Posts tagged cecília meireles

Figurinhas

A maravilhosa Cecília Meireles encantou a todos: adultos e crianças. O enfoque é completamente diferente, mas quem tinha uma inteligência ímpar como essa escritora consegue atingir o público leitor que bem entender.

Abaixo, reproduzimos mais um excelente poema infantil de Cecília Meireles, da série “Ou Isto Ou Aquilo”, dedicada às crianças:

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Figurinhas

II


Onde está meu quintal

amarelo e encarnado,

com meninos brincando

de chicote-queimado,

com cigarra nos troncos

e formigas no chão,

e muitas conchas brancas

dentro da minha mão?


E Júlia e Maria

e Amélia onde estão?


Onde está meu anel

e o banquinho quadrado

e o sabiá na mangueira

e o gato no telhado?


– e a moringa de barro,

e o cheiro do alvo pão?

E tua voz, Pedrina,

sobre o meu coração?

Em que altos balanços

se balançarão?…

Telma

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“Se te Abaixasses, Montanha”, por Cecília Meireles

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Se te Abaixasses, Montanha


Se te abaixasses, montanha,

poderia ver a mão

daquele que não me fala

e a quem meus suspiros vão.


Se te abaixasses, montanha,

poderia ver a face

daquele que se soubesse

deste amor talvez chorasse.


Se te abaixasses, montanha,

poderia descansar.

Mas não te abaixes, que eu quero

lembrar, sofrer, esperar.

Karina

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Da Solidão

Reproduzimos hoje esta bela crônica da escritora Cecília Meireles, a qual sugere que olhemos mais ao nosso redor, que prestemos mais atenção na essência das coisas e também que nos voltemos para dentro de nós mesmos. Certamente desse modo, jamais estaremos sós.

Da Solidão

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Há muitas pessoas que sofrem do mal da solidão. Basta que em redor delas se arme o silêncio, que não se manifeste aos seus olhos nenhuma presença humana, para que delas se apodere imensa angústia: como se o peso do céu desabasse sobre sua cabeça, como se dos horizontes se levantasse o anúncio do fim do mundo.

No entanto, haverá na terra verdadeira solidão? Não estamos todos cercados por inúmeros objetos, por infinitas formas da Natureza e o nosso mundo particular não está cheio de lembranças, de sonhos, de raciocínios, de idéias, que impedem uma total solidão?

Tudo é vivo e tudo fala, em redor de nós, embora com vida e voz que não são humanas, mas que podemos aprender a escutar, por muitas vezes essa linguagem secreta ajuda a esclarecer o nosso próprio mistério. Como aquele sultão Mamude, que entendia a fala dos pássaros, podemos aplicar toda a nossa sensibilidade a esse aparente vazio de solidão: e pouco a pouco nos sentiremos enriquecidos.

Pintores e fotógrafos andam em volta dos objetos à procura de ângulos, jogos de luz, eloqüência de formas, para revelarem aquilo que lhe parece não só o mais estático dos seus aspectos, mas também o mais comunicável, o mais rico de sugestões, o mais capaz de transmitir aquilo que excede os limites físicos desses objetos, constituindo, de certo modo, seu espírito e sua alma.

Façamo-nos também desse modo videntes: olhemos devagar para a cor das paredes, o desenho das cadeiras, a transparência das vidraças, os dóceis panos tecidos sem maiores pretensões. Não procuremos neles a beleza que arrebata logo o olhar, o equilíbrio das linhas, a graça das proporções: muitas vezes seu aspecto – como o das criaturas humanas – é inábil e desajeitado. Mas não é isso que procuramos, apenas: é o seu sentido íntimo que tentamos discernir. Amemos nessas humildes coisas a carga de experiências que representam, e a repercussão, nelas sensível, de tanto trabalho humano, por infindáveis séculos.

Amemos o que sentimos de nós mesmos, nessas variadas coisas, já que, por egoístas que somos, não sabemos amar senão aquilo em que nos encontramos. Amemos o antigo encantamento dos nossos olhos infantis, quando começavam a descobrir o mundo: as nervuras das madeiras, com seus caminhos de bosques e ondas e horizontes; o desenho dos azulejos; o esmalte das louças; os tranqüilos, metódicos telhados… Amemos o rumor da água que corre, os sons das máquinas, a inquieta voz dos animais, que desejaríamos traduzir.

Tudo palpita em redor de nós, e é como um dever de amor aplicarmos o ouvido, a vista, o coração a essa infinidade de formas naturais ou artificiais que encerram seu segredo, suas memórias, suas silenciosas experiências. A rosa que se despede de si mesma, o espelho onde pousa o nosso rosto, a fronha por onde se desenham os sonhos de quem dorme, tudo, tudo é um mundo com passado, presente, futuro, pelo qual transitamos atentos ou distraídos. Mundo delicado, que não se impõe com violência: que aceita a nossa frivolidade ou o nosso respeito; que espera que o descubramos, sem se anunciar nem pretender prevalecer; que pode ficar para sempre ignorado, sem que por isto deixe de existir; que não faz da sua presença um anúncio exigente. “Estou aqui, estou aqui!” Mas, concentrado em sua essência, só se revela quando os nossos sentidos estão aptos para o descobrirem. E que em silêncio nos oferece sua múltipla companhia, generosa e invisível.

Oh! se vos queixais de solidão humana, prestai atenção, em redor de vós, a essa prestigiosa presença, a essa copiosa linguagem que de tudo transborda, e que conversará convosco interminavelmente.

(Cecília Meireles in Janela Mágica – Editora Moderna)

Karina

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Canção Excêntrica

Hoje presenteamos o leitor com uma belíssima poesia da magistral Cecília Meireles, do conjunto de poemas “Vaga Música”, escrito em 1942. Extremamente racional frente aos temas mais filosóficos da vida, a autora também se apresenta com uma fragilidade pungente. Maravilhoso!

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CANÇÃO EXCÊNTRICA

Ando à procura de espaço

para o desenho da vida.

Em números me embaraço

e perco sempre a medida.

Se penso encontrar saída,

em vez de abrir um compasso,

protejo-me num abraço

e gero uma despedida.


Se volto sobre meu passo,

é já distância perdida.


Meu coração, coisa de aço,

começa a achar um cansaço

esta procura de espaço

para o desenho da vida.

Já por exausta e descrida

não me animo a um breve traço:

– saudosa do que não fço

– do que faço, arrependida.

Telma

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Literatura Infantil

Oferecemos o post de hoje principalmente aos leitores mirins. Trazemos dois poemas infantis, um da consagrada Cecília Meireles e o outro do escritor e poeta paulista José Paulo Paes (1926-1998), que dedicou grande parte de sua carreira a escrever para crianças e  – diga-se – com muita criatividade e sutileza.

Certamente, se apresentadas desde cedo à obra desses poetas, as crianças irão carregar consigo o hábito de gostar de ler.

Confiram:


RARIDADE

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A arara

é uma ave rara

pois o homem não pára

de ir ao mato caçá-la

para a pôr na sala

em cima de um poleiro

onde ela fica o dia inteiro

fazendo escarcéu

porque já não pode

voar pelo céu.


E se o homem não pára

de caçar arara,

hoje uma ave rara,

ou a arara some

ou então muda seu nome

para arrara.

(José Paulo Paes)

A BAILARINA

ballerina

Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.


Não conhece nem dó nem ré

mas sabe ficar na ponta do pé.


Não conhece nem mi nem fá

mas inclina o corpo para cá e para lá.


Não conhece nem lá nem si,

mas fecha os olhos e sorri.


Roda, roda, roda com os bracinhos no ar

e não fica tonta nem sai do lugar.


Põe no cabelo uma estrela e um véu

e diz que caiu do céu.


Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.


Mas depois esquece todas as danças,

e também quer dormir como as outras crianças.

Karina

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Cântico IV, por Cecília Meireles

O poema trazido hoje nos mostra a incontestável sabedoria de Cecília Meireles que, com suavidade e profundidade, nos ensina sobre a vida.

Em “Cântico IV”, Cecília nos revela que a eternidade se sobrepõe ao efêmero.

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Cântico IV

“Tu tens um medo:

Acabar.

Não vês que acabas todo dia.

Que morres no amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que te renovas todo dia.

No amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que és sempre outro.

Que és sempre o mesmo.

Que morrerás por idades imensas.

Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.”

(poema pertencente ao livro Cânticos, de 1927)

Karina

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Atendendo a pedidos: mais poesia para crianças

As Flores

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Deus ao mundo deu a guerra,
A doença, a morte, as dores;
mas, para alegrar a terra,
Basta haver-lhe dado as flores.
Umas, criadas com arte,
Outras, simples e modestas,
Há flores por toda a parte
Nos enterros e nas festas,
Nos jardins, nos cemitérios,
Nos paúes e nos pomares;
Sobre os jazigos funéreos,
Sobre os berços e os altares,
Reina a flor! pois quis a sorte
Que a flor a tudo presida,
E também enfeite a morte,
Assim como enfeita a vida.
Amai as flores, crianças!
Sois irmãs nos esplendores,
Porque há muitas semelhanças
Entre as crianças e as flores…

(Olavo Bilac)

—x—

Sonhos da Menina

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A flor com que a menina sonha
está no sonho?
ou na fronha?

Sonho
risonho:

O vento sozinho
no seu carrinho.

De que tamanho
seria o rebanho?

A vizinha
apanha
a sombrinha
de teia de aranha  . . .

Na lua há um ninho
de passarinho.

A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha?

(Cecília Meireles)

Karina

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Canção do Amor-Perfeito, Cecília Meireles

“Canção do Amor-Perfeito

O tempo seca a beleza.
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

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O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.”

 O belo poema acima, que analisa o poder destruidor do Tempo, que tudo elimina, pertence ao livro “Retrato Natural” (de 1949).

Karina

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Poesia para criança II

Dentre os posts mais acessados em nosso blog, estão os relativos à literatura infantil. Tal fato muito nos alegra, pois, para nós, o interesse pela leitura deve começar logo na infância. Crianças que leem desde cedo desenvolvem a imaginação, expressam melhor suas ideias e adquirem mais firmemente o hábito de ler por prazer e não por obrigação.

Assim, procuraremos sempre dedicar um espaço para a literatura infantil neste blog.

Hoje, mais Cecília Meireles para crianças. Divirtam-se:

“Leilão de Jardim

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Quem me compra um jardim
com flores?

borboletas de muitas
cores,

lavadeiras e pas-
sarinhos,

ovos verdes e azuis
nos ninhos?

Quem me compra este ca-
racol?

Quem me compra um raio
de sol?

Um lagarto entre o muro
e a hera,

uma estátua da Pri-
mavera?

Quem me compra este for-
migueiro?

E este sapo, que é jar-
dineiro?

E a cigarra e a sua
canção?

E o grilinho dentro
do chão?

(Este é meu leilão!)”

—//—

“Colar de Carolina

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Com seu colar de coral,
Carolina
corre por entre as colunas
da colina.

O colar de Carolina
colore o colo de cal,
torna corada a menina.

E o sol, vendo aquela cor
do colar de Carolina,
põe coroas de coral

nas colunas da colina”.

—//—

“O Mosquito Escreve

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O mosquito pernilongo
trança as pernas, faz um M,
depois, treme, treme, treme,
faz um O bastante oblongo,
faz um S.

O mosquito sobe e desce.
Com artes que ninguém vê,
faz um Q,
faz um U, e faz um I.

Este mosquito
esquisito
cruza as patas, faz um T.
E aí,
se arredonda e faz outro O,
mais bonito.

Oh!
Já não é analfabeto,
esse inseto,
pois sabe escrever seu nome.

Mas depois vai procurar
alguém que possa picar,
pois escrever cansa,
não é, criança?

E ele está com muita fome”.

 

Karina
 

 

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4° Motivo da Rosa, por Cecília Meireles

4º Motivo da Rosa:

roses

 

“Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.”

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O poema reproduzido acima integra o livro Mar Absoluto de Cecília Meireles e é um dos meus preferidos.

Os versos falam, de forma belíssima, da fugacidade e ao mesmo tempo da eternidade da vida: a morte da rosa é passageira, pois suas pétalas desfolhadas continuarão a espalhar seu aroma e ela será eterna…

Karina

 

 

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