Arquivo para Janeiro 7, 2009

Vamos sentir como Alberto Caeiro

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Fernando Pessoa é indispensável; leitura obrigatória. O mais interessante na obra desse português nascido em 1888, é o fenômeno da heteronímia. Como é sabido, o inigualável autor criou três personalidades literárias distintas, cada qual com seu nome próprio, suas características pessoais e seus atributos peculiares, distintos daqueles referentes a ele mesmo, Fernando Pessoa, seu criador.

Assim, ler Fernando Pessoa é ler quatro autores (no mínimo) diferentes ao mesmo tempo, ao gosto do leitor, que pode escolher entre Fernando Pessoa “ele-mesmo”, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.

Utilizando-se do recurso dos heterônimos, a obra de Fernando Pessoa pode ser classificada como multifacetada e completamente original, já que cada um dos “autores” criados escreve à sua maneira e sobre temas diferentes. Coisas de gênio, é claro.

Para hoje, selecionamos um trecho da série de  49 poemas intitulada ”Guardador de Rebanhos”, de Alberto Caeiro, escrita entre 1911 e 1912.

O heterônimo Alberto Caeiro é a criação de Fernando Pessoa que vive em absoluto contato com a natureza e sua filosofia de vida é sentir, sem muito pensar. Sua busca incessante é pela total naturalidade no viver. Procura ver as coisas como elas são, sem tentar atribuir-lhes significados ou razões de ser.

Abaixo, reproduzimos excerto de “Guardador de Rebanhos”.

“Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?

Sei lá o que penso do mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.

 

Que idéia tenho eu das cousas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma

E sobre a criação do Mundo?

 

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos

E não pensar. É correr as cortinas

Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

 

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.

Quem está ao sol e fecha os olhos,

Começa a não saber o que é o sol

E a pensar muitas cousas cheias de calor.

Mas abre os olhos e vê o sol,

E já não pode pensar em nada,

Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do sol não sabe o que faz

E por isso não erra e é comum e boa.

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Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?

A de serem verdes e copadas e de terem ramos

E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,

A nós,  que não sabemos dar por elas.

Mas que melhor metafísica que a delas,

Que é a de não saber para que vivem

Nem saber o que não sabem?” 

Telma

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Fábulas de Esopo e Bilac

Como já mostramos aqui neste blog, o grande poeta Olavo Bilac escreveu para adultos e para crianças.

Hoje postaremos mais poesia de Bilac para crianças. Desta vez, o poeta da perfeição transformou os ensinamentos contidos nas fábulas do lendário escritor grego Esopo em belos poemas.

Confiram:

“O Leão e o Camundongo

Um camundongo humilde e pobre
Foi um dia cair nas garras de um leão.
E esse animal possante e nobre
Não o matou por compaixão.

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Ora, tempos depois, passeando descuidoso,
Numa armadilha o leão caiu:
Urrou de raiva e dor, estorceu-se furioso…
Com todo o seu vigor as cordas não partiu.

Então, o mesmo fraco e pequenino rato
Chegou: viu a aflição do robusto animal,
E, não querendo ser ingrato,
Tanto as cordas roeu, que as partiu afinal…

Vede bem: um favor, feito aos que estão sofrendo,
Pode sempre trazer em paga outro favor.
E o mais forte de nós, do orgulho esquecendo,
Deve os fracos tratar com caridade e amor.”

 …

A Rã e o Touro

Pastava um touro enorme e forte, à beira d’água.
Vendo-o tão grande, a rã, cheia de inveja e mágoa,
Disse: “Por que razão hei de ser tão pequena,
Que aos outros animais só faça nojo e pena?

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Vamos! quero ser grande! incharei tanto, tanto,
Que, imensa, causarei às outras rãs espanto!”
Pôs-se a comer e a inchar. E às rãs interrogava:
Já vos pareço um touro?” E inchava, inchava, inchava!

Mas em vão! tanto inchou que, num tremendo estouro,
Rebentou e morreu, sem ficar como o touro.
Essa tola ambição da rã que quer ser forte
Muitos homens conduz ao desespero e à morte.

Gente pobre, invejando a gente que é mais rica,
Quer como ela gastar, e inda mais pobre fica:
- Gasta tudo o que tem, o que não tem consome,
E, por querer ter mais, vem a morrer de fome
.”

 Karina

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