Setembro 30, 2009
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O lindo poema reproduzido a seguir pertence ao livro “O Anjo de Sal”, de 1951:

LEMBRANÇA
Lembro o pudor da paisagem
e a fanfarra de perfumes
que o claro clarim dos lírios
abria nas madrugadas.
Lembro o susto dos insetos
na castidade das águas,
e as asas do pó fugindo
atrás da luz desnudada.
Lembro a fala dos caminhos
ao longo dos passos cegos,
e os ventos enovelados
na cabeleira das nuvens.
Lembro o bulício da palha
quando pisavas a tarde,
os olhos cheios de folhas
e as mãos repletas de ninhos.
Lembro a noite dos meus olhos
sem luas no seu silêncio,
quando ficavas na sombra
e a sombra ficava estrela.
Lembro a palavra parada
na flor adiada da boca,
e lembro o beijo retido
ao gesto alado de adeuses.
Karina
Abril 22, 2009
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Reproduzimos abaixo mais um belo poema do grande escritor Guilherme de Almeida, extraído do livro Meus Versos Queridos – Editora Ediouro:

Essa que eu hei de amar…
Essa que eu hei de amar perdidamente um dia
será tão loura, e clara, e vagarosa, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer luz e calor a essa alma escura e fria.
E quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração, que vela…
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz… – Tudo isso eu me dizia,
quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente, me dizia adeus, como um sol triste…
E falou-me de longe: “Eu passei a teu lado,
mas ias tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!”
Karina
Março 28, 2009
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Poesias de Guilherme de Almeida são inspiradoras. O romantismo peculiar com que o escritor paulista brinda seus leitores toca fundo a alma e faz nascer a vontade de viver e de amar… Há certos poetas que não morrem nunca. Ficam eternizados em seus escritos inesquecíveis.
Apreciem.
“Por Quê?
Por que acordaste naquela hora morta?
Por que me abriste a porta
e aceitaste o sorriso que eu sorria
e a rosa que eu trazia?
Por que acendeste a lâmpada e a lareira?
Por que estendeste a esteira?
Por que cerraste o reposteiro e os trincos?
Por que tiraste os brincos?
Por que soltaste a tua trena de ouro
e o teu cinto de couro?
Por que fechaste os olhos? Por que abriste
a boca? Por que ouviste
o que eu não disse? Por que não disseste
o que eu ouvi? Por que deste
a mão à minha mão na despedida,
no adeus à minha vida?”
Telma
Fevereiro 13, 2009
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Uma bela poesia de Guilherme de Almeida, sobre o ciúme, já foi colocada no blog. Mas uma só é muito pouco. É preciso ler todas, pois vale a pena. E como vale!
O autor é um ícone da literatura brasileira que merece mais espaço, mais homenagens, mais visibilidade, ainda que póstumos. Sempre com singular sensibilidade, escreveu maravilhas como a que reproduzimos abaixo:
“Minha mãe
(Num “Dia das Mães”)
Senhora das mãos de leite
que me sustinham ao seio
para matar minha sede,
minha fome de viver…
Senhora das mãos de sonho
que, fechando o cortinado,
davam um céu ao meu berço,
povoado de anjos e fadas…
Senhora das mãos de benção
pousando na minha fronte
seu vôo de asa e de incenso…
Senhora das mãos de santa
que rezavam os meus dias
como contas de um rosário…
Senhora das mãos de adeus
que partiram, brancas, frias
e cruzadas sobre o peito
(por que partiram? por quê?)
sem ter fechado meus olhos…”
Telma
Agosto 7, 2008
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Guilherme de Almeida foi um dos maiores expoentes da literatura brasileira, sendo considerado um precursor da escola modernista. Faleceu em 1969, deixando-nos órfãos de sua genialidade. No poema que reproduzimos a seguir, o exímio escritor trata de um tema eternamente em voga: o ciúme. E o faz com um brilhantismo ímpar! Veja por si mesmo:
“Minha melhor lembrança é aquele instante no qual
Pela primeira vez, me entrou pela retina
Tua silhueta, provocante e fina
Como um punhal
Depois, passaste a ser unicamente aquela
Que a gente se habitua a achar apenas bela
E que é quase banal.
E agora que te tenho em minhas mãos e sei
Que os teus nervos se enfeixam todos em meus dedos
E os teus sentidos são cinco brinquedos
Com que brinquei
Agora que não mais me és inédita; agora
Que eu compreendo que, tal como te vira outrora
Nunca mais te verei
Agora que de ti, por muito que me dês
Já não podes dar a impressão que me deste
A primeira impressão, que me fizeste
Louco talvez
Tenho ciúme de quem não te conhece ainda
E cedo ou tarde te verá, pálida e linda
Pela primeira vez.”
Telma