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A insustentável leveza do ser

Um livro instigante, filosófico e inesquecível. Eis alguns fragmentos de “A insustentável leveza do ser”, do escritor tcheco Milan Kundera:

“Viver na verdade.

É uma fórmula que Kafka usou em seu diário ou numa carta. Franz não se lembra muito bem. Está seduzido por essa fórmula. O que é viver na verdade? Uma definição negativa é fácil: é não mentir, não se esconder, não dissimular nada. Desde que conheceu Sabina, vive na mentira. Conversa com sua mulher sobre congressos em Amsterdam e conferências em Madri que jamais aconteceram, tem medo de passear com Sabina nas ruas de Genebra. Acha divertido mentir e se esconder, justamente porque nunca o fez antes. Sente o prazer de um primeiro da classe que decide um dia, finalmente, cabular.
Para Sabina, viver na verdade, não mentir nem para si nem para os outros, só é possível se vivermos sem público. Havendo uma única testemunha de nossos atos, adaptamo-nos de um jeito ou de outro aos olhos que nos observam, e nada mais do que fazemos é verdadeiro.Ter um público, pensar num público, é viver na mentira. Sabina despreza a literatura em que o autor revela  toda a sua intimidade, e também a de seus amigos. Quem perde sua intimidade perde tudo, pensa Sabina. E quem a ela renuncia conscientemente é um monstro. Por isso, Sabina não sofre por ter que esconder o seu amor. Ao contrário, para ela essa é a única forma de viver “na verdade”.
Quanto a Franz, está convencido de que na separação da vida em domínio privado e em domínio público está a fonte de toda a mentira: a gente é uma pessoa em particular e outra em público. Para Franz, “viver na verdade” é abolir a barreira entre o privado e o público. Menciona com prazer a frase de André Breton, em que ele dizia que gostaria de viver  “numa casa de vidro”, onde nada é segredo e que está aberta a todos os olhares.”

(…)

“O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o fardo do corpo masculino. O mais pesado dos fardos é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da realização vital mais intensa . Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é.
Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes.

O que escolher, então? O peso ou a leveza?

(…)

Sentado na cama, olhava a mulher deitada ao seu lado, que, dormindo, apertava-lhe a mão. Sentia por ela um amor inexprimível. Nesse momento ela sem dúvida dormia um sono muito leve, porque abriu os olhos e olhou-o com ar espantado.
- O que você está olhando? – perguntou ela.
Sabia que não devia acordá-la, mas fazê-la adormecer. Tentou responder com palavras que fizessem nascer em seu pensamento a centelha de um novo sonho.
- Estou olhando as estrelas – respondeu.
- Não minta, você não está olhando as estrelas, está olhando para o chão.
- É que estamos num avião, as estrelas estão abaixo de nós.
- Ah, bem! – murmurou Tereza. Apertou com mais força a mão de Tomas e continuou a dormir. Tomas sabia que Tereza olhava agora pela janela de um avião que voava muito alto, por cima das estrelas.

 

Karina

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Lygia Fagundes Telles

Os trechos de hoje são da consagrada escritora brasileira Lygia Fagundes Telles e foi extraído do romance Verão no Aquário, que traz uma relação conflituosa entre mãe e filha. Escolhemos duas passagens de diálogos entre as duas personagens:

“(…) E pensando em ir para o meu quarto achei-me defronte do escritório da minha mãe. A porta estava entreaberta.

- Estou interrompendo?

Ela pousou as mãos no teclado da máquina. Titou osóculos.

- Não, não está interrompendo. Quer uma xícara de chá?

Comecei a rir. E inclinei-me para cheirar o solitário botão de rosa espetado no vaso.

- Há bandejas de chá em todos os cantos desta casa, acho que nossa família tem raízes no Oriente. É ver a China.

Ela serviu-se, imperturbável. Havia duas xícaras na mesa, naturalmente Dionísia esquecera que André estava ausente.

- E então, Raíza? Quais são as novidades?

- Faz tempo que não acontece nada, mamãe, a não ser este calor… Mordisquei uma torrada. Mas sabe, só mesmo nesse aspecto vocês duas se parecem, quero dizer, titia e você. Acho que é o único traço familiar entre ambas, um bule de chá. E também essa preferência pelas cores tímidas, vocês só usam o rosa, o lilás, o azul-claro, cores assim. Titia está cortando um vestido cor de mel.

Ela encarou-me.Usava uma blusa de percal com delicadas ramagens num fundo verde-água. Os cabelos presos. O rosto liso, limpo. Que espécie de beleza era aquela que parecia vir de dentro, tão mansa? Grave. Era incrível como enfrentava a claridade de um dia assim.

 - Mas como está você, filha? Moramos na mesma casa e não nos encontramos nunca.

Encolhi os ombros. Acendi um cigarro.

- E o livro? Adiantado?

- Estou no fim.

- Diz que os antigos comiam folha de louro para se inspirarem. Você também?

- Prefiro folhas de chá, respondeu ela arrumando os originais ao lado da máquina. E o Fernando?

Descobri que havia algumas sardas na sua mão. E essas não eram sardas de sol. Esfreguei num desalento as solas dos pés no tapete. Por que aquelas sardas? As mãos iam envelhecer primeiro.

- E o Fernando? repetiu ela escondendo as mãos no regaço, num gesto instintivo de proteção. Recuou um pouco, como se tivesse pressentido minha descoberta. Ainda estão firmes?

Sentei-me. Por que aquilo tudo? Ela não devia ter medo de mim, não devia. Queria-a jovem, em plena força, comtodas as armas. Devia haver um creme para fazer desaparecer aquelas sardas… Tive vontade de ajoelhar-me e deitar a cabeça no seu colo.

- Não sei dele, mamãe, respondi com brandura. Faz tempo que não nos vemos. Resolvi me afastar, acho que acabou o amor.

- Há um outro?

- Mais ou menos… Um amor platônico, creio mesmo que sem maiores consequências. Ele me ama mas tem outro amor, espécie de partilha espiritual.

- E os estudos? Quer dizer que não vai mesmo continuar.

Por que ela falava naquele tom? Por quê?

- Mas eu queria ser uma grande pianista?

- Só depois de muitos anos de trabalho você poderia ter essa resposta. Seria preciso antes muita dedicação, muito amor para que um dia você mesma saiba…

- Se venci? atalhei-a levantando-me. Quer dizer que só na velhice? Não, muito obrigada, quero a resposta já. Não suporto a ideia de passar a vida estudando para depois um Goldenberg me anunciar que não tenho vocação, que devo fazer outra coisa.

Ela pareceu concentrar-se num pensamento doloroso mas distante. Os olhos se apertaram cheios de uma ácida sabedoria. Mas a expressão não durou mais do que um brevíssimo segundo e a fisionomia ficou logo serena.

- Ainda não chegou a hora.

- Que hora?

- Quando chegar você saberá. disse ela baixinho. O sorriso irradiou-se da boca para o olhar. Você saberá, Raíza.

Voltei-me para a estante e abri ao acaso um livro. Mas senti seu olhar fixo em mim. Ah! como me irritavam aquelas expressões veladas de sábio do Sião conversando com a formiguinha! A dama esquiva. Se um pintor fizesse nesse instante o seu retrato, tinha que batizá-lo assim, A Dama Esquiva.

” (…) Baixei a cabeça. Chegara o momento de vê-la. Mas tinha que ser já? Apanhei depressa a escova e puxei os cabelos para a cara, escovando-os até que formassem uma espessa cortina entre nós duas. Meu Deus, faça com que ela não tenha mudado, faça com que ela esteja igual! O sangue aqueceu-me o rosto. Vinha-me agora a certeza de que eu a veria como antes, como naquela tarde que a encontrei com André pela primeira vez, “André, esta é a minha filha”. Atirei os cabelos para trás. Ficamos na luz como tínhamos ficado no escuro. A prova mais dura acabava de ser feita. Corri para abraçá-la.

- Quis tanto te quebrar e quem se quebrou fui eu.

Ela arqueou as sobrancelhas numa expressão graciosa mas dolorida.

- Os velhos vão-se enrijecendo, Raíza, fica difícil quebrá-los. E os jovens se reconstituem tão depressa que em poucos dias já desaparecem as marcas todas. Amanhã ou depois você estará radiosa outra vez.

Alisei-lhe a gola da blusa que tinha um ligeiro vinco.

- Minha mãe linda, murmurei voltando-me para o espelho. Em compensação, olha o estado em que fiquei.

Ela saiu para voltar em seguida com um copo de leite. Estava morno e doce. Bebi-o de olhos fechados.

- Então você está uma ruína? Literatura, filha, sussurou passando suavemente a escova nos meus cabelos. Quero ver essa ruína assim que você encontrar um novo amor, tão grande, tão definitivo que só haverá uma solução lógica, o casamento.

- Não, mamãe, protestei veemente, não quero mais amar. E não me fale nem brincando em casamento, juro que peço a Deus mais do que um pouco de sossego. Quero aceitar minha solidão.

Ela atalhou-me, rápida.

- Literatura, ainda. Daqui a pouco você me dirá que a carne é triste e que já leu todos os livros, todos!… Literatura, filha, porque na verdade você leu pouco, sabe? E a carne até que não é tão triste assim.

Olhei-a através do espelho. Qualquer citação agora nos faria pensar nele. A carne até que não é tão trsite, ela contestara com firmeza. Como se já soubesse também que a carne não é triste quando existe o amor.”

Karina

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Semana da Mulher

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, esta semana o blog trará trechos,crônicas e poemas escritos por mulheres.

Hoje começaremos com um trecho do livro Rumo ao Farol, da grande escritora inglesa Virginia Woolf. O livro em questão traz a estória de uma família e alguns amigos de férias numa casa de praia nas ilhas escocesas. O desejo do filho mais novo da Sra. Ramsay de visitar o farol, desencadeia todo o enredo, repleto de reflexões e análises psicológicas. Considerado a obra-prima de Virginia Woolf, é um livro que vale a pena ser lido.

Eis alguns trechos:

” (…) Queria dominar, interferir, fazer os outros obedecerem às suas vontades – coisa que ela achava a maior injustiça. Mas que podia fazer se causava essa impressão? Ninguém poderia acusá-la de se esforçar para impressionar os outros. Muitas vezes se envergonhava de sua própria fraqueza. Não era autoritária, tampouco tirânica. Talvez se pudesse dizer isso quando reagia apaixonadamente em relação a hospitais, saúde pública e queijarias. E, se tivesse oportunidade, gostaria de agarrar as pessoas pela gola e obrigá-las a ver. Nenhum hospital na ilha. Era uma vergonha. O leite entregue à porta, em Londres, era literalmente negro de sujeira. Deveria ser proibido. Duas coisas que ela mesma gostaria de fazer ali: um hospital e uma queijaria modelo. Mas como? Com todos aqueles filhos? Quando ficassem mais velhos, talvez tivesse tempo; quando todos estivessem na escola.

Oh, mas não queria que James ficasse nem um dia mais velho, nem Cam. Gostaria de conservar os dois para sempre, assim mesmo como eram, demônios perversos, anjos encantadores; nunca deixá-los crescer e se transformar em monstros de pernas compridas. Nada poderia compensar essa perda. Quando lera, há pouco para James: “e havia uma infinidade de soldados com címbalos e trombetas”, e seus olhos se turvaram, pensou: por que precisavam crescer e perder tudo isso? James era o mais bem-dotado, o mais sensível de seus filhos. Mas todos, pensou, eram promissores. Prue era um perfeito anjo para com os outros, e às vezes acontecia, agora, principalmente à noite, de as pessoas chegarem a perder a respiração com sua beleza. Andrew – até mesmo o marido admitia – tinha um talento extraordinário para a matemática. Nancy e Roger eram criaturas selvagens que corriam pelo campo o dia inteiro. Quanto a Rose, tinha a boca enorme, mas era extremamente bem dotada nas mãos. Quando brincavam de mímica, era Rose quem preparava as fantasias apropriadas; fazia de tudo; gostava de arrumar mesas, flores, qualquer coisa. Não lhe agradava que Jasper atirasse em passarinhos; mas isso era apenas uma fase. Todas as crianças passam por fases. Por que, perguntou-se, apertando o queixo contra a cabeça de James, por que precisavam crescer tão depressa? Por que precisavam ir para a escola? Gostaria de ter sempre um bebê. Era a pessoa mais feliz do mundo quando carregava um bebê nos braços. Então, se quisessem, as pessoas até poderiam dizer que era tirânica, autoritária, dominadora, não se importava. E, tocando no cabelo de James com os lábios, pensou: ele nunca será tão feliz como agora – mas conteve-se, lembrando-se de como irritava o marido quando dizia isso. Contudo, era verdade. Nunca seriam tão felizes como agora. Um conjunto de chá de dez pences deixava Cam feliz por vários dias. Ouvia-os gritando e batendo os pés acima de sua cabeça, desde o instante em que acordavam. Chegavam alvoroçados pelo corredor. A porta se escancarava e eles entravam, orvalhados pelo ar da manhã, os olhos fixos, bem abertos, como se entrar na sala de jantar depois do café da manhã – o que faziam diariamente – constituísse para eles um acontecimento extraordinário; e assim por diante, em uma coisa ou outra, durante todo o dia, até que ela subia e lhes dizia boa-noite e os achava aninhados em suas caminhas, como passarinhos entre cerejas e amoras, ainda inventando histórias sobre alguma bagatela: algo que ouviram ou pegaram no jardim. Todos tinham seus pequenos tesouros… E assim descera e perguntara ao marido: por que precisavam crescer e perder tudo isso? Nunca seriam tão felizes como agora.E ele ficara zangado. Por que ter uma visão tão pessimista da vida?, dissera. Não é razoável. Pois era estranho; ela pensava, com toda a sua tristeza e desespero, que na verdade o marido era mais feliz, mais confiante do que ela. Menos exposto às aflições humanas – sim, talvez fosse isso. Ele sempre contava com o seu trabalho, ao qual podia recorrer. Não que ela fosse “pessimista”, como ele a acusava. Apenas pensava na vida – e um pequeno trecho desta se apresentou diante de seus olhos:seus cinquenta anos. Ali estava, diante dela: a vida. A vida: pensava, mas não terminava o pensamento. Olhou a vida de relance, pois a sentia nitidamente ali, algo real, íntimo, que não compartilhava com os filhos, nem com o marido. Existia um certo intercâmbio entre elas, no qual ela ficava de um lado, e do outro a vida. E ela estava sempre tentando levar a melhor, tal como lhe era peculiar. E às vezes confabulavam (quando ficava sentada sozinha). Havia, lembrava-se, cenas grandiosas de reconciliação; mas na maior parte do tempo, por estranho que pareça, precisava adimiti-lo, sentia aquilo que chamava vida como alguma coisa terrível, hostil, pronta para se lançar sobre quem quer que lhe desse uma oportunidade. Havia os eternos problemas: o sofrimento, a morte, os pobres. Havia sempre uma mulher morrendo de câncer, ali mesmo. Contudo, dissera a todos os seus filhos: vocês superarão tudo isso. Repetira-o incessantemente a oito pessoas (e a conta da estufa seria de cinquenta libras). Por essa razão, sabendo o que os esperava – amor, ambição, a solidão e a infelicidade em lugares sombrios -, é que pensara, inúmeras vezes:por que precisavam crescer e perder tudo isso? Então, dizia a si mesma, interpondo-se à vida: bobagem. Serão plenamente felizes.”

(…)

“E o que aconteceria depois? Pois ela sentiu que ele ainda a olhava, mas seu olhar havia mudado. Ele queria alguma coisa – exatamente o que ela achava tão difícil de lhe dar: queria que ela dissesse que o amava. Mas isso ela não podia fazer. Ele tinha muito mais facilidade para falar do que ela. Ele conseguia dizer as coisas – ela nunca. Assim, naturalmente, era ele quem sempre dizia as coisas, e, por algum motivo, de repente se ressentia disso e a reprovava. Uma mulher fria – era como ele a chamava; nunca lhe dizia que o amava. Mas não era nada disso – não era isso. É que ela nunca conseguia dizer o que sentia, isso era tudo. Seu casaco estaria sujo? Haveria algo que pudesse fazer por ele? Levantando-se, postou-se junto à janela, com a meia castanha nas mãos, em parte para se afastar dele, em parte porque não se importava de olhar o Farol enquanto ele a observava. Sim, sabia que ele virara a cabeça na mesma direção que ela; que a observava. Sabia que estaria pensando: você está mais linda do que nunca. E sentiu-se linda. Não me dirá pelo menos uma vez que me ama? Pois ele estava enleado e pensava não só em Minta e no seu livro como também que o dia já estava terminando e que tinham discutido por causa da ida ao Farol. Mas ela não conseguiria, não poderia dizê-lo. Então, sabendo que ele a olhava, em vez de dizer alguma coisa, voltou-se com a meia na mão e olhou-o. E, ao olhá-lo, começou a sorrir, pois embora não dissesse uma única palavra, ele soube, claro que soube, que ela o amava. Não poderia negá-lo. E, sorrindo, ela olhou pela janela e falou (pensando consigo mesma que nada na Terra poderia se comparar a uma tal felicidade):

- Sim, você tinha razão. Amanhã vai chover. – Ela não o dissera, mas ele sabia. Ela o olhava, sorrindo. Pois ela triunfara mais uma vez.”

Virginia Woolf nasceu no ano de 1882, em Londres. Introduziu a prosa moderna na literatura inglesa e é considerada uma das maiores escritoras de todos os tempos. Sua narrativa é marcada pelo estilo “fluxo de consciência”, técnica literária através da qual se retrata minuciosamente todos os pensamentos do personagem, sua imaginação, reminiscências e impressões pessoais. Tem vários livros publicados. Suicidou-se em 1941 e foi uma grande perda para a literatura mundial.

Karina

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Campo Geral, de Guimarães Rosa

Falaremos hoje sobre uma estória simplesmente imperdível de autoria do genial João Guimarães Rosa.

“Campo Geral”, a estória escolhida para ilustrar esse post,  faz parte,  juntamente com “Uma estória de amor”, do livro Manuelzão e Miguilim, de 1960.  As duas narrativas foram antes publicadas em 1956 no livro Corpo de Baile,  sendo depois desmembradas para um único volume.

Em Campo Geral, Guimarães Rosa, com a sua incrível habilidade, narra a infância de Miguilim,  uma criança de oito anos de idade que mora com a família em Mutum, um lugar no meio do sertão mineiro. E é nesse local isolado e remoto que Miguilim vai amadurecer e descobrir o mundo.

A narrativa, repleta da fascinante e inigualável linguagem de Guimarães Rosa, faz o leitor mergulhar em um  mundo de emoções avassaladoras.

Não podemos deixar de destacar a sensibilidade do personagem Miguilim, que se envolve intensamente com os problemas da família, sofrendo grandes  inquietações e angústias. A relação de amizade e de amor existente entre  Miguilim e Dito – seu irmão caçula – também é retratada de forma belíssima.

Campo Geral é uma estória para ser lida e degustada pelo leitor e depois relida, relida e relida… Guimarães Rosa soube como ninguém retratar a infância, período composto de alegrias, mas também povoado de medos e de  fantasias.

Eis alguns trechos dessa narrativa apaixonante, para aguçar a vontade de ler em quem ainda não leu e provocar a releitura nos que já leram:

“Um certo Miguilim morava com sua mãe, seu pai e seus irmãos, longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-d’água e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em ponto remoto, no Mutum. No meio dos Campos Gerais, mas num covão em trecho de matas, terra preta, pé de serra. Miguilim tinha oito anos.”

(…)

“O Dito era menor mas sabia o sério, pensava ligeiro as coisas. Deus tinha dado a ele todo juízo. E gostava, muito, de Miguilim. Quando foi a estória da Cuca, o Dito um dia perguntou:  -”Quem sabe é pecado a gente ter saudade de cachorro?…” O Dito queria que ele não chorasse mais por Pingo-de-Ouro, porque sempre que ele chorava o Dito também pegava vontade de chorar junto.”

(…)

“Os irmãos já estavam acostumados com aquilo, nem esbarravam mais dos brinquedos para vir ver Miguilim sentado alto no tamborete, à paz. Só o Dito, de longe distante, pela porta, espiava leal. Mas o Dito não vinha, não queria que Miguilim penasse vergonha”.

(…)

“Mas o pai não devia de dizer que um dia punha ele Miguilim de castigo pior, amarrado em árvore na beirada do mato. Fizessem isso, ele morria de estrangulação do medo? Do mato de cima do morro vinha onça. Como o pai podia imaginar judiação querer amarrar um menino no escuro do mato?  Só o pai de Joãozinho mais Maria, na estória, o pai e a mãe levaram eles dois, para desnortear no meio da mata em distantes porque não tinham de-comer para dar a eles. Miguilim sofria tanta pena por Joãozinho mais Maria, que voltava a vontade de chorar.”

(…)

“Repensava aquele pensamento, de muitas maneiras amarguras. Era um pensamento enorme, aí Miguilim tinha de rodear de todos os lados, em beira dele. E isso era, era! Ele tinha de morrer? Para pensar, se carecia de agarrar coragem – debaixo de exata idéia, coraçãozinho dele anoitecia. Tinha de morrer? Quem sabia, só? Então – ele rezava pedindo: combinada com Deus, um prazo que marcavam… Três dias. De dentro daqueles três dias, ele podia morrer, se fosse para ser, se Deus quisesse. Se não, passados os três dias, aí então ele não morria mais, nem ficava doente com perigo, mas sarava! Enfim que Miguilim respirava forte, no mil de um minuto, se coçando das ferroadas dos mosquitos, alegre quase. Mas, nem isso, mau! – maior susto o salteava: três dias era curto demais, doíam de assim tão perto, ele mesmo achava que não aguentava… Então, então, dez. Dez dias, bom, como valesse de ser, dava espaço de,  amanhã, principiar uma novena. Dez dias. Ele queria, lealdoso. Deus aprovava.”

(…)

“O ruim tem raiva do bom e do ruim. O bom tem pena do ruim e do bom… Assim está certo.” “- E os outros, Dito, a gente mesmo?” O Dito não sabia. – “Só se quem é bronco carece de ter raiva de quem não é bronco; eles acham que é moleza, não gostam… Eles têm medo que aquilo pegue e amoleça neles mesmos – com bondades…” “E a gente, Dito? A gente?” ” – A gente cresce, uai. O mole judiado vai ficando forte, mas muito mais forte! Trastempo, o bruto vai ficando mole, mole… “

(…)

“Uma hora Dito chamou Miguilim, queria ficar com Miguilim sozinho. Quase que ele não podia mais falar. – “Miguilim, e você não contou a estória da Cuca pingo-de-Ouro…” – “Mas eu não posso, Dito, mesmo não posso! Eu gosto demais dela, estes dias todos…” Como é que podia inventar a estória? Miguilim soluçava. –”Faz mal não, Miguilim, mesmo ceguinha mesmo, ela há de me reconhecer…” – “No Céu, Dito? No Céu?!” – e Miguilim desengolia da garganta um desespero. –”Chora não, Miguilim, de quem eu gosto mais, junto com Mãe, é de você…” E o Dito também não conseguia mais falar direito, os dentes dele teimavam em ficar encostados, a boca mal abria, mas mesmo assim ele forcejou e disse tudo: – “Miguilim, Miguilim, eu vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder então ficar mais alegre, mais alegre, por dentro!”

(…)

“E Miguilim olhou para todos, com tanta força. Saiu lá fora. Olhou os matos escuros de cima do morro, aqui a casa, a cerca de feijão-bravo e são-caetano; o céu, o curral, o quintal; os olhos redondos e os vidros altos da manhã. Olhou mais longe, o gado pastando perto do brejo, florido de são-josés, como um algodão. O verde dos buritis na primeira vereda. O Mutum era bonito! Agora ele sabia”

Karina

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O Alienista

Machado de Assis, gênio falecido em 1908, no Rio de Janeiro, escreveu grandes e imperdíveis romances, tais como: “A Mão e a Luva”; “Helena”; “Memórias póstumas de Brás Cubas”; “Quincas Borba”; “Dom Casmurro”. Também produziu obras memoráveis na seara dos contos, poesias e teatro.

Trata-se, como é notório, de um autor completo e maravilhoso, de inteligência aguçada e talento incomparável. Pertencente à escola literária do Realismo e bastante adepto da digressão em suas obras, Machado é tido, sem favor nenhum, como o maior escritor de língua portuguesa de todos os tempos.

Um de nossos contos preferidos, escrito pelo admirável  Machado de Assis, é “O Alienista’, cuja temática gira em torno da tênue linha existente entre a loucura e a sanidade mental. Quem é louco? Quem é são? A conclusão a que se chega ao final é surpreendente.

A seguir, transcrevemos  um trecho do mencionado conto, esperando que o leitor, seguindo a dica, leia a obra na íntegra:

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Uma vez desonerado da administração, o alienista procedeu a uma vasta classificação dos seus enfermos. Dividiu-os primeiramente em duas classes principais: os furiosos e os mansos; daí passou às subclasses, monomanias, delírios, alucinações diversas. Isto feito, começou um estudo acurado e contínuo; analisava os hábitos de cada louco, as horas de acesso, as aversões, as simpatias, as palavras, os gestos, as tendências; inquiria da vida dos enfermos, profissões, costumes, circunstâncias da revelação mórbida, acidentes da infância e da mocidade, doenças de outra espécie, antecedentes na família, uma devassa, enfim, como a não faria o mais atilado corregedor.

… Mal dormia e mal comia; e ainda comendo, era como se trabalhasse, porque ora interrogava um texto antigo, ora ruminava uma questão, e ia muitas vezes de um cabo a outro do jantar sem dizer uma só palavra a D. Evarista.

-  A Casa Verde é um cárcere privado, disse um médico sem clínica.

Nunca uma opinião pegou e grassou tão rapidamente. Cárecere privado: eis o que se repetia de norte a sul e de leste a oeste de Itaguaí, – a medo, é verdade, porque durante a semana que se seguiu à captura do pobre Mateus, vinte e tantas pessoas, duas ou três de consideração – foram recolhidas à Casa Verde. O alienista dizia que só eram admitidos os casos patológicos, mas pouca gente lhe dava crédito. Sucediam-se as versões populares. Vingança, cobiça de dinheiro, castigo de Deus, monomania do próprio médico, plano secreto do Rio de Janeiro com o fim de destruir em Itaguaí qualquer germe de prosperidade que viesse a brotar, arvorecer, florir, com desdouro e míngua daquela cidade, mil outras explicações, que não explicavam nada, tal era o produto diário da imaginação pública.

Daí em diante foi uma coleta desenfreada. Um homem não podia dar nascença ou curso à mais simples mentira do mundo, ainda daquelas que aproveitam ao inventor ou divulgador, que não fosse logo metido na Casa Verde. Tudo era loucura. Os cultores de enigmas, os fabricantes de charadas, de anagramas, os maldizentes, os curiosos da vida alheia, os que põem todo o seu cuidado na tafularia, um ou outro almotacé enfunado, ninguém escapava aos emissários do alienista. Ele respeitava as namoradas e não poupava as namoradeiras, dizendo que as primeiras cediam a um impulso natural e as segundas a um vício. Se um homem era avaro ou pródigo, ia do mesmo modo para a Casa Verde; daí a alegação de que não havia regra para a completa sanidade mental.

Telma

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Fragmento de livro: Menino de Engenho

Já mencionamos no blog nossa admiração pelo escritor José Lins do Rego, autor da segunda fase modernista no Brasil. Sua obra-prima, ponto mais alto de sua carreira literária, sem dúvida nenhuma se deu com a publicação de “Fogo Morto”. Aliás, há um post no blog com um trecho deste maravilhoso livro.

Hoje, decidimos colocar um excerto de outro livro do renomadíssimo, autor, falecido em 1957. Trata-se de “Menino de Engenho”, obra em que José Lins do Rego nos apresenta o personagem-narrador Carlos de Melo, um menino que perde a mãe e vai morar no engenho do avô.

A narrativa se dá em primeira pessoa e o menino Carlos conta suas peripécias no Engenho Santa Rosa, retratando fielmente a vida de todos aqueles que povoavam as fazendas que cultivavam cana-de-açúcar. O livro apresenta também personagens que serão retomados em outros romances do autor, como o Coronel Lula de Holanda, o Coronel José Paulino, o negro Passarinho, o sapateiro José Amaro, entre outros.

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Em “Menino do Engenho”, José Lins do Rego parte da visão infantil do narrador da estória para mostrar como viviam os escravos trabalhadores dos engenhos e os coronéis da época, trazendo um panorama da sociedade daquele tempo. No decorrer da narrativa, Carlos revela seus pensamentos, sentimentos e descobertas com relação à vida no engenho e à perda de sua ingenuidade de criança.

 Além disso, o livro tem um fundo autobiográfico, já que, em muitas passagens, traz recordações da própria infância e adolescência do autor.

Abaixo, segue um fragmento da mencionada obra, justamente uma passagem em que o garoto protagonista nos revela seu íntimo.

 Menino de Engenho é um livro que reputamos ser leitura indispensável àqueles que pretendem conhecer o modernismo brasileiro.

Era um menino triste. Gostava de saltar com os meus primos e fazer tudo o que eles faziam. Metia-me com os moleques por toda a parte. Mas, no fundo, era um menino triste. Às vezes dava para pensar comigo mesmo, e solitário anadava por debaixo das árvores da horta, ouvindo sozinho a cantoria dos pássaros.

Pensava então naquilo que junto de gente eu não podia pensar. Já estava no engenho há mais de quatro anos. Mudara muito desde que viera de Recife.

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 - Para o ano – diziam – iria para o colégio.

E o que seria esse colégio? Os meus primos contavam tanta coisa de lá, de um diretor medonho, de bancas, de castigos, de recreios, de exercícios militares, que me deixavam mesmo com vontade de ir com eles. Mas o engenho tinha tudo para mim. Tia Maria tomava conta de mim como se fosse mãe. E a lembrança de minha mãe enchia os meus retiros de cinza. Por que morrera ela? E de meu pai, por que não me davam notícias? Quando perguntava por ele, afirmavam que estava doente no hospital. E o hospital ia ficando assim um lugar donde não se voltava mais. Via gente do engenho que ia para lá, com carta do meu avô, não retornar nunca. E as negras quando falavam do hospital mudavam a voz: “Foi para o hospital.” Queriam dizer que foi morrer.

Tinha um medo doentio da morte. Aquilo da gente apodrecer debaixo da terra, ser comido pelos tapurus, me parecia incompreensível. Todo o mundo tinha que morrer. As negras diziam que alguns ficavam para semente. Eu me desejava entre estes felizardos. Por que não podia ficar para semente? Dentro de um navio, enquanto o mundo todo se acabasse. E nesse barco eu me via cercado de tudo que era bicho, e a minha tia Maria, a negra Generosa, a vovó Galdina, o meu avô, tudo que me amava estaria comigo. Esta horrível preocupação da morte tomava conta da minha imaginação.

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Fiquei um menino medroso. De dia, porém, esperando meus canários, amava a solidão. Era ela que deixava falar o que eu guardava por dentro – as minhas preocupações, os meus medos, os meus sonhos. O mundo de um menino solitário é todo dos seus desejos. Tudo eu queria ter nesses meus retiros:  o tesouro da história de Trancoso, o cavalinho de sela, aquela vara mágica das fadas, que viravam em tudo que a gente quisesse. Eu desejava também que a velha Sinhazinha morresse. Então começava a ver a minha inimiga trucidada, com os cavalos desembestados puxando-lhe o corpo pelos espinhos.”

 

Telma

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Indicação de livro

O escritor francês Victor Hugo é um dos preferidos das autoras deste blog. Não nos cansamos de ler sua obra e seus ensinamentos.

Acabo de ler o livro “Os Trabalhadores do Mar”, com tradução de Machado de Assis. Nem é preciso dizer que Victor Hugo traduzido pelo gênio Machado, é imperdível…

O livro conta a estória do corajoso e íntegro marinheiro Gilliatt, que, tomado de amor pela bela e jovem Déruchette, trava, em um local considerado extremamente perigoso por navegadores de todo o mundo (o escolho Douvres), verdadeira luta contra as poderosas forças da natureza, ao tentar impedir que a máquina essencial de uma embarcação a vapor acabe no fundo do mar.

A narrativa é permeada de detalhes precisos sobre o universo náutico, além de analisar, com sensibilidade e sabedoria, o coração humano, com todas as suas lutas internas, suas esperanças, seus medos e suas paixões.

É uma obra emocionante e belíssima. Um clássico atemporal que não pode deixar de ser lido.

Abaixo alguns trechos do livro para aguçar a vontade dos leitores em ler ou reler essa obra-prima:

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“Havia outro banco visível e próximo, no fim de uma alameda. Déruchette assentava-se ali algumas vezes.

Pelas flores que ele via Déruchette colher e cheirar, adivinhou as preferências da moça a respeito de perfumes.

A moça preferia antes de tudo a campânula, depois o cravo, depois a madressilva, depois o jasmim. A rosa estava em quinto lugar. Quanto aos lírios, olhava para eles, mas não os cheirava. A vista da escolha dos perfumes, Gilliatt compunha-a no seu pensamento.”

(…)

“Passaram-se quatro anos.

Déruchette aproximava-se dos 21 anos e conservava-se solteira.

Já alguém escreveu algures: Uma idéia fixa é uma verruma. Vai-se enterrando de ano para ano. Para extirpá-la no primeiro ano é preciso arrancar os cabelos; no segundo rasga-se a pele; no terceiro ano quebra o osso; no quarto saem os miolos. Gilliatt estava no quarto ano.

Não tinha trocado uma só palavra com Déruchette. Pensava nela; era tudo.”

 (…)

“Arquitetura que tem terríveis obras-primas. O escolho Douvres era uma delas.

Esse foi construído e aperfeiçoado pelo mar com um amor formidável. Lambia-o a água rabugenta. Era hediondo, pérfido, obscuro; cheio de cavas.

Tinha um sistema de veias que eram fendas submarinas, ramificando- se em profundezas insondáveis. Muitos orifícios desse rasgão inextricável ficavam a seco nas vazantes.

Podia-se entrar, então, com risco.

Gilliatt, pela necessidade do trabalho, teve de explorar todas essas grotas. Nenhuma delas deixava de ser terrível. Em todas as cavas, reproduzia-se, com as dimensões exageradas do oceano, aquele aspecto de matadouro e açougue estranhamente imitado do centro das Douvres. Quem não viu as escavações desse gênero, na parede do eterno granito, esses horríveis frescos da natureza, não pode fazer uma idéia do que é.”

(…)

“Acreditar-se-ia ver torcer-se nessa diafaneidade auroreal pedaços de arco-íris afogados. Em outros lugares havia na água um certo luar. Todos os esplendores pareciam amalgamados ali para fazer um que de cego e de noturno. Nada mais impossível e enigmático do que aquele fasto naquela cava. O que dominava ali era o encanto. A vegetação fantástica e a estratificação informe acordavam-se e compunham uma harmonia. Era de belo efeito aquele consórcio de coisas medonhas.”

(…)

“Era, em pleno dia, a ascensão da noite.

Havia no ar um calor de fogão. Uma lixívia de estufa saía daquele amontoado misterioso. O céu, que de azul tornara-se branco, de branco tornou-se cinzento. Dissera-se uma grande ardósia. Embaixo o mar escuro e de chumbo era outra ardósia enorme. Nem um sopro, nem um rumor. Ao longe o mar deserto. Nenhuma vela.

Os pássaros tinham-se escondido. Sentia-se a traição do infinito.

O crescimento de toda aquela sombra amplificava-se insensivelmente.

A montanha movediça de vapores que se dirigia para a Douvres era uma dessas nuvens que se podem chamar nuvens de combate.

Nuvens vesgas.

Temível era a aproximação.

Gilliatt examinou firmemente a nuvem e murmurou entre dentes: Tenho sede, vais dar-me água.”

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(…)

 “Gilliatt cismava trêmulo.

Mas não se desconcertou. Para aquela alma não havia derrota possível.

O furacão engolfava-se agora freneticamente entre as duas muralhas do estreito.”

Eis alguns trechos de “Os Trabalhadores do Mar”. Impossível postar de uma só vez. Hoje postamos trechos referentes ao enredo do livro, contando um pouco do personagem principal e suas agruras. Brevemente colocaremos outras partes que refletem o pensamento do grande Victor Hugo.

Karina

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Vocação para a vida – Lygia Fagundes Telles

Da vocação:

Na vocação para a vida está incluído o amor, inútil disfarçar, amamos a vida. E lutamos por ela dentro e fora de nós mesmos. Principalmente fora, que é preciso um peito de ferro para enfrentar essa luta na qual entra não só fervor mas uma certa dose de cólera, fervor e cólera. Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas. E tem muita ferida porque as pessoas estão bravas demais, até as mulheres, umas santas, lembra?

Costurar as feridas e amar os inimigos que odiar faz mal ao fígado, isso sem falar no perigo da úlcera, lumbago, pé frio. Amar no geral e no particular e quem sabe nos lances desse xadrez-chinês imprevisível. Ousar o risco. Sem chorar, aprendi bem cedo os versos exemplares, não chores que a vida/é luta renhida. Lutar com aquela expressão de criança que vai caçar borboleta, ah, como brilham os olhos de curiosidade. Sei que as borboletas andam raras mas se sairmos de casa certos de que vamos encontrar alguma… O importante é a intensidade do empenho nessa busca e em outras. Falhando, não culpar Deus, oh! por que Ele me abandonou? Nós é que O abandonamos quando ficamos mornos. Quando a vocação para a vida começa a empalidecer e também nós, os delicados, os esvaídos. Aceitar o desafio da arte. Da loucura. Romper com a falsa harmonia, com o falso equilíbrio e assim, depois da morte – ainda intensos – seremos um fantasminha claro de amor.”

No trecho acima, que integra o livro de fragmentos A disciplina do amor, Lygia Fagundes Telles, sempre genial, nos dá uma maravilhosa lição de vida e de esperança.

Karina

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O Reizinho Mandão: aprendizado fundamental para crianças

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Já virou costume no blog darmos sugestões de livros e poemas infantis para atiçar o gosto pela leitura na garotada.

Hoje não será diferente. Convidamos os leitores a oferecerem um belo presente para seus filhos, sobrinhos, netos e amigos de tenra idade: o livro “O Reizinho Mandão” da consagrada escritora e membro da Academia Brasileira de Letras Ruth Rocha.

Ruth é paulistana, nasceu em 1931 e, ao longo de sua vida profissional, escreveu inúmeros títulos para a garotada, tendo recebido diversos prêmios em razão de seu brilhantismo e de sua vocação para falar para crianças. Seu livro mais conhecido é “Marcelo, Marmelo, Martelo”, que atingiu a espetacular marca de vender mais de 1 milhão de exemplares.

Já falamos de passagem neste livro aqui no blog. Mas vale a pena um post só pra ele. O “Reizinho Mandão” narra a estória de um rei arbitrário e prepotente, que cria leis absurdas para serem seguidas em seu reino. Tem mania de mandar as pessoas calarem a boca a todo momento e é tão egoísta e arrogante, que as pessoas passam a ficar cada dia mais caladas, até que não falam mais absolutamente nada, desaprendem a falar.

Neste momento da narrativa, finalmente o déspota percebe que está agindo mal. Trata-se de um livro infantil imperdível, pela narrativa e também pelas interessantes ilustrações, de autoria de Walter Ono. Um maravilhoso aprendizado para a criançada sobre caráter, atitude, liberdade de expressão e mesmo sobre a importância da democracia.

Abaixo, postaremos apenas um trecho da obra apenas a título de aperitivo:

“…

Precisa ver que reizinho chato que ele ficou!

Mandão, teimoso, implicante, xereta!

Ele era tão xereta, tão mandão

que queria mandar em

tudo o que acontecia no reino.

Quando eu digo tudo, era tudo mesmo!

A diversão do reizinho era fazer leis

e mais leis. E as leis que ele fazia

eram as mais absurdas do mundo.

Olhem só esta lei:

“Fica terminantemente proibido cortar a unha

do dedão do pé direito em noite de lua cheia!”

Agora, por que é que o reizinho queria mandar

no dedão das pessoas,

isso ninguém jamais vai saber.

As pessoas, então, foram ficando

cada vez mais quietas,

cada vez mais caladas.

É que todo mundo tinha medo

de levar pito do rei.

E de tanto ficarem caladas

as pessoas foram esquecendo

como é que se falava.”

 

Telma

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Indicação de Livro

Hoje vamos indicar um livro da fase realista/naturalista da literatura brasileira: O Cortiço, de Aluísio Azevedo.

Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo, nasceu em 14 de abril de 1857, em São Luís do Maranhão. Mas foi no Rio de Janeiro que iniciou a carreira de escritor. Segundo o próprio autor, seus romances alternavam-se em romances românticos, que classificava como “comerciais”, isto é de consumo e os romances naturalistas, que chamava de “artísticos”.

O Cortiço pertence ao grupo dos romances artísticos e é uma de suas maiores obras. Nele se vê a constante preocupação com as questões sociais, a crítica ao capitalismo selvagem, ao conservadorismo e ao clero e a valorização dos instintos naturais. O autor frequentemente compara os personagens a animais, caracteristica típica do Naturalismo. A supervalorização do sexo, também está presente na obra: Aluísio Azevedo explora várias formas de sexualidade e o sexo aparece no livro muitas vezes como forma de degradação moral.

O livro narra a vida de moradores de uma habitação coletiva miserável. Aluísio Azevedo analisa de modo objetivo e extremamente realista diversos tipos humanos. O homem é mostrado de forma crua, com todos os seus vícios e defeitos mais sórdidos.

O traço mais marcante da obra é a constatação de que o homem é produto do meio em que vive.  A vida dos personagens do livro se entrelaça e o Cortiço – meio em que vivem – é o núcleo gerador de todos os acontecimentos e modificações ocorridas com os seus integrantes. O próprio cortiço, na verdade, é o protagonista do livro, ele fervilha e produz os tipos humanos que lá se encontram.

 O Cortiço é sem dúvida uma obra imperdível. O retrato dos tipos humanos, as diversas intrigas, a descrição do ambiente e o irônico desfecho do livro justificam a sua classificação pelos estudiosos como verdadeira obra-prima.

A seguir alguns trechos do livro para animar a ler quem ainda não o leu e incentivar a ler novamente quem já o leu:

 “Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre
e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo.”

“E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.”

“Também cantou. E cada verso que vinha da sua boca de mulata era um arrulhar choroso de pomba no cio. E o Firmo, bêbedo de volúpia, enroscava-se todo ao violão; e o violão e ele gemiam com o mesmo gosto, grunhindo, ganindo, miando, com todas as vozes de bichos sensuais, num desespero de luxúria que penetrava até ao tutano com línguas finíssimas de cobra.”

“E devorava-a de beijos violentos, repetidos, quentes, que sufocavam a menina, enchendo-a de espanto e de um instintivo temor, cuja origem a pobrezinha, na sua simplicidade, não podia saber qual era. (…) Leonie fingia prestar-lhe atenção e nada mais fazia do que afagar-lhe a cintura, as coxas e o colo. Depois, como que distraidamente, começou a desabotoar-lhe o corpinho do vestido”.

“Não era a inteligência nem a razão o que lhe apontava o perigo, mas o instinto, o faro sutil e desconfiado de toda fêmea pelas outras, quando sente seu ninho exposto”.

“Passaram-se semanas. Jerônimo tomava agora, todas as manhãs, uma xícara de café bem grosso, à moda da Ritinha, e tragava dois dedos de parati, ” pra cortar a friagem.”
Uma transformação lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo de crisálida. A sua energia afrouxava lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam; esquecia-se de seus primitivos sonhos de ambição, para idealizar felicidades novas, picantes e violentas; tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar de que guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres e volvia-se preguiçoso, resignando-se, vencido, às imposições do sol e do calor…”

“Ela saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, como numa sofreguidão de gozo carnal, num requebrado luxurioso que a punha ofegante; já correndo de barriga empinada; já recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se fosse afundando num prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e nunca se encontra fundo. Rita [...] tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada; aqueles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante.”

  Boa leitura.

Karina

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