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Indicação de Literatura Infanto-Juvenil

Somos fãs de carteirinha de Lygia Bojunga. Ela é uma  autora que sabe adentrar o universo infantil de maneira singular. Seus livros misturam fantasia e realidade, sempre abordando a perspectiva da criança ao ver o mundo. E é por isso que nos livros de Lygia tudo pode acontecer, pois a imaginação infantil não tem limites.

O livro A Casa da Madrinha trabalha muito bem a fantasia. Alexandre – o protagonista – busca a casa de sua madrinha, que nada mais é do que o desejo de encontrar um lugar que o acolha e o liberte de um mundo hostil e de uma vida de abandono. As experiências fantásticas que vivencia são as formas que o personagem encontra de escapar da dura realidade em que vive. Por fim, o livro traz ao leitor uma mensagem de esperança e luta pela vida.

A Casa da Madrinha foi traduzido para vários idiomas e também ganhou muitos prêmios internacionais.

Aqui vão trechos de mais uma obra imperdível de Lygia Bojunga:

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“Alexandre nem esperou a turma sumir pra catar o dinheiro no chão. Desembrulhou a cocada, comeu de uma vez só. As balas nem mastigou: engoliu. Descascou correndo as bananas, comeu uma atrás da outra. Se virou pra ver se encontrava mais coisa no chão, tomou um susto danado:

-Ué, não tinha visto você.

Vera estava quieta olhando pra ele; pegou a merenda e estendeu:

- Não comi no recreio. Ontem chupei muita manga e meu estômago ficou ruim. Quer?

Alexandre fez que sim. Abriu o guardanapo que embrulhava um sanduíche de queijo e uns bolinhos de milho. Se encostou na mangueira e foi comendo.”

” – Agora o Pavão vai dormir até não poder mais. E eu vou ter que tomar conta dele.

- Por quê?

- Ué, se roubam meu pavão tô desgraçado: não tem mais show, não ganho mais, como é que eu vou comer?

- Ele mora com você em Copacabana?

- Não. Encontrei com ele na viagem.

- Que viagem?

- Eu tô viajando, tô indo pra casa da minha madrinha.”

“- Bom, antes de fazer sucesso ele não tinha dono nenhum. Mas foi só começar aquela história de todo o mundo querer ver a beleza do Pavão que apareceram logo cinco donos: um disse o Pavão tinha nascido no jardim dele e então era dele; o vizinho disse que ele é que dava comida pro Pavão e então o Pavão era dele; uma mulher disse que ela é que tinha dado o Pavão pro dono do jardim e que então ela era a primeira dona: uma outra disse: “História! A mãe do Pavão era minha; se eu era dona da mãe sou dona dos filhos também”; e aí o quinto dono resolveu: “O Pavão não tem nada que topar ou não topar esse negócio de cobrar entrada; a gente que é que é dono, a gente é que resolve, pronto!” E os outros quatro também disseram: pronto.

- E o Pavão topou?

- Topou nada! Ficou danado da vida de ver aparecer tanto dono de repente. E quando viu que queriam prender ele num jardinzinho à-toa pra se exibir o tempo todo, ainda ficou mais zangado. Logo ele que vivia pensando em viajar, um dia pegar um navio e atravessar o mar todinho. Falou: “Não topo mesmo.” Então prenderam ele pela pata. Mas ele se soltou.”

“Aí perderam a paciência e resolveram: “Vamos acabar de uma vez com a mania desse cara se soltar.” E então levaram o Pavão para uma escola que tinha lá perto e que era uma escola feita de propósito pra atrasar o pensamento dos alunos.

A escola pra onde levaram o Pavão se chamava Escola Osarta do Pensamento. Bolaram o nome da escola pra não dar muito na vista. Mas quem estava interessado no assunto percebia logo: era só ler Osarta de trás pra frente.”

” O Curso Papo era pra isso mesmo: pro aluno ficar com medo de tudo. O pessoal do Osarta sabia que quanto mais apavorado o aluno ia ficando, mais o pensamento dele ia atrasando.”

“- Mas tá na cara que você não tem madrinha nenhuma! Aquilo foi tudo história que o Augusto inventou pra você dormir!  – E foi só acabar de falar que já bateu um arrependimento danado: “puxa vida, pra quê que eu fui falar? pra quê!”

“Foi teu pai e tua mãe que falaram que tá na cara que eu não tenho madrinha nenhuma?

-Foi.

(…) “ – Já tinham me avisado que gente grande tem uma inveja danada de madrinha de gente pequena.”

Karina

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Vale a pena ler Ruth Rocha

Mais um estória divertida de Ruth Rocha para mostrar que as crianças são bem mais espertas do que se imagina e que a sua inteligência não pode ser subestimada.

COMO SE FOSSE DINHEIRO

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Todos os dias Catapimba levava dinheiro para escola para comprar o lanche.

Chegava no bar, comprava um sanduíche e pagava seu Lucas.

Mas seu Lucas nunca tinha troco.

Um dia, Catapimba reclamou de seu Lucas:

- Seu Lucas, eu não quero bala, quero meu troco em dinheiro.

- Ora, menino, eu não tenho troco. Que é que eu posso fazer?

- Ah, eu não sei! Só sei que quero meu troco em dinheiro!

- Ora, bala é como se fossa dinheiro, menino? Ora essa…

Catapimba ainda insistiu umas duas ou três vezes.

A resposta era sempre a mesma:

- Ora, menino, bala é como se fosse dinheiro… Então, leve um chiclete, se não gosta de bala.

Aí, Catapimba resolveu dar um jeito.

No dia seguinte, apareceu com um embrulhão de baixo do braço. Os colegas queriam saber o que era. Catapimba ria e respondia;

- Na hora do recreio, vocês vão ver…

E, na hora do recreio, todo mundo viu.

Catapimba comprou o seu lanche. Na hora de pagar, abriu o embrulho. E tirou de dentro… uma galinha.

Botou a galinha em cima do balcão.

- Que é isso, menino? – perguntou seu Lucas.

- É pra pagar o sanduíche, seu Lucas. Galinha é como se fosse dinheiro… o senhor pode me dar troco, por favor?

Os meninos estavam esperando para ver o que seu Lucas ia fazer.

Seu Lucas ficou um tempão parado, pensando…

Aí colocou uma moedas no balcão:

- Está aí seu troco, menino!

E pegou a galinha, para acabar com a confusão.

No dia seguinte, todas as crianças apareceram com embrulhos debaixo do braço.

No recreio, todo mundo foi comprar lanche.

Na hora de pagar…

Teve gente que queria pagar com raquete de pingue-pongue, com papagaio de papel, com vidro de cola, com geléia de jabuticaba…

O Armandinho quis pagar um sanduíche de mortadela com o sanduíche de goiabada que ele tinha levado…

Teve gente que também levou galinha, pato, peru…

E, quando seu Lucas reclamava, a resposta era sempre a mesma;

- Ué, seu Lucas, é como se fosse dinheiro…

Mas seu Lucas ficou chateado mesmo quando apareceu o Caloca puxando um bode.

Aí, seu Lucas correu e chamou a diretora.

Dona Júlia veio e contaram pra ela o que estava acontecendo.

E sabe o que ela achou?

Pois achou que as crianças tinham razão..

- Sabe, seu Lucas – ela falou -, bode não é como se fosse dinheiro. Galinha também não é. Até aí o senhor tem razão. Mas bala também não é como se fosse dinheiro muito menos chiclete.

Seu Lucas se desculpava:

- É, mas eu não tive troco?

- Aí, o senhor anota, e no outro dia paga.

Os meninos fizeram uma festa, deram pique-pique pra dona Júlia e tudo.

Naquele dia, nem houve mais aula.

Mas o melhor de tudo é que todos do bairro ficaram sabendo do caso.

E, agora, seu Pedro da farmácia não dá mais comprimidos de troco, seu Ângelo do mercado não dá mais mercadoria como se fosse dinheiro.

Afinal, ninguém quer receber um bode em pagamento, como se fosse dinheiro. É, ou não é?

(Fonte: http://www.uol.com.br/ruthrocha/home.htm)

Karina

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Mais José Paulo Paes para a garotada

Trazemos mais dois poemas do escritor José Paulo Paes, que soube, com muito talento e criatividade, escrever para crianças.

O primeiro poema – Convite – como o próprio título diz, convida a criança a brincar com as palavras. É sem dúvida um incentivo para a garotada se animar a escrever mais, a dar asas à imaginação.

No segundo poema transcrito hoje – Pura Verdade - Paes brinca com o leitor e sua imaginação.

Divirtam-se:

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CONVITE

Poesia

é brincar com palavras

como se brinca

com bola, papagaio, pião.


Só que

bola, papagaio,pião

de tanto brincar

se gastam.


As palavras não:

quanto mais se brinca

com elas

mais novas ficam.


Como a água do rio

que é água sempre nova.


Como cada dia

que é sempre um novo dia.


Vamos brincar de poesia?


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PURA VERDADE

Eu vi um ângulo obtuso

Ficar inteligente

E a boca da noite

Palitar os dentes.


Vi um braço de mar

Coçando o sovaco

E também dois tatus

Jogando buraco.


Eu vi um nó cego

Andando de bengala

E vi uma andorinha

Arrumando a mala.


Vi um pé de vento

Calçar as botinas

E o seu cavalo-motor

Sacudir as crinas.


Vi uma mosca entrando

Em boca fechada

E um beco sem saída

Que não tinha entrada.


É a pura verdade,

A mais nem um til,

E tudo aconteceu

Num primeiro de abril.

Karina

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Literatura Infantil

Oferecemos o post de hoje principalmente aos leitores mirins. Trazemos dois poemas infantis, um da consagrada Cecília Meireles e o outro do escritor e poeta paulista José Paulo Paes (1926-1998), que dedicou grande parte de sua carreira a escrever para crianças e  – diga-se – com muita criatividade e sutileza.

Certamente, se apresentadas desde cedo à obra desses poetas, as crianças irão carregar consigo o hábito de gostar de ler.

Confiram:


RARIDADE

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A arara

é uma ave rara

pois o homem não pára

de ir ao mato caçá-la

para a pôr na sala

em cima de um poleiro

onde ela fica o dia inteiro

fazendo escarcéu

porque já não pode

voar pelo céu.


E se o homem não pára

de caçar arara,

hoje uma ave rara,

ou a arara some

ou então muda seu nome

para arrara.

(José Paulo Paes)

A BAILARINA

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Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.


Não conhece nem dó nem ré

mas sabe ficar na ponta do pé.


Não conhece nem mi nem fá

mas inclina o corpo para cá e para lá.


Não conhece nem lá nem si,

mas fecha os olhos e sorri.


Roda, roda, roda com os bracinhos no ar

e não fica tonta nem sai do lugar.


Põe no cabelo uma estrela e um véu

e diz que caiu do céu.


Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.


Mas depois esquece todas as danças,

e também quer dormir como as outras crianças.

Karina

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Atendendo a pedidos: mais poesia para crianças

As Flores

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Deus ao mundo deu a guerra,
A doença, a morte, as dores;
mas, para alegrar a terra,
Basta haver-lhe dado as flores.
Umas, criadas com arte,
Outras, simples e modestas,
Há flores por toda a parte
Nos enterros e nas festas,
Nos jardins, nos cemitérios,
Nos paúes e nos pomares;
Sobre os jazigos funéreos,
Sobre os berços e os altares,
Reina a flor! pois quis a sorte
Que a flor a tudo presida,
E também enfeite a morte,
Assim como enfeita a vida.
Amai as flores, crianças!
Sois irmãs nos esplendores,
Porque há muitas semelhanças
Entre as crianças e as flores…

(Olavo Bilac)

—x—

Sonhos da Menina

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A flor com que a menina sonha
está no sonho?
ou na fronha?

Sonho
risonho:

O vento sozinho
no seu carrinho.

De que tamanho
seria o rebanho?

A vizinha
apanha
a sombrinha
de teia de aranha  . . .

Na lua há um ninho
de passarinho.

A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha?

(Cecília Meireles)

Karina

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“O menino que quase virou cachorro”

Mais uma estória de Ruth Rocha para alegrar e ensinar a criançada. Porque criança também tem voz ativa e merece atenção.

O Menino que Quase Virou Cachorro

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“Miguel era um menino bacana.

Brincalhão, inteligente, amigo dos amigos.

E ele era muito amigo do Tanaka, um outro menino brincalhão, inteligente e descolado.

Os dois conversavam muito, sobre uma porção de coisas.

Um dia o Miguel disse pro Tanaka:

-Cê sabe, Tanaka, eu acho que eu sou invisível.

-Invisível? Como assim? Eu estou vendo você muito bem…

- Não – disse o Miguel – não sou invisível pra todo mundo, não. Só pros meus pais. Eles olham pra mim, mas acho que eles não me enxergam!

O Tanaka ficou espantado. E então eles combinaram que iriam à casa do Miguel só pro Tanaka ver.

No sábado, na hora do almoço Tanaka chegou, como eles tinham combinado.

Miguel abriu a porta, mandou o amigo entrar e anunciou a todos que já estavam sentados pra almoçar :

-Eu trouxe o Tanaka pra almoçar conosco!

A mãe do Miguel levantou, botou um a cadeira pro Tanaka, foi buscar um prato, um copo e os talheres.

Enquanto isso ia conversando:

-Olá, Tanaka, faz tempo que você não aparece! E sua mãe vai bem? E sua irmã, tão bonitinha, sua irmã…

Mas nem olhou pro Miguel.

Miguel sentou-se, serviu-se, comeu, e ninguém olhou pra ele. Tanaka ficou reparando.

Então o Miguel fez uma pergunta pro pai, mas ele estava prestando atenção à TV e só fez:

-Shhh…

Quando os meninos saíram o Tanaka estava espantado, mas ele disse:

-Acho que as famílias são assim mesmo. Ninguém presta atenção aos filhos…

O Miguel ainda falou:

-Pois é, quando eu saio com meu pai é ainda pior! Meu pai fala comigo como se eu fosse o cachorro “Anda!”, “Anda logo!” “Espera!” “Anda!” “Vem logo!”

Na semana seguinte Miguel saiu com o pai. E como ele tinha dito o pai só dizia “Anda!”, “Vem logo!”

Miguel foi ficando bravo.

Aí quando o pai, mais uma vez disse “Anda!” Miguel latiu:

-Au, au, au, au!

O pai olhou espantado, mas o ônibus estava chegando e eles tomaram o ônibus.

Quando desceram o pai continuou: Anda, para, espera, vem logo!

Miguel latiu outra vez:

-Au, au, au, au!

O pai olhou espantado:

-Que é isso, menino, vem!

E o Miguel:

-Au, au, au, au!

-Pára com isso! – o pai respondeu – Vem!

Miguel resolveu parar, porque achou que o pai estava ficando bravo…

Mas na outra semana havia um casamento de uma prima e o pai levou o Miguel para comprar uma roupa. Nem perguntou o que ele queria. Já foi escolhendo uma calça comprida, uma camisa, um suéter e … uma gravata.

Miguel não falou nada, porque ninguém perguntou. Mas ele pensou: “Eu não vou botar gravata, nem morto. Eu não sou cachorro pra usar coleira…”

No dia do casamento Miguel tomou banho, se vestiu, calçou os sapatos, que também eram novos, mas não botou a gravata.

O pai dele chamou: “Vem aqui.” Miguel chegou perto do pai e disse:

- Eu não quero botar gravata. Parece coleira.

O pai nem respondeu. Ele disse:

-Vem!

E foi botando a gravata no pescoço do Miguel e dando um laço e apertando o laço e o Miguel começou a uivar.

-Aúúúúúúú!

O pai ficou espantado, mas continuou a apertar o laço e a dizer:

-Fica quieto! Não se mexa!

-Pare com isso!

E então o laço estava tão apertado que o Miguel não aguentou. Tacou uma mordida na mão do pai.

O pai ficou furioso, cheio de “Que é issos” e de “ Para já com issos” e de “Vam’ver, vam’veres”.

A mãe veio lá de dentro pra ver o que estava acontecendo e o Miguel disse:

-Se não querem que eu vire cachorro, não me tratem como cachorro!

O pai olhou pra mãe.

A mãe olhou pra pai.

-Que é isso – disse a mãe – ninguém trata você como cachorro!

E o Miguel respondeu:

-Então não me ponham coleira! Não me chamem “Vem”. Eu tenho nome.

O Miguel, nesse dia, foi ao casamento sem coleira… quer dizer, sem gravata.

E o Tanaka e contou que quando foi à casa do Miguel, na semana passada, os pais falavam com ele direitinho:

-Quer mais feijão, Miguel?

-Me passa a batatinha, filho?”

Karina

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Mais Ruth Rocha

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Já falamos sobre Ruth Rocha no blog, salientando como a escritora paulistana consegue entrar no imaginário das crianças com maestria. Seus livros, amplamente premiados, são, além de diversão para as crianças, uma forma de aprendizado sobre valores e sobre como lidar com os conflitos e com as adversidades que a vida impõe desde cedo.

Sempre que possível postaremos dicas de livros e trechos da obra dessa escritora maravilhosa.

Hoje colocaremos a estória “O que os olhos não veem”, que de forma acessível incute na mente da criança a consciência política e revela o poder do povo.

Não deixem de ler para seus filhos, sobrinhos, netos etc:

O que os olhos não veem

Havia uma vez um rei
num reino muito distante,
que vivia em seu palácio
com toda a corte reinante.
Reinar pra ele era fácil,
ele gostava bastante.

Mas um dia, coisa estranha!
Como foi que aconteceu?
Com tristeza do seu povo
nosso rei adoeceu.
De uma doença esquisita,
toda gente, muito aflita,
de repente percebeu…

Pessoas grandes e fortes
o rei enxergava bem.
Mas se fossem pequeninas,
e se falassem baixinho,
o rei não via ninguém.

Por isso, seus funcionários
tinham de ser escolhidos
entre os grandes e falantes,
sempre muito bem nutridos.
Que tivessem muita força,
e que fossem bem nascidos.
E assim, quem fosse pequeno,
da voz fraca, mal vestido,
não conseguia ser visto.
E nunca, nunca era ouvido.

O rei não fazia nada
contra tal situação;
pois nem mesmo acreditava
nessa modificação.
E se não via os pequenos
e sua voz não escutava,
por mais que eles reclamassem
o rei nem mesmo notava.

E o pior é que a doença
num instante se espalhou.
Quem vivia junto ao rei
logo a doença pegou.
E os ministros e os soldados,
funcionários e agregados,
toda essa gente cegou.

De uma cegueira terrível,
que até parecia incrível
de um vivente acreditar,
que os mesmos olhos que viam
pessoas grandes e fortes,
as pessoas pequeninas
não podiam enxergar.

E se, no meio do povo,
nascia algum grandalhão,
era logo convidado
para ser o assistente
de algum grande figurão.
Ou senão, pra ter patente
de tenente ou capitão.
E logo que ele chegava,
no palácio se instalava;
e a doença, bem depressa,
no tal grandalhão pegava.

Todas aquelas pessoas,
com quem ele convivia,
que ele tão bem enxergava,
cuja voz tão bem ouvia,
como num encantamento,
ele agora não tomava
o menor conhecimento…

Seria até engraçado
se não fosse muito triste;
como tanta coisa estranha
que por esse mundo existe.

E o povo foi desprezado,
pouco a pouco, lentamente.
Enquanto que próprio rei
vivia muito contente;
pois o que os olhos não vêem,
nosso coração não sente.

E o povo foi percebendo
que estava sendo esquecido;
que trabalhava bastante,
mas que nunca era atendido;
que por mais que se esforçasse
não era reconhecido.

Cada pessoa do povo
foi chegando à convicção,
que eles mesmos é que tinham
que encontrar a solução
pra terminar a tragédia.
Pois quem monta na garupa
não pega nunca na rédea!

Eles então se juntaram,
Discutiram, pelejaram,
E chegaram à conclusão
Que, se a voz de um era fraca,
Juntando as vozes de todos
Mais parecia um trovão.

E se todos, tão pequenos,
Fizessem pernas de pau,
Então ficariam grandes,
E no palácio real
Seriam logo avistados,
Ouviriam os seus brados,
Seria como um sinal.

E todos juntos, unidos,
fazendo muito alarido
seguiram pra capital.
Agora, todos bem altos
nas suas pernas de pau.
Enquanto isso, nosso rei
continuava contente.
Pois o que os olhos não vêem
nosso coração não sente…

Mas de repente, que coisa!
Que ruído tão possante!
Uma voz tão alta assim
só pode ser um gigante!
- Vamos olhar na muralha.
- Ai, São Sinfrônio, me valha
neste momento terrível!
Que coisa tão grande é esta
que parece uma floresta?
Mas que multidão incrível!

E os barões e os cavaleiros,
ministros e camareiros,
damas, valetes e o rei
tremiam como geléia,
daquela grande assembléia,
como eu nunca imaginei!

E os grandões, antes tão fortes,
que pareciam suportes
da própria casa real;
agora tinham xiliques
e cheios de tremeliques
fugiam da capital.

O povo estava espantado
pois nunca tinha pensado
em causar tal confusão,
só queriam ser ouvidos,
ser vistos e recebidos
sem maior complicação.

E agora os nobres fugiam,
apavorados corriam
de medo daquela gente.
E o rei corria na frente,
dizendo que desistia
de seus poderes reais.
Se governar era aquilo
ele não queria mais!

Eu vou parar por aqui
a história a que estou contando.
O que se seguiu depois
cada um vá inventando.
Se apareceu novo rei
ou se o povo está mandando,
na verdade não faz mal.
Que todos naquele reino
guardam muito bem guardadas
as suas pernas de pau.

Pois temem que seu governo
possa cegar de repente.
E eles sabem muito bem
que quando os olhos não veem
nosso coração não sente.

 (Editora Salamandra – Ano 2003 – Ilustrações de Carlos Brito – recomendado a partir dos 8 anos de idade)

 Karina

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Bojunga e a Bolsa Amarela

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Lygia Bojunga é uma renomada escritora de literatura infantil, nascida em Pelotas (RS), cuja sensibilidade ao escrever para crianças é enorme e sua obra  vem sendo premiada tanto no Brasil como internacionalmente.

De fato, a autora a que nos referimos lida com o mundo infantil com muita facilidade e sabe como ninguém mostrar o que vai dentro da alma de uma criança.

Um dos livros mais conhecidos e consagrados de Lygia é “A Bolsa Amarela”, que narra a estória de uma menina aprendendo a crescer. Nesse desafio, a personagem principal, Raquel, encara os problemas típicos de sua idade e passa a se descobrir enquanto pessoa, ao mesmo tempo em que tenta reprimir seus três grandes desejos: ser menino, se tornar escritora e crescer logo.

Num dado momento da narrativa, a menina ganha uma grande bolsa amarela e decide esconder dentro dela todas as suas vontades. A partir daí, vários episódios, mágicos e reais, passam a se desenvolver.

Trata-se de um livro muito especial, envolvente, que deve ser lido por crianças e por adultos, tamanha a magnitude da lição de vida que traz. Lígia Bojunga, com maestria, consegue se superar em “A Bolsa Amarela”.

Abaixo, reproduzimos um trecho desta magnífica obra da literatura infantil. Não ler é um pecado…

“Eu tenho que achar um lugar pra esconder as minhas vontades. Não digo vontade magra, pequenininha, que nem tomar sorvete a toda hora, dar sumiço na aula de matemática, comprar um sapato novo, que eu não aguento mais o meu. Vontade assim todo mundo pode ver, não tô ligando a mínima. Mas as outras – as três que de repente vão crescendo e engordando toda a vida – ah, essas eu não quero mais mostrar. De jeito nenhum.

Nem sei qual das três me enrola mais. Às vezes acho que é a vontade de crescer de uma vez e deixar de ser criança. Outra hora acho que é a vontade de ter nascido garoto em vez de menina. Mas hoje tô achando que é a vontade de escrever.

Já fiz de tudo pra me livrar delas. Adiantou? Hmm! É só me distrair um pouco e uma aparece logo. Ontem mesmo eu tava jantando e de repente pensei: puxa vida, falta tanto pra eu ser grande. Pronto: a vontade de crescer desatou a engordar, tive que sair correndo pra ninguém ver.

A bolsa amarela não tinha fecho. Já pensou? Resolvi que naquele dia mesmo eu ia arranjar um fecho pra ela.

Peguei um dinheiro que eu vinha economizando e fui numa casa que conserta e reforma bolsas. Falei que queria um fecho e o vendendor me mostrou um, dizendo que era o melhor que ele tinha. Custava muito caro, meu dinheiro não dava.

 - E aquele? – apontei. Era um fecho meio pobre, mas brilhando que só vendo.

O homem fez cara de pouco caso, disse que não era bom. Experimentei.

 - Mas ele abre e fecha tão bem.

O homem disse que o fecho era muito barato: ia enguiçar. Vibrei! Era isso mesmo que eu tava querendo: um fecho com vontade de enguiçar. Pedi pro vendendor atender outro freguês enquanto eu pensava um pouco. Virei pro fecho e passei uma cantada nele:

 - Escuta aqui fecho, eu quero guardar umas coisas bem guardadas aqui dentro dessa bolsa. Mas você sabe como é que é, não é? Às vezes vão abrindo a bolsa da gente assim sem mais nem menos; se isso acontecer você precisa enguiçar, viu? Você enguiça quando eu pensar “enguiça”, enguiça?

O fecho ficou olhando pra minha cara. Não disse que sim nem que não. Eu vi que ele tava querendo uma coisa em troca.

 - Olha, eu já vi que você tem mania de brilhar. Se você enguiçar na hora que precisa, eu prometo viver polindo você pra te deixar com essa pinta de espelho. Certo?

O fecho falou um tlique bem baixinho com todo o jeito de “certo”. Chamei o vendedor e pedi pra ele botar o fecho na bolsa.”

Telma

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O Reizinho Mandão: aprendizado fundamental para crianças

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Já virou costume no blog darmos sugestões de livros e poemas infantis para atiçar o gosto pela leitura na garotada.

Hoje não será diferente. Convidamos os leitores a oferecerem um belo presente para seus filhos, sobrinhos, netos e amigos de tenra idade: o livro “O Reizinho Mandão” da consagrada escritora e membro da Academia Brasileira de Letras Ruth Rocha.

Ruth é paulistana, nasceu em 1931 e, ao longo de sua vida profissional, escreveu inúmeros títulos para a garotada, tendo recebido diversos prêmios em razão de seu brilhantismo e de sua vocação para falar para crianças. Seu livro mais conhecido é “Marcelo, Marmelo, Martelo”, que atingiu a espetacular marca de vender mais de 1 milhão de exemplares.

Já falamos de passagem neste livro aqui no blog. Mas vale a pena um post só pra ele. O “Reizinho Mandão” narra a estória de um rei arbitrário e prepotente, que cria leis absurdas para serem seguidas em seu reino. Tem mania de mandar as pessoas calarem a boca a todo momento e é tão egoísta e arrogante, que as pessoas passam a ficar cada dia mais caladas, até que não falam mais absolutamente nada, desaprendem a falar.

Neste momento da narrativa, finalmente o déspota percebe que está agindo mal. Trata-se de um livro infantil imperdível, pela narrativa e também pelas interessantes ilustrações, de autoria de Walter Ono. Um maravilhoso aprendizado para a criançada sobre caráter, atitude, liberdade de expressão e mesmo sobre a importância da democracia.

Abaixo, postaremos apenas um trecho da obra apenas a título de aperitivo:

“…

Precisa ver que reizinho chato que ele ficou!

Mandão, teimoso, implicante, xereta!

Ele era tão xereta, tão mandão

que queria mandar em

tudo o que acontecia no reino.

Quando eu digo tudo, era tudo mesmo!

A diversão do reizinho era fazer leis

e mais leis. E as leis que ele fazia

eram as mais absurdas do mundo.

Olhem só esta lei:

“Fica terminantemente proibido cortar a unha

do dedão do pé direito em noite de lua cheia!”

Agora, por que é que o reizinho queria mandar

no dedão das pessoas,

isso ninguém jamais vai saber.

As pessoas, então, foram ficando

cada vez mais quietas,

cada vez mais caladas.

É que todo mundo tinha medo

de levar pito do rei.

E de tanto ficarem caladas

as pessoas foram esquecendo

como é que se falava.”

 

Telma

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A inesquecível Emília

Caros leitores:

No post anterior indicamos vários livros infantis do grande Monteiro Lobato, mas não poderíamos deixar de falar mais detalhadamente de Emília, a boneca falante.

Emília, a pesonagem mais marcante do Sítio do Picapau Amarelo, é considerada pelos críticos o alter-ego de Monteiro Lobato e merece destaque especial por seu carisma e “espírito libertário”.

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Na obra de Lobato, Emília foi feita por Tia Nastácia, que a deu a Narizinho. Emília é feita de pano e recheada de macela, além de ter ”olhos de retrós preto e sobrancelhas tão lá em cima que é ver uma bruxa”. Em diversos trechos das histórias, Narizinho (ou Tia Nastácia) é obrigada a consertar a boneca, enxertando-lhe mais “recheio” no corpo ou pregando-lhe novos olhos, uma vez que os seus vivem a arrebentar pois Emília os arregala demais.

Emília era muda, mas toma uma pílula do Dr. Caramujo e desanda a falar. A primeira frase dita pela boneca foi: “Estou com um horrível gosto de sapo na boca!” e falou “três horas sem tomar fôlego”.  Narizinho ao ver que Emília pode falar conclui que “a fala de Emília não estava bem ajustada” e que “era de gênio teimoso e asneirenta, pensando a respeito de tudo de um modo especial todo seu.” Narizinho vive dizendo que Emília é uma “torneirinha de asneiras”, já que a boneca tem mania de arrumar explicações pouco comuns sobre todas as coisas, além de mudar o nome de tudo quanto vê.

Sobre a vida:

“…a vida, Senhor Visconde, é um pisca – pisca.
A gente nasce, isto é, começa a piscar.
Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso.
É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais.
A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso.Um rosário de piscadas.
Cada pisco é um dia.
pisca e mama;
pisca e anda;
pisca e brinca;
pisca e estuda;
pisca e ama;
pisca e cria filhos;
pisca e geme os reumatismos;
por fim, pisca pela última vez e morre.
- E depois que morre – perguntou o Visconde.
- Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?”
  (em Memórias de Emília)

emi

Extremamente esperta e teimosa,  Emília nunca dá o braço a torcer, mesmo quando não sabe sequer do que está falando. Vejam:

“Emília tinha idéias de verdadeira louca.

- Vou lá – dizia ela – e agarro nas orelhas de dona Carocha e dou um pontapé naquele nariz de papagaio e pego o Polegada pelas pelas botas e venho correndo.

Narizinho ria-se, ria-se…

- Vai lá onde, Emília?

- Lá onde mora a velha.

- E onde mora a velha?

A boneca não sabia, mas não se atrapalhava na resposta. Emília nunca se atrapalhou nas suas respostas. Dizia as maiores asneiras do mundo, mas respondia.

- A velha mora com o Pequeno Polegada.

- Polegar, Emília!

- PO-LE-GA-DA.

Era teimosa como ela só. Nunca disse doutor Caramujo. Era sempre doutor Cara de Coruja. E nunca quis dizer Polegar. Era sempre Polegada.” (trecho de Reinações de Narizinho)

Muito intrometida, Emília vive querendo solucionar a seu modo problemas e situações urgentes que ocorrem no sítio. Foi ela também que levou Narizinho a viver sua primeira aventura: as duas, a convite do Príncipe Escamado, vão conhecer o fantástico Reino das Águas Claras.

As aventuras de Emília são inúmeras e o que mais nos faz amá-la, além de seu carisma incontestável, é  o seu espírito de liderança,  a sua obstinação em manter seus pontos de vista e a sua eterna curiosidade acerca de todas as coisas.

Através de Emília, Monteiro Lobato, conseguiu passar sua visão de mundo para as crianças, de forma divertida, reflexiva e, muitas vezes, crítica.

Quem nunca se divertiu com as estripulias de Emília não sabe o que está perdendo…

Karina

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