Fragmento de livro: Menino de Engenho

Já mencionamos no blog nossa admiração pelo escritor José Lins do Rego, autor da segunda fase modernista no Brasil. Sua obra-prima, ponto mais alto de sua carreira literária, sem dúvida nenhuma se deu com a publicação de “Fogo Morto”. Aliás, há um post no blog com um trecho deste maravilhoso livro.

Hoje, decidimos colocar um excerto de outro livro do renomadíssimo, autor, falecido em 1957. Trata-se de “Menino de Engenho”, obra em que José Lins do Rego nos apresenta o personagem-narrador Carlos de Melo, um menino que perde a mãe e vai morar no engenho do avô.

A narrativa se dá em primeira pessoa e o menino Carlos conta suas peripécias no Engenho Santa Rosa, retratando fielmente a vida de todos aqueles que povoavam as fazendas que cultivavam cana-de-açúcar. O livro apresenta também personagens que serão retomados em outros romances do autor, como o Coronel Lula de Holanda, o Coronel José Paulino, o negro Passarinho, o sapateiro José Amaro, entre outros.

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Em “Menino do Engenho”, José Lins do Rego parte da visão infantil do narrador da estória para mostrar como viviam os escravos trabalhadores dos engenhos e os coronéis da época, trazendo um panorama da sociedade daquele tempo. No decorrer da narrativa, Carlos revela seus pensamentos, sentimentos e descobertas com relação à vida no engenho e à perda de sua ingenuidade de criança.

 Além disso, o livro tem um fundo autobiográfico, já que, em muitas passagens, traz recordações da própria infância e adolescência do autor.

Abaixo, segue um fragmento da mencionada obra, justamente uma passagem em que o garoto protagonista nos revela seu íntimo.

 Menino de Engenho é um livro que reputamos ser leitura indispensável àqueles que pretendem conhecer o modernismo brasileiro.

Era um menino triste. Gostava de saltar com os meus primos e fazer tudo o que eles faziam. Metia-me com os moleques por toda a parte. Mas, no fundo, era um menino triste. Às vezes dava para pensar comigo mesmo, e solitário anadava por debaixo das árvores da horta, ouvindo sozinho a cantoria dos pássaros.

Pensava então naquilo que junto de gente eu não podia pensar. Já estava no engenho há mais de quatro anos. Mudara muito desde que viera de Recife.

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 - Para o ano – diziam – iria para o colégio.

E o que seria esse colégio? Os meus primos contavam tanta coisa de lá, de um diretor medonho, de bancas, de castigos, de recreios, de exercícios militares, que me deixavam mesmo com vontade de ir com eles. Mas o engenho tinha tudo para mim. Tia Maria tomava conta de mim como se fosse mãe. E a lembrança de minha mãe enchia os meus retiros de cinza. Por que morrera ela? E de meu pai, por que não me davam notícias? Quando perguntava por ele, afirmavam que estava doente no hospital. E o hospital ia ficando assim um lugar donde não se voltava mais. Via gente do engenho que ia para lá, com carta do meu avô, não retornar nunca. E as negras quando falavam do hospital mudavam a voz: “Foi para o hospital.” Queriam dizer que foi morrer.

Tinha um medo doentio da morte. Aquilo da gente apodrecer debaixo da terra, ser comido pelos tapurus, me parecia incompreensível. Todo o mundo tinha que morrer. As negras diziam que alguns ficavam para semente. Eu me desejava entre estes felizardos. Por que não podia ficar para semente? Dentro de um navio, enquanto o mundo todo se acabasse. E nesse barco eu me via cercado de tudo que era bicho, e a minha tia Maria, a negra Generosa, a vovó Galdina, o meu avô, tudo que me amava estaria comigo. Esta horrível preocupação da morte tomava conta da minha imaginação.

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Fiquei um menino medroso. De dia, porém, esperando meus canários, amava a solidão. Era ela que deixava falar o que eu guardava por dentro – as minhas preocupações, os meus medos, os meus sonhos. O mundo de um menino solitário é todo dos seus desejos. Tudo eu queria ter nesses meus retiros:  o tesouro da história de Trancoso, o cavalinho de sela, aquela vara mágica das fadas, que viravam em tudo que a gente quisesse. Eu desejava também que a velha Sinhazinha morresse. Então começava a ver a minha inimiga trucidada, com os cavalos desembestados puxando-lhe o corpo pelos espinhos.”

 

Telma

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