Mário de Andrade em “O Peru de Natal”

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Conforme já apontamos no post anterior, com a aproximação das festas de fim de ano, procuraremos nos ater a temas natalinos em nossos textos do blog.

Nesse sentido, trazemos à análise o famoso conto de Mário de Andrade, denominado “O Peru de Natal”, cuja leitura acreditamos ser indispensável.

Mário de Andrade nasceu em São Paulo, em 1893 e foi um grande escritor modernista, uma de suas tantas habilidades. Entre suas principais obras, convém citarmos “Amar, verbo intransitivo”, ” Macunaíma, o herói sem nenhum caráter”, e “Contos Novos”, entre outras.

Mas o próprio Mário, morto em 1945, explicitou sua preferência pelos contos, chegando a declarar que admirava a forma do conto por sua concisão e por propiciar uma comunicação direta entre o escritor e o leitor.

Pois bem. Já que a época é convidativa, a dica de leitura do post de hoje é justamente um conto de Mário de Andrade, envolvendo o clima de Natal.

“O Peru de Natal” conta a estória de uma família que viveu anos e anos marginalizada pela opressão de um pai conservador, frio e rígido. Com a morte do patriarca, o filho, narrador da estória, vislumbra a possibilidade de ver a família viver com mais paz, ternura e naturalidade. Para tanto, compra um peru para comemorar o Natal, apesar do luto em que ainda se encontra a família. Há um clima de culpa no ar em fazer-se festa apesar da morte do pai.

A idéia central do conto promove  uma crítica à sociedade consumista e às festas de família em geral onde, via de regra, reinam as aparências e a hipocrisia. O autor também procura mostrar o verdadeiro espírito de Natal, que não se confunde com presentes e ostentação de enfeites, comidas e bebidas.

Interessantíssimo!

Abaixo, colocamos trechos do conto mencionado, para despertar o apetite de leitura nos frequentadores do blog, lendo-o depois integralmente:

” O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de consequências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, duma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeiras, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro sangue dos desmancha-prazeres.

Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família.

Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes…), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas “loucuras”:

 – Bom, no Natal, quero comer peru.

Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.

Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a… culpa de seus desejos enormes.

Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal.

Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.

Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem do papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.

 – Só falta seu pai…

 – É mesmo…  Mas papai, que queria tanto bem a gente, morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente… (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.

E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante no céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara tanto por nós, fora um santo que “vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai”, um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave.

O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.

Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade…”.

Telma

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7 Respostas so far »

  1. 1

    tata brink said,

    Estou fazendo um trabalho escolar e não sabia o quão complexo esse conto era
    Muito obrigada!

  2. 3

    eu said,

    texto imcompleto, falta uma parte do final…

  3. 5

    michelle witcel rezende said,

    É assim que acontece em nossa realidade em muitas familias…as vezes tambem a situaçao financeira mas acredito que nada acontece por acaso acho que fizeram certo celebrarem o natal mesmo no luto ,nao sabemos se existe vida apos a morte …e se existe estamos vivos e precisamos viver!

  4. 6

    NDSC said,

    quais são as caracteristicas desse conto? Me ajudem!!!

  5. 7

    Lu said,

    Comente:
    Que era “fazeruma das minhas loucuras?


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