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Murilo Mendes em conta-gotas

O utopista


Ele acredita que o chão é duro

Que todos os homens estão presos

Que há limites para a poesia

Que não há sorrisos nas crianças

Nem amor nas mulheres

Que só de pão vive o homem

Que não há um outro mundo.


A tentação


Diante do crucifixo

Eu paro pálido tremendo

“ Já que és o verdadeiro filho de Deus

Desprega a humanidade desta cruz”.


O mau samaritano


Quantas vezes tenho passado perto de um doente,

Perto de um louco, de um triste, de um miserável,

Sem lhes dar uma palavra de consolo.

Eu bem sei que minha vida é ligada à dos outros,

Que outros precisam de mim que preciso de Deus

Quantas criaturas terão esperado de mim

Apenas um olhar – que eu recusei.

Karina


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Canção do Exílio Moderna

Todos conhecem a famosíssima poesia romântica de Gonçalves Dias, denominada “Canção do Exílio”. Gonçalves Dias foi considerado o maior poeta indianista da literatura brasileira e escreveu a mencionada poesia quando estava longe de sua pátria. Ele cursava Direito em Coimbra e, saudoso do Brasil, resolveu elogiar a natureza de nossa terra.

Pois bem. Na fase literária do Modernismo, já em 1983, o também consagarado poeta Murilo Mendes decidiu reescrever a “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias, sob o ponto de vista dos tempos atuais, com mais críticas e sem o nacionalismo de outrora.

Vejam o resultado:

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Canção do Exílio

Minha terra tem macieiras da Califórnia

Onde cantam gaturamos de Veneza

Os poetas da minha terra

São pretos que vivem em torres de ametista,

os sargentos do exército são monistas, cubistas,

os filósofos são polacos vendendo as prestações.


A gente não pode dormir

com os oradores e os pernilongos.

Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.


Eu morro sufocado

em terra estrangeira.

Nossas flores são mais bonitas

Nossas frutas mais gostosas

mas custam cem mil réis a dúzia


Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade

e ouvir um sabiá com certidão de idade!

Telma

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Reflexão de Murilo Mendes

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Reflexão n°1
“Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.

Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.”

Karina

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Murilo Mendes

murilo_mendes_2Murilo Monteiro Mendes nasceu na cidade mineira de Juiz de Fora em 13 de maio de 1901 e é um nome notável da literatura modernista brasileira, embora seja muitas vezes injustamente esquecido por parte dos críticos literários.

O poeta compôs desde poemas satíricos e de cunho social até se enveredar na criação de poesias religiosas e místicas.

Sua obra se caracteriza pelo humor e pela ironia usados como forma de crítica, pelo espiritualismo e pela temática social. Os versos são vivos e densos. Embora pertença à escola modernista, nunca seguiu rigidamente o movimento, tendo criado um estilo próprio, que também o aproximou do Surrealismo europeu.

Murilo Mendes mudou-se no ano de 1953 para a Europa, onde ganhou amplo  e merecido reconhecimento. Faleceu em Lisboa no ano de 1975.

A poesia abaixo, integra o livro “Poemas” (de 1930), o qual ganhou o prêmio Graça Aranha:

Cantiga de Malazarte

“Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor,
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo.
Nada me fixa nos caminhos do mundo”.

“Cantiga de Malazarte” foi  inspirada em Pedro Malazarte ou Pedro Malas Artes, herói do folclore português conhecido por suas trapalhadas e bom coração.  No Brasil, o personagem ganhou as características de astuto e aventureiro.  Destacamos aqui os versos vivos, a forma livre de expressão, as imagens constratantes e a descrição das sensações por meio dos sentidos.

Em breve traremos mais da rica obra de Murilo Mendes.

Karina

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