
Lygia Bojunga é uma renomada escritora de literatura infantil, nascida em Pelotas (RS), cuja sensibilidade ao escrever para crianças é enorme e sua obra vem sendo premiada tanto no Brasil como internacionalmente.
De fato, a autora a que nos referimos lida com o mundo infantil com muita facilidade e sabe como ninguém mostrar o que vai dentro da alma de uma criança.
Um dos livros mais conhecidos e consagrados de Lygia é “A Bolsa Amarela”, que narra a estória de uma menina aprendendo a crescer. Nesse desafio, a personagem principal, Raquel, encara os problemas típicos de sua idade e passa a se descobrir enquanto pessoa, ao mesmo tempo em que tenta reprimir seus três grandes desejos: ser menino, se tornar escritora e crescer logo.
Num dado momento da narrativa, a menina ganha uma grande bolsa amarela e decide esconder dentro dela todas as suas vontades. A partir daí, vários episódios, mágicos e reais, passam a se desenvolver.
Trata-se de um livro muito especial, envolvente, que deve ser lido por crianças e por adultos, tamanha a magnitude da lição de vida que traz. Lígia Bojunga, com maestria, consegue se superar em “A Bolsa Amarela”.
Abaixo, reproduzimos um trecho desta magnífica obra da literatura infantil. Não ler é um pecado…
“Eu tenho que achar um lugar pra esconder as minhas vontades. Não digo vontade magra, pequenininha, que nem tomar sorvete a toda hora, dar sumiço na aula de matemática, comprar um sapato novo, que eu não aguento mais o meu. Vontade assim todo mundo pode ver, não tô ligando a mínima. Mas as outras – as três que de repente vão crescendo e engordando toda a vida – ah, essas eu não quero mais mostrar. De jeito nenhum.
Nem sei qual das três me enrola mais. Às vezes acho que é a vontade de crescer de uma vez e deixar de ser criança. Outra hora acho que é a vontade de ter nascido garoto em vez de menina. Mas hoje tô achando que é a vontade de escrever.
Já fiz de tudo pra me livrar delas. Adiantou? Hmm! É só me distrair um pouco e uma aparece logo. Ontem mesmo eu tava jantando e de repente pensei: puxa vida, falta tanto pra eu ser grande. Pronto: a vontade de crescer desatou a engordar, tive que sair correndo pra ninguém ver.
…
A bolsa amarela não tinha fecho. Já pensou? Resolvi que naquele dia mesmo eu ia arranjar um fecho pra ela.
Peguei um dinheiro que eu vinha economizando e fui numa casa que conserta e reforma bolsas. Falei que queria um fecho e o vendendor me mostrou um, dizendo que era o melhor que ele tinha. Custava muito caro, meu dinheiro não dava.
- E aquele? – apontei. Era um fecho meio pobre, mas brilhando que só vendo.
O homem fez cara de pouco caso, disse que não era bom. Experimentei.
- Mas ele abre e fecha tão bem.
O homem disse que o fecho era muito barato: ia enguiçar. Vibrei! Era isso mesmo que eu tava querendo: um fecho com vontade de enguiçar. Pedi pro vendendor atender outro freguês enquanto eu pensava um pouco. Virei pro fecho e passei uma cantada nele:
- Escuta aqui fecho, eu quero guardar umas coisas bem guardadas aqui dentro dessa bolsa. Mas você sabe como é que é, não é? Às vezes vão abrindo a bolsa da gente assim sem mais nem menos; se isso acontecer você precisa enguiçar, viu? Você enguiça quando eu pensar “enguiça”, enguiça?
O fecho ficou olhando pra minha cara. Não disse que sim nem que não. Eu vi que ele tava querendo uma coisa em troca.
- Olha, eu já vi que você tem mania de brilhar. Se você enguiçar na hora que precisa, eu prometo viver polindo você pra te deixar com essa pinta de espelho. Certo?
O fecho falou um tlique bem baixinho com todo o jeito de “certo”. Chamei o vendedor e pedi pra ele botar o fecho na bolsa.”
Telma







