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Poema para o Dia dos Namorados

Dedicaremos os próximos dias aos namorados , postando trechos românticos, poemas e dicas de livros que narram belas estórias de amor.

Comecemos com trecho de “A Falência do Prazer e do Amor”, do mestre Fernando Pessoa:

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“Quando te vi amei-te já muito antes:

Tornei a achar-te quando te encontrei.

Nasci pra ti antes de haver o mundo.

Não há cousa feliz ou hora alegre

Que eu tenha tido pela vida fora,

Que o não fosse porque te previa,

Porque dormias nela tu futuro.

 

E eu soube-o só depois, quando te vi,

E tive para mim melhor sentido,

E o meu passado foi como uma ’strada

Iluminada pela frente, quando

O carro com lanternas vira a curva

Do caminho e já a noite é toda humana.”

Karina

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“Segue o teu destino”, por Ricardo Reis

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A genialidade de Fernando Pessoa o levou à criação dos heterônimos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.

Ricardo Reis é o poeta clássico, que aceita estoicamente a fugacidade da vida que, para ele, deve ser vivida de forma tranquila e equilibrada já que é impossível vencer o implacável destino. É adepto do “carpe diem” de Horácio, pois crê que a vida é feita apenas de momentos. O bucolismo e o paganismo aparecem com frequência em sua poesia.

Abaixo reproduzimos um poema que demonstra bem o estilo de Ricardo Reis:

Segue o teu destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

(Odes de Ricardo Reis, 1-6-1916)

Karina

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Vamos sentir como Alberto Caeiro

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Fernando Pessoa é indispensável; leitura obrigatória. O mais interessante na obra desse português nascido em 1888, é o fenômeno da heteronímia. Como é sabido, o inigualável autor criou três personalidades literárias distintas, cada qual com seu nome próprio, suas características pessoais e seus atributos peculiares, distintos daqueles referentes a ele mesmo, Fernando Pessoa, seu criador.

Assim, ler Fernando Pessoa é ler quatro autores (no mínimo) diferentes ao mesmo tempo, ao gosto do leitor, que pode escolher entre Fernando Pessoa “ele-mesmo”, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.

Utilizando-se do recurso dos heterônimos, a obra de Fernando Pessoa pode ser classificada como multifacetada e completamente original, já que cada um dos “autores” criados escreve à sua maneira e sobre temas diferentes. Coisas de gênio, é claro.

Para hoje, selecionamos um trecho da série de  49 poemas intitulada ”Guardador de Rebanhos”, de Alberto Caeiro, escrita entre 1911 e 1912.

O heterônimo Alberto Caeiro é a criação de Fernando Pessoa que vive em absoluto contato com a natureza e sua filosofia de vida é sentir, sem muito pensar. Sua busca incessante é pela total naturalidade no viver. Procura ver as coisas como elas são, sem tentar atribuir-lhes significados ou razões de ser.

Abaixo, reproduzimos excerto de “Guardador de Rebanhos”.

“Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?

Sei lá o que penso do mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.

 

Que idéia tenho eu das cousas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma

E sobre a criação do Mundo?

 

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos

E não pensar. É correr as cortinas

Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

 

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.

Quem está ao sol e fecha os olhos,

Começa a não saber o que é o sol

E a pensar muitas cousas cheias de calor.

Mas abre os olhos e vê o sol,

E já não pode pensar em nada,

Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do sol não sabe o que faz

E por isso não erra e é comum e boa.

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Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?

A de serem verdes e copadas e de terem ramos

E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,

A nós,  que não sabemos dar por elas.

Mas que melhor metafísica que a delas,

Que é a de não saber para que vivem

Nem saber o que não sabem?” 

Telma

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Fernando Pessoa ele – mesmo encanta todos nós

 Fernando Antonio Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa, em 13 de junho de 1888.

É importante destacar que não ousaremos analisar Fernando Pessoa. Reservamos tal análise para os grandes estudiosos do assunto.

Mas gostamos do que é bom; intuimos o brilhantismo, e não é preciso ser nenhum expert para ler as conhecidíssimas poesias abaixo e curvar-se diante de seu ineditismo, de sua originalidade, de sua inteligência.

Dos escritos de Fernando Pessoa, esse gênio imortal, sempre criando e se reinventando através de seus heterônimos, nos chamam a atenção esses dois poemas. Neles, Fernando Pessoa não se utiliza de nenhum de seus heterônimos. Trata-se de poesias assinadas por Fernando Pessoa “ele -mesmo”, as quais, de forma reflexiva, nos mostram o papel da própria arte poética e do artista em si. Pra ler ajoelhado:

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O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.

Isto

Dizem que eu finjo ou minto

Tudo o que escrevo. Não.

Eu simplesmente sinto

Com a imaginação.

Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,

O que me falha ou finda,

É como que um terraço

Sobre outra coisa ainda.

Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio

Do que não está ao pé,

Livre do meu enleio,

Sério do que não é.

Sentir? Sinta quem lê!

Telma

 
                                   

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