Somos fãs de carteirinha de Lygia Bojunga. Ela é uma autora que sabe adentrar o universo infantil de maneira singular. Seus livros misturam fantasia e realidade, sempre abordando a perspectiva da criança ao ver o mundo. E é por isso que nos livros de Lygia tudo pode acontecer, pois a imaginação infantil não tem limites.
O livro A Casa da Madrinha trabalha muito bem a fantasia. Alexandre – o protagonista – busca a casa de sua madrinha, que nada mais é do que o desejo de encontrar um lugar que o acolha e o liberte de um mundo hostil e de uma vida de abandono. As experiências fantásticas que vivencia são as formas que o personagem encontra de escapar da dura realidade em que vive. Por fim, o livro traz ao leitor uma mensagem de esperança e luta pela vida.
A Casa da Madrinha foi traduzido para vários idiomas e também ganhou muitos prêmios internacionais.
Aqui vão trechos de mais uma obra imperdível de Lygia Bojunga:

“Alexandre nem esperou a turma sumir pra catar o dinheiro no chão. Desembrulhou a cocada, comeu de uma vez só. As balas nem mastigou: engoliu. Descascou correndo as bananas, comeu uma atrás da outra. Se virou pra ver se encontrava mais coisa no chão, tomou um susto danado:
-Ué, não tinha visto você.
Vera estava quieta olhando pra ele; pegou a merenda e estendeu:
- Não comi no recreio. Ontem chupei muita manga e meu estômago ficou ruim. Quer?
Alexandre fez que sim. Abriu o guardanapo que embrulhava um sanduíche de queijo e uns bolinhos de milho. Se encostou na mangueira e foi comendo.”
…
” – Agora o Pavão vai dormir até não poder mais. E eu vou ter que tomar conta dele.
- Por quê?
- Ué, se roubam meu pavão tô desgraçado: não tem mais show, não ganho mais, como é que eu vou comer?
- Ele mora com você em Copacabana?
- Não. Encontrei com ele na viagem.
- Que viagem?
- Eu tô viajando, tô indo pra casa da minha madrinha.”
…
“- Bom, antes de fazer sucesso ele não tinha dono nenhum. Mas foi só começar aquela história de todo o mundo querer ver a beleza do Pavão que apareceram logo cinco donos: um disse o Pavão tinha nascido no jardim dele e então era dele; o vizinho disse que ele é que dava comida pro Pavão e então o Pavão era dele; uma mulher disse que ela é que tinha dado o Pavão pro dono do jardim e que então ela era a primeira dona: uma outra disse: “História! A mãe do Pavão era minha; se eu era dona da mãe sou dona dos filhos também”; e aí o quinto dono resolveu: “O Pavão não tem nada que topar ou não topar esse negócio de cobrar entrada; a gente que é que é dono, a gente é que resolve, pronto!” E os outros quatro também disseram: pronto.
- E o Pavão topou?
- Topou nada! Ficou danado da vida de ver aparecer tanto dono de repente. E quando viu que queriam prender ele num jardinzinho à-toa pra se exibir o tempo todo, ainda ficou mais zangado. Logo ele que vivia pensando em viajar, um dia pegar um navio e atravessar o mar todinho. Falou: “Não topo mesmo.” Então prenderam ele pela pata. Mas ele se soltou.”
…
“Aí perderam a paciência e resolveram: “Vamos acabar de uma vez com a mania desse cara se soltar.” E então levaram o Pavão para uma escola que tinha lá perto e que era uma escola feita de propósito pra atrasar o pensamento dos alunos.
A escola pra onde levaram o Pavão se chamava Escola Osarta do Pensamento. Bolaram o nome da escola pra não dar muito na vista. Mas quem estava interessado no assunto percebia logo: era só ler Osarta de trás pra frente.”
…
” O Curso Papo era pra isso mesmo: pro aluno ficar com medo de tudo. O pessoal do Osarta sabia que quanto mais apavorado o aluno ia ficando, mais o pensamento dele ia atrasando.”
…
“- Mas tá na cara que você não tem madrinha nenhuma! Aquilo foi tudo história que o Augusto inventou pra você dormir! – E foi só acabar de falar que já bateu um arrependimento danado: “puxa vida, pra quê que eu fui falar? pra quê!”
…
“Foi teu pai e tua mãe que falaram que tá na cara que eu não tenho madrinha nenhuma?
-Foi.
(…) “ – Já tinham me avisado que gente grande tem uma inveja danada de madrinha de gente pequena.”
Karina












