavra é quanto basta”. (Jangada de Pedra)

“(…) as velhas fotografias enganam muito, dão-nos a ilusão de que estamos vivos nelas, e não é certo, a pessoa para quem estamos a olhar já não existe, e ela, se pudesse ver-nos, não se reconheceria em nós.” (Todos os nomes)

“(…) somos uma pequena e trémula chama que a cada instante ameaça apagar-se, e acima de tudo temos medo.” (Ensaio sobre a lucidez)

“Se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar”. (Ensaio sobre a Cegueira)

“(…) hoje é o dia de ver, não o de olhar, que esse pouco é o que fazem os que, olhos tendo, são outra qualidade de cegos.” (Ensaio sobre a Cegueira)

“Porque ainda está para nascer o primeiro homem desprovido daquela segunda pele a que chamamos egoísmo, muito mais dura que a primeira, que a tudo sangra.” (Ensaio sobre a Cegueira)

“O mundo de cada um está nos olhos que tem”. (Memorial do Convento)

“(… ) com a tripa em sossego qualquer um tem ideias, discutir, por exemplo, se existe uma relação direta entre os olhos e os sentimentos, ou se o sentido da responsabilidade é a consequência natural de uma boa visão, mas quando a aflição aperta, quando o corpo se nos desmanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos.”

 “Não sou pessimista, o mundo que é péssimo.” (em entrevista a jornal)

“O Bem e o Mal não existem em si mesmos,cada um deles é somente a ausência do outro”. (O Evangelho segundo Jesus Cristo)

 “As palavras proferidas pelo coração não têm língua que as articule. Retém-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se pode ler.”

 “A pele é tudo quanto queremos que os outros vejam de nós, por baixo dela nem nós próprios conseguimos saber quem somos.” (Todos os nomes)

“Gostar é a melhor forma de ter, e ter é, talvez, a pior forma de gostar”.  

 “(…) e Jesus amou Maria de Magdala.” (O Evangelho segundo Jesus Cristo)

 “A propósito, não resistiremos a recordar que a morte, por si mesma, sozinha, sem qualquer ajuda externa, sempre matou muito menos que o homem”. (As Intermitências da Morte)

Os trechos acima são apenas uma amostra da magnitude de José Saramago. Ler seus livros abre horizontes.

Karina

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3 Respostas so far »

  1. 1

    Telma e Karina said,

    Maravilhoso, Ká. Cada frase que faz pensar mais que a outra…

  2. 2

    Lucieli Mai Saifert said,

    qual seria o livro que consta a frase “A vida é breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver.”?

  3. 3

    Enoc said,

    Portugal foi muito feliz em proibir esse “Evangelho Segundo ‘Jesus Cristo”. Fora isso o autor realmente é prodigioso.


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