Chico Buarque dispensa comentários. Ele é uma espécie de Midas, tudo em que põe a mão vira ouro, seja no teatro, na música ou na literatura.
E como letra de música não deixa de ser literatura, resolvemos postar aqui a bela composição “Noite dos Mascarados”, escrita em 1966, em momento inspiradíssimo do maravilhoso Chico.
Chico Buarque é mesmo um gênio e isso é indiscutível. Cada vez que ouvimos ou lemos algo desta grande compositor e escritor, ficamos maravilhadas e percebemos que realmente não há limites para a criatividade e a inteligência.
Na canção “Ciranda da Bailarina”, composta em parceria com o também grandioso Edu Lobo, Chico Buarque apenas confirma seu brilhantismo incomum.
Abaixo, transcrevemos a letra da bela composição e o link para escutá-la na belíssima voz de Adriana Calcanhoto.
Para deleite de leitores adultos e mirins.
CIRANDA DA BAILARINA
Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Berruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem
Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida
Ela não tem
Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina
Ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem
Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem
O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem, todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem
Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem
Uma das letras de Chico Buarque que mais nos encanta, dentre tantas especiais, é João e Maria, a qual, embora haja controvérsias, foi escrita em 1977. Talvez pela pureza de seus dizeres, pela doçura da estória contada, ou quem sabe pela aura de faz-de-conta que ela passa é que a música João e Maria emociona tanto. De qualquer forma, a letra é espetacular e não nos cansamos de ouvir a melodia.
Segue a letra da maravilhosa música, para deleite dos fãs do grande Chico.
Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três.
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock para as matinês.
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigada a ser feliz.
E você era a princesa
Que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país.
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido.
Sim, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade
Acho que a gente nem tinha nascido.
Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim.
Pois você sumiu no mundo
Sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim.
Não vamos nós ficar aqui fazendo comentários a respeito da vasta obra de Chico Buarque; não temos gabarito para fazer tal avaliação. Ele é um gênio, isso é fato, seja escrevendo, compondo canções ou em qualquer atividade. Tudo em que ele põe as mãos vira ouro.
Nossa proposta aqui é simplesmente trazer para o blog a letra da música Construção, composta em 1971. Acreditamos que seja a composição mais inteligente que Chico Buarque criou, talvez a maior do Brasil. Não nos cansamos de lê-la ou ouví-la e, sempre que fazemos isso, nos surpreendemos novamente com o brilhantismo da letra.
No conteúdo, Chico fala de um pobre homem que morre numa construção de obra civil, mas a letra da música é que é uma verdadeira construção de inteligência por meio da brincadeira (séria) que ele faz com as palavras. Confiram: