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Poema de Aniversário, de Vinícius de Moraes

Mais um lindo texto retirado da coletânea “Para viver um grande amor”.

Porque fizeste anos, Bem-Amada, e a asa do tempo roçou teus cabelos negros, e teus grandes olhos calmos miraram por um momento o inescrutável Norte…

Eu quisera dar-te, ademais dos beijos e das rosas, tudo o que nunca foi dado por um homem à sua Amada, eu que tão pouco te posso ofertar. Quisera dar-te, por exemplo, o instante em que nasci, marcado pela fatalidade de tua vinda. Verias, então, em mim, na transparência do meu peito, a sombra de tua forma anterior a ti mesma.

Quisera dar-te também o mar onde nadei menino, o tranquilo mar de ilha em que me perdia e em que mergulhava, e de onde trazia a forma elementar de tudo o que existe no espaço acima – estrelas mortas, meteoritos submersos, o plancto das galáxias, a placenta do Infinito.

E mais, quisera dar-te as minhas loucas carreiras à toa, por certo em premonitória busca de teus braços, e a vontade de grimpar tudo de alto, e transpor tudo de proibido, e os elásticos saltos dançarinos para alcançar folhas, aves, estrelas – e a ti mesma, luminosa Lucina, e derramar claridade em mim menino.

Ah, pudesse eu dar-te o meu primeiro medo e a minha primeira coragem; o meu primeiro medo à treva e a minha primeira coragem de enfrentá-la, e o primeiro arrepio sentido ao ser tocado de leve pela mão invisível da Morte.

E o que não daria eu para ofertar-te o instante em que, jazente e sozinho no mundo, enquanto soava em prece o cantochão da noite, vi tua forma emergir do meu flanco, e se esforçar, imensa ondina arquejante, para se desprender de mim; e eu te pari gritando, em meio a temporais desencadeados, roto e imundo do pó da terra.

Gostaria de dar-te, Namorada, aquela madrugada em que, pela primeira vez, as brancas moléculas do papel diante de mim dilataram-se ante o mistério da poesia subitamente incorporada; e dá-la com tudo o que nela havia de silencioso e inefável – o pasmo das estrelas, o mudo assombro das casas, o murmúrio místico das árvores a se tocarem sob a Lua.

E também o instante anterior à tua vinda, quando, esperando-te chegar, relembrei-te adolescente naquela mesma cidade em que te reencontrava anos depois; e a certeza que tive, ao te olhar, da fatalidade insigne do nosso encontro, e de que eu estava, de um só golpe, perdido e salvo.

Quisera dar-te, sobretudo, Amada minha, o instante da minha morte; e que ele fosse também o instante da tua morte, de modo que nós, por tanto tempo em vida separados, vivêssemos em nosso decesso uma só eternidade; e que nossos corpos fossem embalsamados e sepultados juntos e acima da terra; e que todos aqueles que ainda se vão amar pudessem ir mirar-nos em nosso último leito; e que sobre nossa lápide comum jazesse a estátua de um homem parindo uma mulher do seu flanco; e que nela houvesse apenas, como epitáfio, estes versos finais de uma cançâo que te dediquei:

“… dorme, que assim

dormirás um dia

na minha poesia

de um sono sem fim…”

 

Karina

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O Amor Por Entre O Verde

Há uma semana, ou pouco mais, postamos a crônica de Vinicius de Moraes – Para Viver um grande Amor,  a qual foi muito acessada no blog.  O autor do blog “O Grifo é Meu” (ótimo, por sinal), ao comentar aquela crônica, indicou outra, também pertencente à coletânea de prosa Para Viver um grande Amor. A crônica indicada é justamente a que postaremos hoje.

“O amor por entre o verde” é mais um texto que fala de amor, tema esmiuçado por Vinicius de forma encantadora e brilhante:

O AMOR POR ENTRE O VERDE

romance

Não é sem frequência que, à tarde, chegando à janela, eu vejo um casalzinho de brotos que vem namorar sobre a pequenina ponte de balaustrada branca que há no parque. Ela é uma menina de uns treze anos, o corpo elástico metido num blue jeans e um suéter folgadão, os cabelos puxados para trás num rabinho-de- cavalo que está sempre a balançar para todos os lados; ele, um garoto de, no máximo, dezesseis, esguio, com pastas de cabelo a lhe tombar sobre a testa e um ar de quem descobriu a fórmula da vida.

Uma coisa eu lhes asseguro: eles são lindos e ficam montados um em frente ao outro, no corrimão da colunata, os joelhos a se tocarem, os rostos a se buscarem a todo momento para pequenos segredos, pequenos carinhos, pequenos beijos. São, na sua extrema juventude, a coisa mais antiga que há no parque, incluindo velhas árvores que por ali espapaçam sua verde sombra; e as momices e brincadeiras que se fazem daria para escrever todo um tratado sobre a arqueologia do amor, pois têm uma tal ancestralidade que nunca se há de saber a quantos milênios remontam.

Eu os observo por um minuto apenas para não perturbar-lhes os jogos de mão e misteriosos brinquedos mímicos com que se entretêm, pois suspeito de que sabem de tudo o que se passa à sua volta. Às vezes, para descansar da posição, encaixam-se os pescoços e repousam os rostos um sobre o ombro do outro, como dois cavalinhos carinhosos, e eu vejo então os olhos da menina percorrerem vagarosamente as coisas em torno, numa aceitação dos homens, das coisas e da natureza, enquanto os do rapaz mantêm-se fixos, como a prescrutar desígnios. Depois voltam à posição inicial e se olham nos olhos, e ela afasta com a mão os cabelos de sobre a fronte do namorado, para vê-lo melhor e sente-se que eles se amam e dão suspiros de cortar o coração. De repente o menino parte para uma brutalidade qualquer, torce-lhe o pulso até ela dizer-lhe o que ele quer ouvir, e ela agarra-o pelos cabelos, e termina tudo, quando nao há passantes, num longo e meticuloso beijo.

- Que será – pergunto-me eu em vão – dessas duas crianças que tão cedo começam a praticar os ritos do amor? Prosseguirão se amando, ou de súbito, na sua jovem incontinência, procurarão o contato de outras bocas, de outras mãos, de outros ombros? Quem sabe se amanhã quando eu chegar à janela, não verei um rapazinho moreno em lugar do louro ou uma menina com a cabeleira solta em lugar dessa com cabelos presos?

– E se prosseguirem se amando – pergunto-me novamente em vão – será que um dia se casarão e serão felizes? Quando, satisfeita a sua jovem sexualidade, se olharem nos olhos, será que correrão um para o outro e se darão um grande abraço de ternura? Ou será que se desviarão o olhar, para pensar cada um consigo mesmo que ele não era exatamente aquilo que ela pensava e ela era menos bonita ou inteligente do que ele a tinha imaginado?

É um tal milagre encontrar, nesse infinito labirinto de desenganos amorosos, o ser verdadeiramente amado… Esqueço o casalzinho no parque para perder-me por um momento na observação triste, mas fria, desse estranho baile de desencontros, em que frequentemente aquela que deveria ser daquele acaba por bailar com outro porque o esperado nunca chega; e este, no entanto, passou por ela sem que ela o soubesse, suas mãos sem querer se tocaram, eles olharam-se nos olhos por um instante e nâo se reconheceram.

E é então que esqueço tudo e vou olhar nos olhos de minha bem-amada como se nunca a tivesse visto antes. É ela, Deus do céu, é ela! Como a encontrei, não sei. Como chegou até aqui, não vi. Mas é ela, eu sei que é ela porque há um rastro de luz quando ela passa; e quando ela me abre os braços eu me crucifico neles banhado em lágrimas de ternura; e sei que mataria friamente quem quer que lhe causasse dano; e gostaríamos que morrêssemos juntos e fôssemos enterrados de mãos dadas, e nossos olhos indecomponíveis ficassem para sempre abertos, mirando muito além das estrelas.

Karina

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Chuva de Amor

O fragmento reproduzido abaixo foi escrito pelo gaúcho de Santiago (RS), Caio Fernando Abreu, que, com seu estilo original, encantou e continua encantando os seus leitores.

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“Tenho um amor fresco e com gosto de chuva

e raios e urgências.

Tenho um amor que me veio pronto,

assim, água que caiu de repente, nuvem

que não passa.

Me escorrem desejos pelo

rosto, pelo corpo.

Um amor susto.

Um amor raio trovão fazendo barulho.

Me bagunça e chove em mim todos os dias.”

Karina

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Soneto para oferecer ao seu amor

Depois de amanhã já é o dia dos namorados. Os amantes-amados costumam dar vários tipos de presentes, como roupas, perfumes, flores e bombons. Mas, como não podia ser diferente, acreditamos que o presente mais especial é um belo poema! Se você tiver o dom, escreva por si mesmo; deixe seu coração falar mais alto. Porém, se achar que escrever poesias amorosas não é muito o seu forte, não faltam opções para te socorrer. Seu amor com certeza vai adorar um cartão com um poema apaixonante!

Abaixo segue um belo presente: um dos inúmeros sonetos de amor do inspiradíssimo Pablo Neruda.

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“Não te quero senão porque te quero

e de querer-te a não querer-te chego

e de esperar-te quando não te espero

passa meu coração do frio ao fogo.


Te quero só porque a ti te quero

te odeio sem fim, e odiando-te rogo-te

e a medida de meu amor viageiro

é não ver-te e amar-te como um cego.


Talvez consumirá a luz de janeiro

seu raio cruel, meu coração inteiro,

roubando-me a chave do sossego.


Nesta história só eu morro

e morrerei de amor porque te quero

porque te quero, amor a sangue e fogo.”

Telma

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Lirismo de Pablo Neruda

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Em posts anteriores revelamos nossa intensa admiração pelo consagradíssimo escritor Pablo Neruda, não só no que se refere à sua veia política, como também aos maravilhosos sonetos de amor publicados pelo autor.
Hoje, adicionamos mais um belo poema romântico de Neruda para degustação do assíduo leitor.

Já és minha. Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobre suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como o âmbar dormido.

Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma viajará pela sombra comigo,
só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.

Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo
teus olhos se fecharam como duas asas cinzas,

enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho.

Telma

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Uma Ode ao Amor

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Carlos Drummond de Andrade é magnífico. Isso é um fato indiscutível. Trata-se de um ícone imortal de nossa literatura que sabe tratar de qualquer assunto com maestria. E como não poderia deixar de ser, cantou o amor e sua importância na vida humana com singular competência.  

A poesia abaixo não se refere apenas ao amor romântico, mas também ao amor pela vida, pela humanidade, ao amor solidário, ao amor fraterno, enfim, ao amor em geral,  esse sentimento que faz a vida valer a pena.

Confiram:

 

ALÉM DA TERRA, ALÉM DO CÉU

Além da Terra, além do Céu

no trampolim do sem-fim das estrelas,

no rastro dos astros,

na magnólia das nebulosas.

Além, muito além do sistema solar,

até onde alcançam o pensamento e o coração,

vamos!

Vamos conjugar

o verbo fundamental essencial,

o verbo transcendente, acima das gramáticas

e do medo e da moeda e da política,

o verbo sempreamar,

o verbo pluriamar, razão de ser e de viver.”

 

Telma

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Shakespeare apaixonado

Abaixo um dos famosos sonetos de William Shakespeare, extraído do livro 42 Sonetos , com tradução de Ivo Barroso e editora Nova Fronteira.

No soneto que trazemos hoje, o grande poeta inglês fala da efemeridade da beleza de sua musa que, no entanto, se perpetua através do poema a ela dedicado.

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“Soneto XVIII

Devo igualar-te a um dia de verão?
Mais afável e belo é o teu semblante:
O vento esfolha Maio inda em botão,
Dura o termo estival um breve instante.
Muitas vezes a luz do céu calcina,
Mas o áureo tom também perde a clareza:
De seu belo a beleza enfim declina,
Ao léu ou pelas leis da Natureza.
Só teu verão eterno não se acaba
Nem a posse de tua formosura;
De impor-te a sombra a Morte não se gaba
Pois que esta estrofe eterna ao Tempo dura.
Enquanto houver viventes nesta lida,
Há-de viver meu verso e te dar vida”.

 Karina

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Os apaixonados

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Estranho, sim. As pessoas ficam desconfiadas, ambíguas diante dos apaixonados. Aproximam-se deles, dizem coisas amáveis, mas guardam certa distância, não invadem o casulo imantado que envolve os amantes e que pode explodir como um terreno minado, muita cautela ao pisar nesse terreno. Com sua disciplina indisciplinada, os amantes são seres diferentes e o ser diferente é excluído porque vira desafio, ameaça. Se o amor na sua doação absoluta os faz mais frágeis, ao mesmo tempo os protege como uma armadura. Os apaixonados voltaram ao Jardim do Paraíso, provaram da Árvore do Conhecimento e agora sabem.”

O belíssimo trecho acima abre o livro de fragmentos ”A disciplina do amor”, de Lygia Fagundes Telles.

Karina

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2009 cheio de amor!

Nós, aqui do blog, desejamos que todos os leitores iniciem 2009 cercados de bons sentimentos. Principalmente muito amor, amor intenso e verdadeiro, forte e inesgotável.

Por isso, hoje decidimos presentear vocês com mais um belo soneto de Pablo Neruda, um mestre ao falar de amor.

Aproveitem!

Porque é o amor que colore a vida!

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“Se não fosse porque têm cor-de-lua teus olhos,

de dia com argila, com trabalho, com fogo,

e aprisionada tens a agilidade do ar,

se não fosse porque uma semana és de âmbar.

 

se não fosse porque és o momento amarelo

em que o outono sobe pelas trepadeiras

e és ainda o pão que a lua fragrante

elabora passeando sua farinha pelo céu,

 

oh, bem-amada, eu não te amaria!

Em teu abraço eu abraço o que existe,

a areia, o tempo, a árvore da chuva.

 

e tudo vive para que eu viva:

sem ir tão longe posso ver tudo:

vejo em tua vida todo o vivente”.

Telma

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Inspire-se com Pablo Neruda

  Que o poeta chileno Pablo Neruda, merecidíssimo ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1971, foi um dos maiores nomes da literatura mundial é algo indiscutível. Ele foi um poeta ímpar, à frente de seu tempo.

A morte de Pablo em 1973 deixou uma lacuna no mundo literário que jamais será preenchida. Sorte que o indescritível poeta nos legou um sem-número de escritos e poesias, para consolar-nos da falta que ele faz.

Além dos escritos de cunho político e social e poesias engajadas na causa da liberdade, suas poesias românticas  também são muito famosas, sendo certo que a musa inspiradora do gênio era sua amada Matilde.

Abaixo, transcrevemos um desses sonetos românticos de autoria de Neruda, cujo romantismo e originalidade encantam qualquer apaixonado. Soneto incomparável:

Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio

ou flecha de cravos que propagam o fogo:

te amo como se amam certas coisas obscuras,

secretamente, entre a sombra e a alma.

 

Te amo como a planta que não floresce e leva

dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,

e graças a teu amor vive escuro em meu corpo

o apertado aroma que ascendeu da terra.

 

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,

te amo diretamente sem problemas nem orgulho:

assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

 

senão assim deste modo em que não sou nem és

tão perto que tua mão sobre meu peito é minha

tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho“.

 

Telma

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