Mais um belo poema do grande poeta francês Charles Baudelaire:
As Jóias
A amada estava nua e, por ser eu seu amante,
Das jóias só guardara as que o bulício inquieta,
Cujo rico esplendor lhe dava esse ar triunfante
Que em seus dias de glória a escrava moura afeta.
/
Quando ela dança e entorna um timbre acre e sonoro,
Este universo mineral que à luz figura
Ao êxtase me leva, e é com furor que adoro
As coisas em que o som ao fogo se mistura.
/
Ela estava deitada e se deixava amar,
E do alto do divã, imersa em paz, sorria
A meu amor profundo e doce como o mar,
Que ao corpo, como à escarpa, em ondas lhe subia.
/
O olhar cravado em mim, como um tigre abatido,
Com ar vago e distante ela ensaiava poses,
E o lúbrico fervor à candidez unido
Punha-lhe um novo encanto às cruéis metamorfoses.
/
E sua perna e o braço, a coxa e os rins, untados
Como de óleo, imitar de um cisne a fluida linha,
Passavam diante de meus olhos sossegados;
E o ventre e os seios, como cachos de uma vinha,
/
Se aproximavam, mais sutis que Anjos do Mal,
Para agitar minha alma enfim posta em repouso,
Ou arrancá-la então a rocha de cristal
Onde, calma e sozinha, ela encontra pouso.
/
Como se a luz de um novo esboço, unidade eu via
De Antíope a cintura a um busto adolescente,
De tal modo que os quadris moldavam-lhe a bacia.
E a maquilagem lhe era esplêndida e luzente!
/
- E estando a lamparina agora agonizante,
Como na alcova houvesse a luz só da lareira
Toda vez que emitia um suspiro faiscante,
Inundava de sangue essa pele trigueira.
Karina

Karine Alves Ribeiro disse,
janeiro 13, 2012 @ 3:41 pm
Romântico, completo, sensível, sensual, lascivo, revigorante, maravilhoso! Quem dera os poetas de hoje, pudessem escrever com tamanha profundidade. Este poema me lembrou o poema de um amigo e escritor, Anisio Lana, em bora este poema dele seja um pouco mais tênue ao falar da sedução. Chama-se: “Quando uma mulher se despe.” http://www.recantodasletras.com.br/poesiasdeamor/398282
Telma e Karina disse,
janeiro 13, 2012 @ 4:43 pm
Belíssimo esse poema, né Karine? Você o descreveu muito bem. Gostei muito do poema indicado. Um abraço. Karina
Vinicius disse,
janeiro 13, 2012 @ 11:23 pm
Karina, concordo com a Karine, mas saliento que há poetas jovens com profundidade poética, no entanto, estão entrincheirados na letargia de nosso tempo, onde a poesia jaz quase como o latim, uma língua morta. Em caráter de informação: esse poema do Baudelaire é das “Flores do mal”?
Abraço
Telma e Karina disse,
janeiro 15, 2012 @ 11:40 pm
Olá, Vinicius. Você tem razão. A poesia está tão desprestigiada que muitos bons poetas passam despercebidos, infelizmente… Esse poema é das Flores do Mal sim, mas há diferenças na tradução, dependendo do tradutor. Um abraço. Karina
*Sô* disse,
janeiro 22, 2012 @ 12:56 pm
sensível lindo!
Bju