Hoje vamos falar de um dos maiores e mais populares escritores brasileiros de todos os tempos: Jorge Amado.
O escritor nasceu em 1912 no município de Itabuna, na Bahia e ingressou cedo na vida literária, com apenas 14 anos de idade. Em Salvador, participava de grupos literários e contribuía com seus textos em diversas revistas especializadas em literatura.
Sua estréia oficial, no entanto, se deu somente em 1930 com a publicação da novela “Lenita”. Depois publicou diversos romances inesquecíveis, traduzidos para várias línguas e adaptados para o cinema, o teatro e a televisão.
Jorge Amado se formou em Direito, mas nunca exerceu a profissão. Seu engajamento político e sua filiação ao Partido Comunista Brasileiro lhe trouxeram perseguições e o exílio.
A infância do escritor, passada na zona cacaueira entre a população humilde, e a sua participação ativa na política marcaram a sua obra. Jorge Amado escreveu romances sociais, nos quais retrata a vida de pessoas marginalizadas; romances mais políticos e revolucionários; além de escrever também sobre o ciclo do cacau, descrevendo a exploração do trabalhador rural e os exportadores de cacau. Tudo isso sem perder o lirismo e a emoção.
Estudiosos da literatura brasileira resumem toda a obra de Jorge Amado em uma única palavra: liberdade.
De fato, Jorge Amado demonstra em seus romances que o maior bem do ser humano é a liberdade e que vale a pena buscá-la.
“Gabriela, cravo e canela”, publicado em 1958 narra o amor entre Gabriela – retirante vinda da seca – e Nacib – árabe dono de um bar em Ilhéus, tendo como pano de fundo a ascensão da produção de cacau na cidade e as mudanças sociais acarretadas pelo declínio de uma sociedade patriarcal dirigida pelos velhos coronéis.
Gabriela, com seu jeito simples, puro e livre é a personificação de tais mudanças sociais.
Aqui vão alguns trechos deste delicioso e imperdível romance:

“Só Gabriela parecia não sentir a caminhada, seus pés como que deslizando pela picada muitas vezes aberta na hora a golpes de facão, na mata virgem. Como se não existissem as pedras, os tocos, os cipós emaranhados. A poeira dos caminhos da caatinga a cobrira tão por completo que era impossível distinguir seus traços. Nos cabelos já não penetrava o pedaço de pente, tanto pó se acumulara. Parecia uma demente perdida nos caminhos. Mas Clemente sabia como ela era deveras e o sabia em cada partícula de seu ser, na ponta dos dedos e na pele do peito. Quando os dois grupos se encontraram, no começo da viagem, a cor do rosto de Gabriela e de suas pernas era ainda visível e os cabelos rolavam sobre o cangote, espalhando perfume. Ainda agora, através da sujeira a envolvê-la, ele a enxergava como a vira no primeiro dia, encostada numa árvore, o corpo esguio, o rosto sorridente, mordendo uma goiaba.”
(…)
“De árabe e turco muitos o tratavam, é bem verdade. Mas o faziam exatamente seus melhores amigos e o faziam numa expressão de carinho, de intimidade. De turco ele não gostava que o chamassem, repelia irritado o apodo, por vezes chegava a se aborrecer:
- Turco é a mãe!
-Mas, Nacib…
- Tudo que quiser, menos turco. Brasileiro – batia com a mão enorme no peito cabeludo – filho de sírios, graças a Deus.
Talvez assim o chamassem menos por sua ascendência levantina que pelos bigodões negros de sultão destronado, a descer-lhe pelos lábios, cujas pontas ele cofiava ao conversar. Frondosos bigodes plantados num rosto gordo e bonachão, de olhos desmesurados, fazendo-se cúpidos à passagem de mulheres. Boca gulosa, grande e de riso fácil. Um enorme brasileiro, alto e gordo, cabeça chata e farta cabeleira, ventre demasiadamente crescido, barriga de nove meses, como pilheriava o Capitão ao perder uma partida no tabuleiro de damas.”
(…)
“- O coronel Jesuíno matou dona Sinhazinha e o doutor Osmundo. Tá tudo lá no meio do sangue…
A notícia do crime espalhara-se num abrir e fechar de olhos. Do morro do Unhão ao morro da Conquista, nas casas elegantes da praia e nos casebres da ilha das Cobras, no Pontal e no Malhado, nas residências familiares e nas casas de mulheres públicas, comentava-se o acontecido.
E toda aquela gente terminava no bar de Nacib, enchendo as mesas, comentando e discutindo. Unanimemente davam razão ao fazendeiro, não se elevava voz – nem mesmo de mulher em átrio de igreja – para defender a pobre e formosa Sinhazinha. Mais uma vez o coronel Jesuíno demonstrara ser homem de fibra, decidido, corajoso, íntegro, como aliás à saciedade o provara durante a conquista da terra.
- Não há dúvida, é isso mesmo… disse Ribeirinho – Foi bom exemplo, Jesuíno agiu como devia.
- Não discuto isso – falou o Capitão. – Mas a verdade é que você, dr. Maurício, e muitos outros são contra o progresso.
- Desde quando progresso é safadeza?
- São contra sim, e não me venha com esaa conversa de safadeza numa terra cheia de cabarés e de mulheres perdidas, onde cada homem rico tem sua rapariga. Vocês são contra o cinema, um clube social, até festas familiares. Vocês querem as mulheres trancadas em casa, na cozinha…”
(…)
“Foi quando surgiu outra mulher, vestida de trapos miseráveis, coberta de tamanha sujeira que era impossível ver-lhe as feições e dar-lhe idade, os cabelos desgrenhados, imundos de pó, os pés descalços.
Voltou a examiná-la, era forte, por que não experimentá-la?
- Sabe mesmo cozinhar?
- O moço me leva e vai ver…”
(…)
“Entrou de mansinho e a viu dormida numa cadeira. Os cabelos longos espalhados nos ombros. Depois de lavados e penteados tinham-se transformado em cabeleira solta, negra, encaracolada. Vestia trapos, mas limpos, certamente os da trouxa. Um rasgão na saia mostrava um pedaço de coxa cor de canela, os seios subiam e desciam levemente ao ritmo do sono, o rosto sorridente.
- Meu Deus! – Nacib ficou parado sem acreditar.
A espiá-la, um espanto sem limites, como tanta boniteza se escondera sob a poeira dos caminhos? Caído o braço roliço, o rosto moreno sorrindo no sono, ali, adormecida na cadeira, parecia um quadro. Quantos anos teria? Corpo de mulher jovem, feições de menina.”
(…)
“Mais tarde iria na loja do tio, traria um vestido barato, um par de chinelas. E acertaria com a cozinheira os salgados e doces para o bar. Não pensara que aquela retirante, coberta de poeira, vestida de trapos, soubesse cozinhar… E que a poeira escondesse tanto encanto, tanta sedução…”
(…)
“O desejo subia no peito de Nacib, apertava-lhe a garganta. Seus olhos se escureciam, o perfume de cravo o tonteava, ela tomava do vestido para melhor ver, sua nudez cândida ressurgia.
- Bonito… Fiquei acordada, esperando pro moço me dizer a comida de amanhã. Ficou tarde, vim deitar…
- Tive muito trabalho – as palavras saíam-lhe a custo.
- Coitadinho. Não tá cansado?
Dobrava o vestido, colocava os chinelos no chão.
- Me dê, penduro no prego.
Sua mão tocou a mão de Gabriela, ela riu:
- Mão mais fria…
Ele não pôde mais, segurou-lhe o braço, a outra procurou o seio crescendo ao luar. Ela o puxou pra si:
- Moço bonito…
O perfume de cravo enchia o quarto, um calor vinha do corpo de Gabriela, envolvia Nacib, quimava-lhe a pele, o luar morria na cama. Num sussuro entre beijos, a voz de Gabriela agonizava:
- Moço bonito…”
Karina