Mais José Paulo Paes para a garotada

Trazemos mais dois poemas do escritor José Paulo Paes, que soube, com muito talento e criatividade, escrever para crianças.

O primeiro poema – Convite – como o próprio título diz, convida a criança a brincar com as palavras. É sem dúvida um incentivo para a garotada se animar a escrever mais, a dar asas à imaginação.

No segundo poema transcrito hoje – Pura Verdade - Paes brinca com o leitor e sua imaginação.

Divirtam-se:

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CONVITE

Poesia

é brincar com palavras

como se brinca

com bola, papagaio, pião.


Só que

bola, papagaio,pião

de tanto brincar

se gastam.


As palavras não:

quanto mais se brinca

com elas

mais novas ficam.


Como a água do rio

que é água sempre nova.


Como cada dia

que é sempre um novo dia.


Vamos brincar de poesia?


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PURA VERDADE

Eu vi um ângulo obtuso

Ficar inteligente

E a boca da noite

Palitar os dentes.


Vi um braço de mar

Coçando o sovaco

E também dois tatus

Jogando buraco.


Eu vi um nó cego

Andando de bengala

E vi uma andorinha

Arrumando a mala.


Vi um pé de vento

Calçar as botinas

E o seu cavalo-motor

Sacudir as crinas.


Vi uma mosca entrando

Em boca fechada

E um beco sem saída

Que não tinha entrada.


É a pura verdade,

A mais nem um til,

E tudo aconteceu

Num primeiro de abril.

Karina

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Machado de Assis e o ciúme

O gênio Machado de Assis falou sobre o sentimento ciúme em várias de suas obras. Em Dom Casmurro o ciúme é tema predominante; como todo mundo sabe, o livro narra a estória de um triângulo amoroso formado pelo obsessivo Bentinho, sua mulher – Capitu – e seu melhor amigo – Escobar.  Já no conto A Cartomante, o autor nos mostra as consequências drásticas causadas pelo ciúme.

No magnífico poema abaixo, extraído do livro Falenas, Machado de Assis uma vez mais traz o tema à baila e compara o ciúme a um verme, que consome progressivamente qualquer relacionamento amoroso.

Vejam:

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O Verme

Existe uma flor que encerra
Celeste orvalho e perfume.
Plantou-a em fecunda terra
Mão benéfica de um nume.

Um verme asqueroso e feio,
Gerado em lodo mortal,
Busca esta flor virginal
E vai dormir-lhe no seio.

Morde, sangra, rasga e mina,
Suga-lhe a vida e o alento;
A flor o cálix inclina;
As folhas, leva-as o vento,

Depois, nem resta o perfume
Nos ares da solidão…
Esta flor é o coração,
Aquele verme o ciúme.

Karina

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A Barata

Mais uma do inigualável Verissimo para animar a semana do respeitável leitor do blog. Boa segunda-feira!

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A BARATA

Veio o maître, chamado pelo garçom, e perguntou:

– Algum problema, cavalheiro?

– Problema, não. Barata.

– Pois não?

– Olhe.

O maître olhou e viu a barata no meio da salada.

– Sim…

– “Sim” diz você. Eu digo não. Pedi uma salada niçoise que, até onde eu sei, não leva barata.

– Por favor, fique calmo.

– Eu estou calmo.

– Vamos trocar por outra salada.

– Eu não quero outra salada. Quero uma satisfação.

– Foi um acidente.

– “Acidente” diz você. Eu digo: não sei não. Acidente seria se uma barata perdida, separada da sua turma, entrasse na cozinha por engano e pousasse na minha salada. Mas não foi isso que aconteceu. Para começar, esta barata está morta. Não duvido que o tempero da salada esteja de matar, duvido que tenha sido o causador da morte da barata. Obviamente, a barata já estava morta antes de cair na salada. Não há sinais de violência em seu corpo, logo ela deve ter sido vítima de agentes químicos, usados numa matança generalizada de baratas e outros bichos dentro da sua cozinha. É impossível precisar quando isso se deu. Só uma autópsia da barata revelaria a hora exata da morte. A dedetização da cozinha pode estar ainda afetando os alimentos, não só adornando-os com insetos mortos como temperando-os com veneno invisível. Se isso for verdade, quero uma satisfação.Sou um cidadão. Conheço meus direitos. Isto é uma democracia.

– Vou chamar o gerente.

Veio o gerente, chamado pelo maître, e disse que sim, a cozinha tinha sido dedetizada, mas um mês antes. Fora fechada para a operação. Não havia perigo de intoxicação dos alimentos, nem indício de que a barata na salada fosse resultado de uma dedetização recente.

– Então – sugeriu o cliente – ela demorou a morrer. Cambaleou, agonizante, pela cozinha durante um mês, até enxergar minha slada niçoise e escolher esta alface como sua mortalha. Eu vou botar a boca no mundo! Onde é que estamos?!

O gerente telefonou para o dono do restaurante que dali a pouco entrou pela porta pedindo desculpas e consideração. A dedetização da cozinha fora ordenada pela Secretaria Municipal de Saúde. Para confirmar isto, o dono do restaurante tinha trazido o secretário municipal da Saúde, que disse ter agido seguindo diretrizes do Ministério da Saúde. O ministro da Saúde foi convocado e, na chegada ao restaurante, se responsabilizou por tudo. Menos pela barata. A barata na salada não podia, cronologicamente, ser uma decorrência da dedetização. A não ser que alguém da cozinha a tivesse guardado, conservado no gelo e esperado a ocasião para…

O cliente interrompeu a especulação do ministro com um tapa na mesa e perguntou quem era o seu superior. O ministro suspirou e tirou seu telefone celular do bolso para convocar o presidente da República, que chegou em menos de meia hora, vestido a rigor.  Deixara uma recepção no palácio para atender ao chamado.

– Que foi? – perguntou o presidente.

– Olhe.

O presidente olhou e viu a barata. Disse:

– E daí?

– A responsabilidade é sua.

O presidente concordou com a cabeça.Perguntou o que o outro queria.

– Uma satisfação.

O presidente pediu desculpas. O homem não aceitou. O presidente ofereceu uma indenização. O homem não quis. Chamaram o misitro do Exército.

O general chegou e perguntou, como maître:

– Algum problema, cavalheiro?

O homem apontou para a salada. O general olhou, disse “Oba, uma azeitona!”, pegou a barata e a engoliu. Depois, o homem foi preso e processado por fazer acusações falsas ao restaurante. Era uma democracia até certo ponto.

Telma

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Sexta-feira divertida com Drummond

Com seu habitual senso de humor, Carlos Drummond de Andrade garante diversão e aprendizado com seus textos.

Vejam:

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CASO DE SECRETÁRIA

Foi trombudo para o escritório. Era dia de seu aniversário, e a esposa nem sequer o abraçara, não fizera a minima alusão á data. As crianças também tinham se esquecido. Então era assim que a familia o tratava? Ele que vivia para os seus, que se arrebentava de trabalhar, não merecer um beijo, uma palavra ao menos!

Mas, no escritório, havia flores à sua espera, sobre a mesa. Havia o sorriso e o abraço da secretária, que poderia muito bem ter ignorado o aniversário , e entretanto o lembrara. Era mais do que uma auxiliar, atenta, experimentada e eficiente, pé-de-boi da firma, como até então a considerara; era um coração amigo.

Passada a surpresa, sentiu-se ainda mais borocoxô: o carinho da secretária não curava, abria mais a ferida. Pois então uma estranha se lembrava dele com tais requintes, e a mulher e os filhos, nada? Baixou a cabeça, ficou rodando o lápis entre os dedos, sem gosto para viver.

Durante o dia, a secretária redobrou de atenções. Parecia querer consolá-lo, como se medisse toda a sua solidão moral, o seu abandono. Sorria, tinha palavras amáveis, e o ditado da correspondência foi entremeado de suaves brincadeiras da parte dela.

-O senhor vai comemorar em casa ou numa boate?

Engasgado, confessou-lhe que em parte nenhuma. Fazer anos é uma droga, ninguém gostava dele neste mundo, iria rodar por aí à noite, solitário, como o lobo da estepe.

- Se o senhor quisesse, podíamos jantar juntos – insinuou ela, discretamente.

E não é que podiam mesmo? Em vez de passar uma noite besta, ressentida – o pessoal lá em casa pouco está me ligando -, teria horas amenas, em companhia de uma mulher que – reparava agora – era bem bonita.

Daí por diante o trabalho foi nervoso, nunca mais que se fechava o escritório. Teve vontade de mandar todos embora, para que todos comemorassem o seu aniversário, ele principalmente. Conteve-se, no prazer ansioso da espera.

- Aonde você prefere ir? – perguntou, ao saírem.

- Se não se importa, vamos passar primeiro em meu apartamento. Preciso trocar de roupa.

Ótimo, pensou ele; faz-se a inspeção prévia do terreno e, quem sabe?

- Mas antes quero um drinque, para animar – ela retificou.

Foram ao drinque, ele recuperou não só a alegria de viver e de fazer anos como começou a fazê-los pelo avesso, remoçando. Saiu bem mais jovem do bar, e pegou-lhe do braço.

No apartamento, ela apontou-lhe o banheiro e disse-lhe que o usasse sem cerimônia. Dentro de quinze minutos ele poderia entrar no quarto, não precisava bater – e o sorriso dela, dizendo isto, era uma promessa de felicidade.

Ele nem percebeu ao certo se estava se arrumando ou se desarrumando, de tal modo os quinze minutos se atropelaram, querendo virar quinze segundos, no calor escaldante do banheiro e da situação. Liberto da roupa incômoda, abriu a porta do quarto. Lá dentro, sua mulher e seus filhos, em coro com a secretária, esperavam-no atacando Parabéns pra Você.

(texto extraído do livro “70 historinhas” – Editora Record)

Karina

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Beijo Eterno

Olavo Bilac estava inspiradíssimo quando elaborou esse poema. Vejam:

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BEIJO ETERNO


 

Quero um beijo sem fim,

Que dure a vida inteira e aplaque meu desejo!

Ferve-me o sangue. Acalma-o com teu beijo.

Beija-me assim!

O ouvido fecha ao rumor

Do mundo, e beija-me, querido!

Vive só para mim, só para a minha vida,

Só para meu amor!


 

Fora, repouse em paz

Dormida em calmo sono a calma natureza,

Ou se debata, das tormentas presas

-Beija ainda mais!

E, enquanto o brando calor

Sinto em meu peito o teu seio,

Nossas bocas febris se unam com o mesmo anseio,

Com o mesmo ardente amor!


 

Suceda a treva a luz!

Vele a noite de crepe a curva do horizonte;

Em véus de opala a madrugada aponte

Nos céus azuis,

E Vênus, como uma flor,

Brilhe, a sorri, do ocaso a porta,

Brilhe a porta do Oriente! A treva e a luz – que importa?

Só nos importa o amor!


 

Raive o Sol no Verão

Venha o outono! do inverno os frígidos vapores

Toldem o céu! das aves e das flores

Venha a estação!

Que nos importa o esplendor

Da primavera, e o firmamento

Limpo, e o sol cintilante, e a neve, e a chuva, e o vento?

Beijemo-nos amor!


 

Beijemo-nos! Que o mar

Nossos beijos ouvindo, em pasmo a voz levante!

E cante o sol! A ave desperte e cante!

Cante o luar,

Cheio de novo fulgor!

Cante a amplidão! Cante a floresta!

E a natureza toda, em delirante festa

cante, cante este amor!


 

Diz tua boca: “Vem!”

“Inda mais!”, diz a minha, a soluçar … Exclama

Todo meu corpo que o teu corpo chama:

“Morde também!”

Ai! Morde! Que doce é a dor

Que entra as carnes, e as tortura!

Beija mais! Morde mais! Que eu morra de ventura,

Morto por teu amor!


 

Quero um beijo sem fim,

Que dure a vida inteira e aplaque meu desejo!

Ferve-me o sangue. Acalma-o com teu beijo.

Beija-me assim!

O ouvido fecha ao rumor

Do mundo, e beija-me, querida!

Vive só para mim, só para a minha vida,

Só para meu amor!

Karina

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Os Meses, de Olavo Bilac: Julho

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Coro de crianças:

Passem os meses desfilando!

Venha cada um por sua vez!

Dancemos todos, escutando

O que nos conta cada mês!

Julho:

Mais curtos são os dias…

As noites são mais frias,

E custam a passar…

Que cômodo o descanso,

Na calma, no remanso,

Na placidez do lar…

Que paz, e que franqueza,

Quando, ao redor da mesa,

À luz do lampião,

A gente se congrega,

E ao júbilo se entrega

De doce comunhão!

Amigos, estudemos!

E esta estação saudemos

Bondosa, que nos traz

As longas noites calmas

Que dão às nossas almas

O Amor, o Estudo e a Paz!

Coro de crianças:

O mês de julho oculta o rosto…

O seu encanto se desfez…

Entre na roda o mês de agosto!

Entre na dança o oitavo mês!


Karina

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Canção Excêntrica

Hoje presenteamos o leitor com uma belíssima poesia da magistral Cecília Meireles, do conjunto de poemas “Vaga Música”, escrito em 1942. Extremamente racional frente aos temas mais filosóficos da vida, a autora também se apresenta com uma fragilidade pungente. Maravilhoso!

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CANÇÃO EXCÊNTRICA

Ando à procura de espaço

para o desenho da vida.

Em números me embaraço

e perco sempre a medida.

Se penso encontrar saída,

em vez de abrir um compasso,

protejo-me num abraço

e gero uma despedida.


Se volto sobre meu passo,

é já distância perdida.


Meu coração, coisa de aço,

começa a achar um cansaço

esta procura de espaço

para o desenho da vida.

Já por exausta e descrida

não me animo a um breve traço:

– saudosa do que não fço

– do que faço, arrependida.

Telma

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Murilo Mendes em conta-gotas

O utopista


Ele acredita que o chão é duro

Que todos os homens estão presos

Que há limites para a poesia

Que não há sorrisos nas crianças

Nem amor nas mulheres

Que só de pão vive o homem

Que não há um outro mundo.


A tentação


Diante do crucifixo

Eu paro pálido tremendo

“ Já que és o verdadeiro filho de Deus

Desprega a humanidade desta cruz”.


O mau samaritano


Quantas vezes tenho passado perto de um doente,

Perto de um louco, de um triste, de um miserável,

Sem lhes dar uma palavra de consolo.

Eu bem sei que minha vida é ligada à dos outros,

Que outros precisam de mim que preciso de Deus

Quantas criaturas terão esperado de mim

Apenas um olhar – que eu recusei.

Karina


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Livros: os melhores amigos

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Tenho amigos cuja companhia me é extremamente agradável: são de todas as idades e vêm de todos os países. Eles se distinguiram tanto nos escritórios quanto nos campos, e obtiveram altas honrarias por seu conhecimento nas ciências. É fácil ter acesso a eles: estão sempre à disposição, e eu os admito em minha companhia, e os despeço, quando bem entendo. Nunca dão problemas, e respondem prontamente a cada pergunta que faço. Alguns me contam histórias de eras passadas, enquanto outros me revelam os segredos da natureza. Alguns, pela sua vivacidade, levam embora minhas preocupações e estimulam meu espírito, enquanto outros fortificam minha mente e me ensinam a importante lição de refrear meus desejos e de depender só de mim. Eles abrem, em resumo,  as várias avenidas de todas as artes e ciências, e eu confio em suas informações inteiramente, em todas as emergências. Em troca de todos esses serviços, apenas pedem que eu os acomode em algum canto de minha humilde morada, onde possam repousar em paz – pois esses amigos deleitam-se mais com a tranquilidade da solidão do que com os tumiltos da sociedade.

O texto acima, de Francesco Petrarca, foi retirado do livro  “A Paixão pelos Livros” – Editora Casa da Palavra e organização de Martha Ribas e Júlio Silveira.

Petrarca (1304-1374) nasceu na Itália e foi um dos poetas mais reconhecidos de sua época, tendo influenciado positivamente a literatura ocidental com a sua obra. Seus textos mais conhecidos são os dedicados a sua musa inspiradora Laura de Noves.

Karina

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Mais Baudelaire

Como já dissemos aqui no blog, o escritor francês Charles Baudelaire foi amplamente censurado na ocasião em que divulgou a sua obra mais famosa – “As Flores do Mal”. O livro, de fato, só foi publicado na íntegra após a morte do poeta.

O poema trazido abaixo foi um dos quais  Baudelaire  teve que retirar do livro em decorrência de ordem judicial e se refere, segundo estudiosos, a uma animadora parisiense de nome Apollonia Sabatier, que inclusive teria tido um caso com o poeta.

Vejam o estilo ousado e violento do escritor francês que mostrou o lado podre e miserável da sociedade parisiense  e aguardem novos posts sobre a sua obra:

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A QUE ESTÁ SEMPRE ALEGRE


Teu ar, teu gesto, tua fronte

São belos qual bela paisagem;

O riso brinca em tua imagem

Qual vento fresco no horizonte.


A mágoa que te roça os passos

Sucumbe à tua mocidade,

À tua flama, à claridade

Dos teus ombros e dos teus braços.


As fulgurantes, vivas cores

De tua vestes indiscretas

Lançam no espírito dos poetas

A imagem de um balé de flores.


Tais vestes loucas são o emblema

De teu espírito travesso;

Ó louca por quem enlouqueço,

Te odeio e te amo, eis meu dilema!


Certa vez, num belo jardim,

Ao arrastar minha atonia,

Senti, como cruel ironia,

O sol erguer-se contra mim;


E humilhado pela beleza

Da primavera ébria de cor,

Ali castiguei numa flor

A insolência da Natureza.


Assim eu quisera uma noite,

Quando a hora da volúpia soa,

Às frondes de tua pessoa

Subir, tendo à mão um açoite,


Punir-te a carne embevecida,

Magoar o teu peito perdoado

E abrir em teu flanco assustado

Uma larga e funda ferida,


E, como êxtase supremo,

Por entre esses lábios frementes,

Mais deslumbrantes, mais ridentes,

Infundir-te, irmã, meu veneno!


Karina

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