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Frase da Semana

 

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“Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,

Mas um dia afinal eu toparei comigo…” (Mario de Andrade)

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Pensamentos de Lygia Fagundes Telles

Mais um fragmento extraído do livro A Disciplina do Amor, onde  Lygia Fagundes Telles descreve com humor, ironia e inteligência sentimentos que qualquer ser humano já experimentou.

Satanificação

appleA Ira, a Soberba, a Inveja, a Luxúria, a Avareza, a Gula e, finalmente, a Preguiça, o sonolento Demônio do Meio-Dia – esses os sete pecados capitais que  já podem ser identificados na satanificação, isso de acordo com local e hora. Os diabinhos da Ira estão no trânsito, olhos injetados de fumaça e ódio, a boca espumejando no ranger de dentes e freios: seis horas da tarde, Hora da Ave-Maria, lembra? Tinha um quadro que em várias salas de visita da minha infância: no doce colorido do crepúsculo, um grupo de camponeses bem vestidos e  rosados, as mulheres de longos aventais e toucas, os homens de sapatões rudes mas sólidos, as mãos limpas, os olhos baixos no fervor da prece por entre os montes de feno dourado, Ave-Maria – acho que esse era o nome do quadro. Lembro que tinha um bebezinho louro no cesto ou berço de madeira, queria eu ser aquele bebezinho, pensei na tarde em que vi um tipo descer do carro (ao lado do meu) e verde e aumentando em cólera apontar o revólver para um velho que teria propositadamente amassado o seu pára-lama. Hora de vítimas de desastres e da fuzilaria, as armas esperando no porta-luvas, que luvas? Hora de vítimas dos assaltos, quando o carro para no sinal vermelho e um outro vermelho se acende no peito. Na nuca. Tinha um antigo programa no rádio nessas hora crepuscular, as músicas tão espirituais, minha mãe chamava a gente para rezar junto, só pensamentos elevados enquanto o chefe de família – mas que família? Que chefe?

Os possessos da Soberba evitam as aglomerações, as misturas. Portas fechadas, o horror da invasão. Gostam de reuniões sociais seletas mas espaçosas, onde os peitos estufados, cobertos de medalhas, iniciam a lenta dança dos pavões – poder político, poder econômico e outros poderes, varetas dos leques que se cruzam mas não se olham, o que digo? se olham para admirar a própria imagem refletida no olho do outro. Já os possessos da Inveja têm especial predileção pelos palácios burocráticos e centros de artistas do baile das quatro artes, ô Deus! como sofrem os invejosos na luta competitiva à qual são condenados, os olhos cozidos como os olhos da lagostas em água fervente, sou Caim matando meu irmão? Sou Judas traindo o meu Mestre? O invejoso só tem trégua com a infelicidade do próximo mas por que no lugar desse próximo aniquilado nascem dez, vinte vencedores?! Um sofrimento. De todos os pecadores, talvez o invejoso seja o que mais sofre embora os possessos da Luxúria também rodopiem sem descanso, as injúrias (era assim que minha pajem chamava às partes baixas) açuladas e trespassadas pelos garfos dos diabinhos luxuriosos, a voz pesada, o olhar pesado – tantas ruas do prazer e do desprazer da insatisfação. Os estímulos da indústria do sexo no auge do aperfeiçoamento para o desempenho à altura e ainda a ansiedade, o desassosego na busca que é só obsessão, sou caçador? Ou caça? Mas essa gente não pensa noutra coisa? – perguntaria tia Pombinha diante de uma banca de revistas e jornais. Pensa, sim. Pensa muito em guardar e agora as caras e casas tomam um ar respeitável, estamos entrando na rua dos bancos e dos negócios: eis a Avareza com seus demoninhos de olho vivo, umedecendo a ponta do dedo entortado de tanto contar dinheiro, medo de dar, medo de dividir. O medo dos medos: medo de perder, ih! como acumular tudo numa vida assim provisória? “Mas por que o desperdício dessa vela acesa?” – reclamou o avarento que preferiu morrer no escuro. Quanto aos possessos da Gula e da Preguiça, esses se espalharam tão intensamente: os da Gula nos bairros ricos de preferência, não por virtude dos  pobres mas por simples insuficiência econômica. Se a beleza (que os luxuriosos amam) virou artigo de luxo, a comida só pode ser um belo vício nos bairros de classe A. É por acaso que falo nos dois pecados assim juntos porque o preguiçoso nunca é um guloso. A gula exige empenho, imaginação do apetite. Mastigar cansa e esse dispêncio de energia o preguiçoso evita, prefere papinhas, líquidos. Quando o guloso chega à saciedade e não está saciado (nunca está) mete o dedo na garganta, quer recomeçar tudo. Mas eis uma violência que o preguiçoso detesta: o ato de vomitar. Ou antes, que não aprecia porque ele não odeia nem ama, a paixão é laboriosa, exige fervor e o preguiçoso nunca esquenta. Não se define nem define: contorna. Na imobilidade se defende dos prazeres da cama e da mesa. No alheamento que chama de privacidade,  se guarda. Música suave, que não seja solicitante. Pessoas que não façam perguntas, ele nem sequer termina as frases, os gestos. A graça das coisas incompletas no ar… Vem a mosca obumbrada, pousa na sua face e ele afasta a mosca com um movimento brando mas quando ela volta uma segunda vez ele deixa ficar deixa ficar deixa ficar.

Karina

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Frase da Semana

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“Se podes olhar, vê.  Se podes ver, repara.”

(José Saramago, do livro Ensaio sobre a Cegueira)

Karina

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Dia Nacional do Livro

Hoje é o Dia Nacional do Livro. Para nós, do Literatura em Conta-Gotas embora todo dia seja dia do livro e da leitura, prestaremos uma pequena homenagem a esse objeto de valor inestimável, com um texto de Montaigne:

books000 (ilustração by Quentin Blake)

“(…) A companhia dos livros é a mais segura. Não se compara às outras (de homens e de mulheres), mas apresenta a vantagem de estar sempre ao nosso alcance.

O convívio com o livro sempre me ajudou, em todas as circunstâncias; consola-me na velhice e na solidão. suaviza uma ociosidade que poderia ser aborrecida e livra-me das pessoas inoportunas; amortece, enfim, os latejos da dor quando não é demasiado aguda e é mais forte do que qualquer paliativo. Para afastar uma idéia desagradável, nada como recorrer aos livros; apossam-se de mim e fazem-me esquecê-la. Jamais se ressentem por só os procurarmos na falta de prazeres mais reais, mais vivos e naturais, que outorga a companhia dos homens e das mulheres; e sempre mostram a mesma expressão.

(…) Nunca viajo sem livros, haja paz ou haja guerra. Entretanto, passam dias e meses sem que os abra. Eu o farei daqui a pouco, digo, ou amanhã, ou quando assim decidir; e o tempo passa sem que me pese. Não posso dizer quanto me descansa o pensamento tê-los à mão. nem quanto me têm sido úteis na vida. Constituem a melhor provisão que pude obter para essa viagem que é a vida e tenho realmennte pena das pessoas inteligentes que não os possuem. E por saber que esse passatempo não me pode faltar, aceito com prazer qualquer outro.”

Michel de Montaigne, in Na companhia dos homens, das mulheres e dos livros

Michel Eyquem nasceu  em 1533, no Castelo de Montaigne, de propriedade de seu pai, na Dordonha – França. Adotou o nome da propriedade, depois da morte de seu pai.

Estudou direito e foi prefeito em Bordaux. Mas foram os seus Ensaios, publicados entre 1580 e 1588, que lhe trouxeram fama. Montaigne foi um grande pensador de sua época e e seus Ensaios, que analisam o homem em geral, são atuais e repletos de sabedoria.

Karina

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O Desaparecido, por Rubem Braga

O Desaparecido

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Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.

Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.

Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.

Rubem Braga nasceu em 12 de janeiro de 1913 no município de Cachoeiro de Itapemirim, localizado no interior do Espírito Santo. Exerceu a profissão de jornalista e trabalhou como correspondente para vários jornais do país.

Considerado um dos maiores cronistas brasileiros, Rubem Braga apostava na simplicidade da linguagem e nos temas sobre o cotidiano, tudo sem deixar o lirismo de lado.

Rubem Braga faleceu em 1990 e nos deixou uma obra espetacular.

Karina

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Frase da semana

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“Transportai um punhado de terra todos os dias e, logo, terás uma montanha”. (Confúcio)

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Mais uma vez Clarice

O INTRANSPONÍVEL

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Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.

Na rua vazia as pedras vibravam de calor – a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de táxi. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher ? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.

Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.

Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.

A menina abriu os olhos pasmada. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.

Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava ? Um grande soluço sacudiu-a desafiando. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.

Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.

Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos.

No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos – lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.

Mas ambos eram comprometidos.

Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ele fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.

A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com os olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina.

Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.

(Clarice Lispector in A Descoberta do Mundo – Editora Nova Fronteira – 2ª edição)

Karina

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Noite dos Mascarados

Chico Buarque dispensa comentários. Ele é uma espécie de Midas, tudo em que põe a mão vira ouro, seja no teatro, na música ou na literatura.

E como letra de música não deixa de ser literatura, resolvemos postar aqui a bela composição “Noite dos Mascarados”, escrita em 1966, em momento inspiradíssimo do maravilhoso Chico.

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NOITE DOS MASCARADOS


Quem é você?

Adivinhe, se gosta de mim

Hoje os dois mascarados

Procuram os seus namorados

Perguntando assim:

Quem é você, diga logo

Que eu quero saber o seu jogo

Que eu quero morrer no seu bloco

Que eu quero me arder no seu fogo


Eu sou seresteiro

Poeta e cantor

O meu tempo inteiro

Só zombo do amor

Eu tenho um pandeiro

Só quero violão

Eu nado em dinheiro

Não tenho um tostão

Fui porta-estandarte

Não sei mais dançar

Eu, modéstia à parte

Nasci pra sambar

Eu sou tão menina

Meu tempo passou

Eu sou Colombina

Eu sou Pierrot


Mas é carnaval

Não me diga mais quem é você

Amanhã, tudo volta ao normal

Deixe a festa acabar

Deixe o barco correr

Deixe o dia raiar

Que hoje eu sou

Da maneira que você me quer

O que você pedir

Eu lhe dou

Seja você quem for

Seja o que Deus quiser

Seja você quem for

Seja o que Deus quiser.


Link do vídeo da música no youtube:

Telma

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Frase da Semana

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Não há longa noite que não encontre o dia.”

(William Shakespeare)


Karina

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