O Poço, de Pablo Neruda

O Poço

Cais, às vezes, afundas

em teu fosso de silêncio,

em teu abismo de orgulhosa cólera,

e mal consegues

voltar, trazendo restos

do que achaste

pelas profunduras da tua existência.


Meu amor, o que encontras

em teu poço fechado?

Algas, pântanos, rochas?

O que vês, de olhos cegos,

rancorosa e ferida?


Não acharás, amor,

no poço em que cais

o que na altura guardo para ti:

um ramo de jasmins todo orvalhado,

um beijo mais profundo que esse abismo.


Não me temas, não caias

de novo em teu rancor.

Sacode a minha palavra que te veio ferir

e deixa que ela voe pela janela aberta.

Ela voltará a ferir-me

sem que tu a dirijas,

porque foi carregada com um instante duro

e esse instante será desarmado em meu peito.


Radiosa me sorri

se minha boca fere.

Não sou um pastor doce

como em contos de fadas,

mas um lenhador que comparte contigo

terras, vento e espinhos das montanhas.


Dá-me amor, me sorri

e me ajuda a ser bom.

Não te firas em mim, seria inútil,

não me firas a mim porque te feres.

Karina

Deixe um comentário »

O homem que queria eliminar a memória

Ignácio de Loyola Brandão já foi recomendado aqui no blog. Trata-se de um escritor realista muito original, que escreveu contos inteligentes e diferenciados.

Hoje trazemos “O homem que queria eliminar a memória”, conto surpreendente que certamente agradará ao leitor.

O homem que queria eliminar a memória

Entrou no hospital, mandou chamar o melhor neurocirurgião. Disse que era caso de vida e morte. Não se sabe como, o melhor neurocirurgião foi atendê-lo. Médicos são imprevisíveis. Precisa-se muito e eles falham; subitamente, estão ali, salvando nossas vidas, ele pensou, sem se incomodar com o lugar-comum.

Estava na sala diante do doutor. Uma sala branca, anônima. Por que são sempre assim, derrotando a gente logo de entrada?

O médico:

– Sim?

– Quero me operar. Quero que o senhor tire um pedaço do meu cérebro.

– Um pedaço do cérebro? Por que vou tirar um pedaço do seu cérebro?

– Porque eu quero.

– Sim, mas precisa me explicar. Justificar.

– Não basta eu querer?

– Claro que não.

– Não sou dono do meu corpo?

– Em termos.

– Como em termos?

– Bem, o senhor é e não é. Há certas coisas que o senhor está impedido de fazer. Ou melhor; eu é que estou impedido de fazer no senhor.

– Quem impede?

– A ética, a lei.

– A sua ética manda também no meu corpo? Se pago, se quero, é porque quero fazer do meu corpo aquilo que desejo. E se acabou.

– Olha, a gente vai ficar o dia inteiro nesta discussão boba. E não tenho tempo a perder. Por que o senhor quer cortar um pedaço do cérebro?

– Quero eliminar a minha memória.

– Para quê?

– Gozado, as pessoas só sabem perguntar: o quê? por quê? para quê? Falei com dezenas de pessoas e todos me perguntaram: por quê? Não podem aceitar pura e simplesmente alguém que deseja eliminar a memória.

– Já que o senhor veio a mim para fazer esta operação, tenho ao menos o direito dessa informação.

– Não quero mais lembrar de nada. Só isso. As coisas passaram, passaram. Fim!

– Não é tão simples assim. Na vida diária, o senhor precisa da memória. Para lembrar pequenas coisas. Ou grandes. Compromissos, encontros, coisas a pagar.

– É tudo isso que vou eliminar. Marco numa agenda, olho ali e pronto.

– Não dá para fazer isso, de qualquer modo. A medicina não está tão adiantada assim.

– Em lugar nenhum posso eliminar a minha memória?

– Que eu saiba não.

– Seria muito melhor para os homens. O dia a dia. O dia de hoje para a frente. Entende o que eu quero dizer? Nenhuma lembrança ruim ou boa, nenhuma neurose. O passado fechado, encerrado. Definitivamente bloqueado. Não seria engraçado? Não se lembrar sequer do que se tomou no café da manhã? E para que quero me lembrar do que tomei no café da manhã?

– Se todo mundo fizesse isso, acabaria a história.

– E quem quer saber de história?

– Imaginou o mundo?

– Feliz, tranquilo. Só de futuro. O dia em vez de se transformar em passado de hoje, mudando-se em futuro. Cada instante projetado para a frente.

– Não seria bem assim. Teríamos apenas uma soma de instantes perdidos. Nada mais. Cada segundo eliminado. A sua existência comprovada através de quê?

– Quem quer comprovar a existência?

– A gente precisa.

– Para quê?

O médico pensou. Não conseguiu responder. O homem tinha-o deixado totalmente confuso. Pediu ao homem que voltasse outro dia. Despediram-se. O médico subiu para os brancos corredores do hospital, passou pela sala de operações. Chamou um amigo.

– Estou pensando em tirar um pedaço do meu cérbro. Eliminar a memória. O que você acha?

– Muito boa idéia. Por que não pensamos nisto antes? Opero você e depois você me opera. Também quero.

Telma

Deixe um comentário »

Frase da Semana

” A vida do homem é como uma vela acesa ao vento.”

(Sabedoria Proverbial)

Telma

Deixe um comentário »

Gabriela, cravo e canela

Hoje vamos falar de um dos maiores e mais populares escritores brasileiros de todos os tempos: Jorge Amado.

O escritor nasceu em 1912 no município de Itabuna, na Bahia e  ingressou cedo na vida literária, com apenas 14 anos de idade. Em Salvador, participava de grupos literários e contribuía com seus textos em diversas revistas especializadas em literatura.

Sua estréia oficial, no entanto, se deu somente em 1930 com a publicação da novela “Lenita”.  Depois publicou diversos romances inesquecíveis,  traduzidos para várias línguas e adaptados para o cinema, o teatro e a televisão.

Jorge Amado se formou em Direito, mas nunca exerceu a profissão.  Seu engajamento político e sua  filiação ao Partido Comunista Brasileiro lhe trouxeram perseguições e o exílio.

A infância do escritor, passada na zona cacaueira entre a população humilde, e a sua participação ativa na política marcaram a sua obra. Jorge Amado escreveu romances sociais, nos quais retrata a vida de pessoas marginalizadas; romances mais políticos e revolucionários; além de escrever também sobre o ciclo do cacau, descrevendo a exploração do trabalhador rural e os exportadores de cacau. Tudo isso sem perder o lirismo e a emoção.

Estudiosos da literatura brasileira resumem toda a obra de Jorge Amado em uma única palavra: liberdade.

De fato, Jorge Amado demonstra em seus romances que o maior bem do ser humano é a liberdade e que vale a pena buscá-la.

“Gabriela, cravo e canela”,  publicado em 1958 narra o amor entre Gabriela – retirante vinda da seca – e Nacib – árabe dono de um bar em Ilhéus, tendo como pano de fundo a ascensão da produção de cacau na cidade e as mudanças sociais acarretadas pelo declínio de uma sociedade patriarcal dirigida pelos velhos coronéis.

Gabriela, com seu jeito simples, puro e livre  é a personificação de tais mudanças sociais.

Aqui vão alguns trechos deste delicioso e  imperdível romance:

“Só Gabriela parecia não sentir a caminhada, seus pés como que deslizando pela picada muitas vezes aberta na hora a golpes de facão, na mata virgem. Como se não existissem as pedras, os tocos, os cipós emaranhados. A poeira dos caminhos da caatinga a cobrira tão por completo que era impossível distinguir seus traços. Nos cabelos já não penetrava o pedaço de pente, tanto pó se acumulara. Parecia uma demente perdida nos caminhos. Mas Clemente sabia como ela era deveras e o sabia em cada partícula de seu ser, na ponta dos dedos e na pele do peito. Quando os dois grupos se encontraram, no começo da viagem, a cor do rosto de Gabriela e de suas pernas era ainda visível e os cabelos rolavam sobre o cangote,  espalhando perfume. Ainda agora, através da sujeira a envolvê-la, ele a enxergava como a vira no primeiro dia, encostada numa árvore, o corpo esguio, o rosto sorridente, mordendo uma goiaba.”

(…)

“De árabe e turco muitos o tratavam, é bem verdade. Mas o faziam exatamente seus melhores amigos e o faziam numa expressão de carinho, de intimidade. De turco ele não gostava que o chamassem, repelia irritado o apodo, por vezes chegava a se aborrecer:

- Turco é a mãe!

-Mas, Nacib…

- Tudo que quiser, menos turco. Brasileiro – batia com a mão enorme no peito cabeludo – filho de sírios, graças a Deus.

Talvez assim o chamassem menos por sua ascendência levantina que pelos bigodões negros de sultão destronado, a descer-lhe pelos lábios, cujas pontas ele cofiava ao conversar. Frondosos bigodes plantados num rosto gordo e bonachão, de olhos desmesurados, fazendo-se cúpidos à passagem de mulheres. Boca gulosa, grande e de riso fácil. Um enorme brasileiro, alto e gordo, cabeça chata e farta cabeleira, ventre demasiadamente crescido, barriga de nove meses, como pilheriava o Capitão ao perder uma partida no tabuleiro de damas.”

(…)

“- O coronel Jesuíno matou dona Sinhazinha e o doutor Osmundo. Tá tudo lá no meio do sangue…

A notícia do crime espalhara-se num abrir e fechar de olhos. Do morro do Unhão ao morro da Conquista, nas casas elegantes da praia e nos casebres da ilha das Cobras, no Pontal e no Malhado, nas residências familiares e nas casas de mulheres públicas, comentava-se o acontecido.

E toda aquela gente terminava no bar de Nacib, enchendo as mesas, comentando e discutindo. Unanimemente davam razão ao fazendeiro, não se elevava voz – nem mesmo de mulher em átrio de igreja – para defender a pobre e formosa Sinhazinha. Mais uma vez o coronel Jesuíno demonstrara ser homem de fibra, decidido, corajoso, íntegro, como aliás à saciedade o provara durante a conquista da terra.

- Não há dúvida, é isso mesmo… disse Ribeirinho – Foi bom exemplo, Jesuíno agiu como devia.

- Não discuto isso – falou o Capitão. – Mas a verdade é que você, dr. Maurício, e muitos outros são contra o progresso.

- Desde quando progresso é safadeza?

- São contra sim, e não me venha com esaa conversa de safadeza numa terra cheia de cabarés e de mulheres perdidas, onde cada homem rico tem sua rapariga. Vocês são contra o cinema, um clube social, até festas familiares. Vocês querem as mulheres trancadas em casa, na cozinha…”

(…) 

“Foi quando surgiu outra mulher, vestida de trapos miseráveis, coberta de tamanha sujeira que era impossível ver-lhe as feições e dar-lhe idade, os cabelos desgrenhados, imundos de pó, os pés descalços.

Voltou a examiná-la, era forte, por que não experimentá-la?

- Sabe mesmo cozinhar?

- O moço me leva e vai ver…”

(…)

“Entrou de mansinho e a viu dormida numa cadeira. Os cabelos longos espalhados nos ombros. Depois de lavados e penteados tinham-se transformado em cabeleira solta, negra, encaracolada. Vestia trapos, mas limpos, certamente os da trouxa. Um rasgão na saia mostrava um pedaço de coxa cor de canela, os seios subiam e desciam levemente ao ritmo do sono, o rosto sorridente.

- Meu Deus! – Nacib ficou parado sem acreditar.

A espiá-la, um espanto sem limites, como tanta boniteza se escondera sob a poeira dos caminhos? Caído o braço roliço, o rosto moreno sorrindo no sono, ali, adormecida na cadeira, parecia um quadro. Quantos anos teria? Corpo de mulher jovem, feições de menina.”

(…)

“Mais tarde iria na loja do tio, traria um vestido barato, um par de chinelas. E acertaria com a cozinheira os salgados e doces para o bar. Não pensara que aquela retirante, coberta de poeira, vestida de trapos, soubesse cozinhar… E que a poeira escondesse tanto encanto, tanta sedução…”

(…)

“O desejo subia no peito de Nacib, apertava-lhe a garganta. Seus olhos se escureciam, o perfume de cravo o tonteava, ela tomava do vestido para melhor ver, sua nudez cândida ressurgia.

- Bonito… Fiquei acordada, esperando pro moço me dizer a comida de amanhã. Ficou tarde, vim deitar…

- Tive muito trabalho – as palavras saíam-lhe a custo.

- Coitadinho. Não tá cansado?

Dobrava o vestido, colocava os chinelos no chão.

- Me dê, penduro no prego.

Sua mão tocou a mão de Gabriela, ela riu:

- Mão mais fria…

Ele não pôde mais, segurou-lhe o braço, a outra procurou o seio crescendo ao luar. Ela o puxou pra si:

- Moço bonito…

O perfume de cravo enchia o quarto, um calor vinha do corpo de Gabriela, envolvia Nacib, quimava-lhe a pele, o luar morria na cama. Num sussuro entre beijos, a voz de Gabriela agonizava:

- Moço bonito…”

Karina

Comentários (4) »

Lindo poema de Cecília Meireles para crianças

O lindíssimo poema abaixo, retirado do livro “Ou isto ou aquilo” é destinado aos leitores mirins, mas encanta também os adultos. Afinal, quem já não sonhou com o utópico “último andar” para esquecer as dificuldades?

Confiram:

O ÚLTIMO ANDAR

No último andar é mais bonito:

do último andar se vê o mar.

É lá que eu quero morar.


O último andar é muito longe:

custa-se muito a chegar.

Mas é lá que eu quero morar.


Todo o céu fica a noite inteira

sobre o último andar

É lá que eu quero morar.


Quando faz lua no terraço

fica todo o luar.

É lá que eu quero morar.


Os passarinhos lá se escondem

para ninguém os maltratar:

no último andar.


De lá se avista o mundo inteiro:

tudo parece perto, no ar.

É lá que eu quero morar:

no último andar.

Karina

Comentários (4) »

Frase da Semana

“Às cinco da manhã, a angústia se veste de branco.” (Vinicius de Moraes)


Karina


Deixe um comentário »

Todas as cores de Lygia Bojunga

Lygia Bojunga, sem favor nenhum, é uma das maiores escritoras brasileiras voltadas ao público infantil. Ela é inteligente, original, densa e inspirada.  Mais do que isso: é uma verdadeira especialista quando o assunto é entender a cabeça e o comportamento de crianças e adolescentes. Todas as suas obras são encantadoras.

Hoje nosso objetivo é recomendar ao nobre leitor a leitura de um dos grandes livros da referida autora. Trata-se de “O meu amigo pintor”,  escrito em 1987, que conta a envolvente estória de amizade entre um esperto adolescente e um pintor muito sensível e solitário. O sentimento que nasce entre os dois personagens que protagonizam o enredo é muito bonito e gera um aprendizado mútuo entre eles. Vale a pena conhecer.

A seguir, trazemos alguns trechos de “O meu amigo pintor”, para aguçar o espírito curioso dos frequentadores do blog:

“Eu não sei se eu já nasci desse jeito ou se eu fui ficando assim por causa do meu amigo pintor, mas quando eu olho pra uma coisa eu me ligo logo é na cor.

Gente, casa, livro, é sempre igual: primeiro eu fico olhando pra cor do olho: da porta, da capa: só depois eu começo a ver o jeito que o resto tem.

Um dia o meu amigo me disse que eu era um garoto com alma de artista, e me deu um álbum com uns trabalhos que ele tinha efeito em aquarela, tinta a óleo e pastel. Disse que tinha arrumado os trabalhos no álbum pra eu entender melhor esse negócio de cor. Nas primeiras páginas só tinha cor. Quer dizer, no princípio, nem cor tinha: era só branco e preto; depois começavam as cores: amarelo, azul, vermelho, e depois essas três cores iam se misturando pra formar uma porção, nuns desenhos que às vezes eu gostava e outras vezes não.

O meu amigo me disse que quanto mais a gente prestava atenção numa cor, mais coisa saía de dentro dela. Eu fiquei olhando pra cara dele sem entender. Não entendi  mesmo aquela história de tanta coisa ir saindo de dentro de uma cor.

De tudo que eu conversava com o meu Amigo tem duas coisas que eu lembro mais. Não sei por quê. A primeira é um papo que a gente teve num domingo. tava chovendo. A gente tinha acabado de jogar. O meu Amigo levantou, acendeu o cachimbo, começou a preparar umas tintas, e então conversou de amor:

Amor de trabalhar. De pintar. Amor de homem e de mulher, de pai, de mãe, amor de cidade-de país- e-de mundo onde a gente mora, amor de filho, de amigo.

– Amor assim feito a gente tem um pelo outro – ele falou.

O meu coração pulou.

Toda a vida eu gostei do meu Amigo assim… assim bem grande; mas eu sempre pensei que ele gostava menor de mim. Não sei se porque eu era criança e ele não; ou se porque ele era um artista e eu não; só sei que quando ele falou de amor o meu coração pulou daquele jeito: será que então a gente se gostava igual?”

Telma

Deixe um comentário »

Frase da Semana

“Por certo, os que não obtêm dentro de si os recursos necessários para viver na felicidade acharão execráveis todas as idades da vida.”

Cícero

Telma

Deixe um comentário »

Sempre Clarice

Não podemos deixar de render nossas eternas homenagens a uma escritora tão completa, profunda e maravilhosa como foi Clarice Lispector. Lembrar dela é reverenciar a própria literatura. Clarice foi a mais inteligente escritora brasileira de todos os tempos.

Abaixo segue mais um conto da magnífica autora que integra o livro “Felicidade Clandestina”. A consciência da escritora, de uma lucidez pungente, sua clareza ao explicar coisas indescritíveis para a maioria dos pobres mortais é fascinante e avassaladora. Vale a pena conferir:


Perdoando Deus


Eu ia andando pela avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade. Não era tour de proprétaire, nada daquilo era meu, nem eu queria. Mas parece-me que me sentia satisfeita com o que via.

Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho, mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso “fosse mesmo” o que eu sentia – e não possivelmente um equívoco de sentimento – que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenhum compromisso comigo. Ser-Lhe-ia aceitável a intimidade com que eu fazia carinho. O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo, e reverência. Mas nunca tinham me falado de carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre.

E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.

Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contiguidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admito e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante. Bem poderia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva. Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurando esquecer. Mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia eu contra um Deus Todo-Poderoso, contra um Deus que até com um rato esmagado podia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só. Na minha vontade de vingança nem ao menos eu podia encará-Lo, pois eu não sabia onde é que Ele mais estava, qual seria a coisa onde Ele mais estava e que eu, olhando com raiva essa coisa, eu O visse? no rato? naquela janela? nas pedras do chão? Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais.

Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar – não conte, só por carinho não conte, guarde para você mesma as vergonhas Dele – mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação.

…mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, eu eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre  tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque eu ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia seu eu também queria o rato para mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer da minha pior morte. Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala. Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de “mundo” esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho da minha natureza? Enquanto eu imaginar que “Deus” é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim mesma consegui foi me submeter a mim mesma, pois ou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.

Telma

Deixe um comentário »

Conversa de Botequim

O texto abaixo é a letra da canção “Conversa de Botequim” escrita pelo compositor brasileiro Noel Rosa em 1935.

A música retrata a figura do famoso “malandro carioca”, com seus truques e artimanhas e foi regravada por diversos cantores. Trata-se de uma composição extremamente  inteligente e bem humorada! Lamentavelmente, Noel Rosa faleceu em 1936, com apenas 26 anos!

O vídeo traz Chico Buarque interpretando “Conversa de Botequim” com o brilhantismo que lhe é peculiar.


Conversa de botequim

Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa

Uma boa média que não seja requentada.

Um pão bem quente com manteiga à beça,

Um guardanapo e um copo d´água bem gelada.

Feche a porta da direita com muito cuidado

Que não estou disposto a ficar exposto ao sol,

Vá perguntar ao seu freguês do lado

Qual foi o resultado do futebol.


Se você ficar limpando a mesa

Não me levanto nem pago a despesa…

Vá pedir ao seu patrão

Uma caneta, um tinteiro, um envelope e um cartão.

Não se esqueça de me dar palito

E um cigarro pra espantar mosquito.

Vá dizer ao charuteiro

Que me empreste umas revistas.

Um cinzeiro e um isqueiro.


Telefone ao menos uma vez

Para 34-4333

E ordene ao seu Osório

Que me mande um guarda-chuva

Aqui pro nosso escritório.

Seu garçom me empreste algum dinheiro

Que eu deixei o meu com o bicheiro.

Vá dizer ao seu gerente

Que pendure esta despesa

No cabide ali em frente.


Telma

Comentários (1) »