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Indicação de Livro

Hoje vamos indicar um livro da fase realista/naturalista da literatura brasileira: O Cortiço, de Aluísio Azevedo.

Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo, nasceu em 14 de abril de 1857, em São Luís do Maranhão. Mas foi no Rio de Janeiro que iniciou a carreira de escritor. Segundo o próprio autor, seus romances alternavam-se em romances românticos, que classificava como “comerciais”, isto é de consumo e os romances naturalistas, que chamava de “artísticos”.

O Cortiço pertence ao grupo dos romances artísticos e é uma de suas maiores obras. Nele se vê a constante preocupação com as questões sociais, a crítica ao capitalismo selvagem, ao conservadorismo e ao clero e a valorização dos instintos naturais. O autor frequentemente compara os personagens a animais, caracteristica típica do Naturalismo. A supervalorização do sexo, também está presente na obra: Aluísio Azevedo explora várias formas de sexualidade e o sexo aparece no livro muitas vezes como forma de degradação moral.

O livro narra a vida de moradores de uma habitação coletiva miserável. Aluísio Azevedo analisa de modo objetivo e extremamente realista diversos tipos humanos. O homem é mostrado de forma crua, com todos os seus vícios e defeitos mais sórdidos.

O traço mais marcante da obra é a constatação de que o homem é produto do meio em que vive.  A vida dos personagens do livro se entrelaça e o Cortiço – meio em que vivem – é o núcleo gerador de todos os acontecimentos e modificações ocorridas com os seus integrantes. O próprio cortiço, na verdade, é o protagonista do livro, ele fervilha e produz os tipos humanos que lá se encontram.

 O Cortiço é sem dúvida uma obra imperdível. O retrato dos tipos humanos, as diversas intrigas, a descrição do ambiente e o irônico desfecho do livro justificam a sua classificação pelos estudiosos como verdadeira obra-prima.

A seguir alguns trechos do livro para animar a ler quem ainda não o leu e incentivar a ler novamente quem já o leu:

 “Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre
e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo.”

“E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.”

“Também cantou. E cada verso que vinha da sua boca de mulata era um arrulhar choroso de pomba no cio. E o Firmo, bêbedo de volúpia, enroscava-se todo ao violão; e o violão e ele gemiam com o mesmo gosto, grunhindo, ganindo, miando, com todas as vozes de bichos sensuais, num desespero de luxúria que penetrava até ao tutano com línguas finíssimas de cobra.”

“E devorava-a de beijos violentos, repetidos, quentes, que sufocavam a menina, enchendo-a de espanto e de um instintivo temor, cuja origem a pobrezinha, na sua simplicidade, não podia saber qual era. (…) Leonie fingia prestar-lhe atenção e nada mais fazia do que afagar-lhe a cintura, as coxas e o colo. Depois, como que distraidamente, começou a desabotoar-lhe o corpinho do vestido”.

“Não era a inteligência nem a razão o que lhe apontava o perigo, mas o instinto, o faro sutil e desconfiado de toda fêmea pelas outras, quando sente seu ninho exposto”.

“Passaram-se semanas. Jerônimo tomava agora, todas as manhãs, uma xícara de café bem grosso, à moda da Ritinha, e tragava dois dedos de parati, ” pra cortar a friagem.”
Uma transformação lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo de crisálida. A sua energia afrouxava lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam; esquecia-se de seus primitivos sonhos de ambição, para idealizar felicidades novas, picantes e violentas; tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar de que guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres e volvia-se preguiçoso, resignando-se, vencido, às imposições do sol e do calor…”

“Ela saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, como numa sofreguidão de gozo carnal, num requebrado luxurioso que a punha ofegante; já correndo de barriga empinada; já recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se fosse afundando num prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e nunca se encontra fundo. Rita [...] tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada; aqueles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante.”

  Boa leitura.

Karina

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Obra-prima de José Lins do Rego

Esse post se presta unicamente para indicar um livro incrível, do qual gostei muito e acho humanamente impossível que alguém o leia e não se apaixone.

Trata-se de “Fogo Morto”, de José Lins do Rego, publicado em 1943.

Como é de conhecimento geral, o paraibano José Lins do Rego fez parte do movimento regionalista do modernismo brasileiro.

Nesse livro, de caráter neo-realista, ele conta a história da decadência dos senhores de engenho por meio de três personagens riquíssimos, em três capítulos separados: Mestre José Amaro, um homem trabalhador, mas rancoroso e conservador, além de ser perseguido por populares que acreditam que ele é lobisomem; Coronel Lula, dono de engenho, cruel e invejoso; e Capitão Vitorino, um idealista que procura defender o engenho com unhas e dentes, demonstrando um incrível senso de justiça. 

A ação se desenvolve quase integralmente nas terras do engenho Santa-Fé e os três personagens principais se inter-relacionam na narrativa, interligando também o mundo da casa grande e o mundo da senzala, com as consequências sociais que decorrem desse relacionamento difícil.

O romance é maravilhoso. É um daqueles livros em que se vira a noite lendo, devorando com avidez cada capítulo. Isso porque,  José Lins do Rego logrou o êxito de analisar os mais complicados conflitos humanos através dos personagens centrais, porém sem ser pedante. 

A obra é profunda e ao mesmo tempo de uma simplicidade sem igual. Explora com ímpar inteligência os sentimentos da inveja, do desajuste, da revolta e da mágoa. Além disso, consegue mostrar o ciclo de mudanças sociais por que passou o nordeste brasileiro, por meio de uma lingaugem coloquial e fascinante, trazendo inclusive passagens muito engraçadas.

Tudo o que for dito aqui não será suficiente para descrever a magnitude dessa obra. É preciso lê-la, relê-la, trelê-la. É um livro imperdível, de leitura obrigatória.

Quem não leu Fogo Morto, não viveu.

Telma

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Dia dos Pais

O Dia dos Pais está chegando. Para uns é apenas mais uma daquelas datas destinadas ao consumismo desenfreado, para outros, o dia é especial e deve sim ser comemorado.

Para nós do blog, a aproximação da data nos fez lembrar de um livro que retrata a estória de um pai que ama incondicionalmente suas filhas e delas só recebe desprezo e que indicamos como leitura obrigatória: O Pai Goriot (Le Père Goriot) , de Honoré de Balzac.

A obra, datada de 1835, é um dos romances mais famosos do aclamado escritor francês e retrata fielmente a sociedade parisiense do século XIX. Pai Goriot é um ex-comerciante de trigo que enriqueceu durante a Revolução Francesa, mas que acaba vivendo em constante privação, pois dispende toda a sua pequena fortuna para satisfazer os caprichos de suas duas filhas, Delphine e Anastasie, damas da alta sociedade pariesiense, pelas quais nutre imensurável e cego amor. Além da figura central do velho pai há outros personagens de grande complexidade.

O próprio Balzac – em carta escrita a sua futura esposa - disse sobre a obra: “Uma coisa que você não espera é O pai Goriot, uma obra-prima. A pintura de um sentimento tão grande que nada o esgota, nem os atritos, nem as feridas, nem as injustiças, um homem que é pai como um santo, um mártir e um cristão”.

Tinha razão. Vale a pena ler!

Abraços a todos e boa leitura!

Feliz Dia dos Pais

Karina

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