
Fernando Pessoa é indispensável; leitura obrigatória. O mais interessante na obra desse português nascido em 1888, é o fenômeno da heteronímia. Como é sabido, o inigualável autor criou três personalidades literárias distintas, cada qual com seu nome próprio, suas características pessoais e seus atributos peculiares, distintos daqueles referentes a ele mesmo, Fernando Pessoa, seu criador.
Assim, ler Fernando Pessoa é ler quatro autores (no mínimo) diferentes ao mesmo tempo, ao gosto do leitor, que pode escolher entre Fernando Pessoa “ele-mesmo”, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.
Utilizando-se do recurso dos heterônimos, a obra de Fernando Pessoa pode ser classificada como multifacetada e completamente original, já que cada um dos “autores” criados escreve à sua maneira e sobre temas diferentes. Coisas de gênio, é claro.
Para hoje, selecionamos um trecho da série de 49 poemas intitulada ”Guardador de Rebanhos”, de Alberto Caeiro, escrita entre 1911 e 1912.
O heterônimo Alberto Caeiro é a criação de Fernando Pessoa que vive em absoluto contato com a natureza e sua filosofia de vida é sentir, sem muito pensar. Sua busca incessante é pela total naturalidade no viver. Procura ver as coisas como elas são, sem tentar atribuir-lhes significados ou razões de ser.
Abaixo, reproduzimos excerto de “Guardador de Rebanhos”.
“Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber o que não sabem?”
Telma

