Belo poema de J. G. de Araújo Jorge

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“Orgulho “

Quando todos começarmos do chão como as sementes,

como as árvores fortes, como as árvores úteis,

e não houver parasitas dos ramos alheios;


quando a terra pertencer aos homens, como aos rios

que a fecundam sem ver cercados nem fronteiras;

e tudo o que existir, e o que for encontrado,

a água pura, o petróleo, o ouro, o fruto agreste,

não tiver donos também, como as auroras e os

crepúsculos,


como as estrelas e a noite, como as nuvens e o sol;

quando houver sempre um teto sobre todas as cabeças

resguardando-as das chuvas, protegendo-as dos

ventos,

como há sempre sobre nós o côncavo dos céus;


quando todos tiverem jardins, flores e pássaros,

ou crianças barulhentas, sadias e tagarelas,

e tiverem a horas certas, na mesa branca, o pão,

e a horas incertas no leito, o remédio necessário;


quando o trabalho for leve, alegre como a música

nas horas de prazer e despreocupação,

e em verdade, for a alegria e a música da vida;


quando a boca que se abre pela primeira vez

tiver um seio farto e o cuidado da ciência;

e a infância, liberdade, brinquedos e recreios,

e a juventude, livros, planos e companheiras,

e os homens todos, os mesmos meios de conquista,

e já não existir medo do mundo nem da vida

porque a vida e o mundo estarão ao nosso alcance;


quando a velhice não tiver mais receio do tempo

porque o tempo a levará em segurança ao fim;

quando já não houver trabalhos dignos e indignos

porque todas as parcelas estarão na mesma soma,

e o sábio e o operário, o artista e o camponês,

seguirem, paralelamente, os seus caminhos,

sem nunca se encontrar, mas sem humilhações;


quando as gramáticas e as raças não separarem os

homens

porque todos se entenderão sem raças nem

gramáticas,

e verão que mais além das cores e dos idiomas

está o Homem -  e só por isso, somos iguais e

irmãos;


quando nossos filhos crescerem sem a angústia do

futuro

e nós vivermos em paz sem as incertezas do presente,

e já não restar vestígios do ódio perdido no passado;


quando todos os templos erguerem sobre a terra

suas torres, minaretes, cruzes ou abóbadas,

e sobre eles, mais alto, o céu se desdobrar

para que todos os olhos se encontrem e se

compreendam;

quando todos começarmos do chão como as sementes

embora os galhos se elevem às mais várias alturas

e façam sobre o solo as sombras mais diversas;

e todos forem donos de seus próprios pés

e todos forem donos de suas próprias mãos,

e do seu pensamento, e do seu coração;


quando, enfim, nos tornarmos Senhores de nós

mesmos,

e não houver falsas leis servindo aos poderosos

e a justiça socorrer, na rua, aos homens todos;


quando chegar o momento em que a força será inútil,

porque todos seremos fortes e nada nos vencerá,

e não houver grades nos olhos, e não houver ferros

nos pulsos,

nem morais absurdas que nos deformem e domem:


- então, sim, bendirei o instante em que nasci

e sentirei o orgulho de ser homem!

José Guilherme de Araújo Jorge nasceu em 20 de maio de 1914, no Acre. Realizou os estudos primários em Rio Branco e depois partiu para o Rio de Janeiro, onde concluiu os estudos secundários. Cursou a Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, na qual foi fundador e presidente da Academia de Letras.

J. G. era colaborador de vários jornais e revistas da época e também orador oficial de diversas entidades universitárias, como a  UNE e a Associação Universitária.

Em 1965 se tormou professor de literaratura e história do famoso colégio Pedro II.

Muito ligado à politica, o poeta foi deputado federal por três vezes. Sua atuação política defendendo o socialismo e a democracia lhe rendeu perseguições.

J.G. de Araújo Jorge tem sua obra caracterizada pela temática social e política e pelo romantismo.

Faleceu em janeiro de 1987 e ficou conhecido como o “Poeta do Povo e da Mocidade”.

O poema acima foi retirado do livro Antologia Poética – Volume I – Editora Novo Tempo Edições.

Karina

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